Contratos sem licitação e estouro financeiro em quase 700% da previsão inicial. O Pan do Rio de Janeiro tem chamado a atenção da população por esses fatores, somados aos tão falados atrasos nas obras. Mas para alguns ex-atletas brasileiros, mais preocupante que todo esse cenário é o esquecimento de investimento público em esporte como meio de educação, paralelamente aos gastos em estádios e arenas.
Menos pessimista que Ana Moser e Sócrates, o ex-velejador Lars Grael acredita que o Pan irá atrair mais recursos ao Rio e que tudo será entregue dentro do prazo prometido pela organização.
"Vejo com otimismo o Pan e creio que as obras vão ficar prontas. O padrão do Pan é bem inferior ao dos Jogos Olímpicos. Por isso, a referência para o Rio será o Pan de Santo Domingo, que foi ruim. Se o Pan do Rio for razoável, já será ótimo", disse.
Quanto ao aspecto esportivo, Grael prevê uma evolução no número de conquistas brasileiras, mas pede cautela ao analisá-la. "Daremos um salto no número de medalhas muito grande, mas isso não é tão real assim. Falta muito ainda para o Brasil ser destaque no cenário mundial." |
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| GRAEL: EVOLUÇÃO RELATIVA |
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Presentes a um lançamento de campanha que busca captar recursos para um projeto social, ex-atletas como Sócrates e Ana Moser falaram do andamento dos Jogos do Rio e mostraram, principalmente, tom de desânimo quanto ao legado que será deixado depois do evento.
Coordenadora e fundadora do Instituto Esporte e Educação, Ana Moser festeja o fato de o país poder receber um evento como o Pan, mas por outro lado cobra maior participação política na formação de crianças. "Pelo bem ou pelo mal, o Pan vai mexer com o Brasil. É positivo investir em grandes eventos, mas não só isso", disse ela.
"Deve-se investir no esporte educacional e discutir o que é política pública de esporte", acrescentou a ex-jogadora de vôlei, medalha de bronze na Olimpíada de Atlanta, em 1996. Atualmente, além do instituto, Ana Moser ainda participa de projeto que vai a pequenas cidades do Brasil atender crianças, trabalhar com os educadores e articular a prática de esportes dentro das comunidades.
Na mesma campanha está Sócrates. Ídolo corintiano nos anos 70 e 80, ele se destacou também fora dos gramados por seu posicionamento político. Com experiência também em projetos de inclusão social em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, o ex-jogador critica de maneira mais dura a maneira como o dinheiro público está sendo gasto no Pan.
"Usaram muito dinheiro para construir verdadeiros monstros, como o Engenhão, que depois ninguém saberá o que fazer com eles. É uma questão de filosofia. Não adianta fazer uma estrutura desse porte e não investir no ser humano", argumenta ele.
"O esporte é tão barato como meio de educação, mas esse governo, como os outros, ainda não percebeu isso", emendou Sócrates. "Já foram gastos ou gastarão mais de R$ 3 bilhões no Pan. Se tivéssemos em mãos R$ 80 milhões, colocando em cada cidade do Brasil um monitor [educador] que custa R$ 1,5 mil por mês, contemplaríamos todos os municípios do país", compara.
Crítico dos altos custos das arenas construídas para os Jogos do Rio, Sócrates também diz que a capital fluminense terá poucas novidades em termos de infra-estrutura além de estádios e ginásios. "O grande legado seria o transporte público, mas nada do que planejaram foi feito", completou.