UOL Esporte - Pan 2007
UOL BUSCA

31/05/2007 - 08h47

Ambulantes das cercanias tiram "férias forçadas" durante o Pan

Bruno Doro
No Rio de Janeiro

Aos 55 anos, Dona Cileide está às vésperas de suas férias de inverno, algo que não fez nos últimos 15 anos. Hoje, 15 anos depois de começar a vender comidas e bebidas pelas ruas, deverá ter tempo para descansar.

VIDA DE CAMELÔ
Bruno Doro/UOL
Barraca de camelô nas imediações do estádio J. Havelange, na zona Norte do Rio
Dona Cileide, a dona de uma barraca em esquina da rua das Oficinas, não quis ser fotografada. Ela é ambulante há 15 anos e não gosta de aparecer: "A molecada vai achar feio colocar uma velha como eu. E eu prefiro não aparecer, vai saber o que os homens [autoridades] vão dizer", diz.

Com 55 anos, ela seguiu o roteiro tradicional em direção à economia informal. Perdeu o emprego aos 30 anos, mas, ao tentar novo trabalho, ouviu de muita gente que estava velha. "Olhe, meu filho. Hoje com mais de 50 anos, eu só posso viver fazendo isso mesmo. Quando tinha 30, 35, já era velha demais. Só contratam gente jovem", reclama.

Foi vender salgadinhos nas ruas do Méier, zona Norte. O negócio prosperou, e ela conseguiu comprar um carrinho "bacana, daqueles de alumínio", para carregar as comidas e ainda anexou geladeiras de isopor "com rodinha e tudo", para vender bebidas.

"Ninguém gosta de camelô. Um dia, eu fiquei assim, destruída, e os homens chegaram. Levaram tudo o que eu tinha, os carrinhos, os isopores. Sabe quanto custa essa mercadoria, se eles levam? Quase um mês de trabalho. É muita tristeza", conta a ambulante.

Ela está há quatro anos no Engenhão, desde que o estádio começou a ser construído. "Os peões quase não compram nada. Mas estão fazendo um estádio danado de bonito. Queria ficar aqui para ver a abertura. Escreve lá para deixar os ambulantes ficarem", pede.
Ela faz parte de um grupo grande vendedores ambulantes que ganham a vida no entorno do estádio olímpico João Havelange, o Engenhão. Nenhum deles estará por perto para ver a instalação, que a maioria viu nascer desde o primeiro tijolo, ser inaugurada.

A Secretaria de Segurança Nacional (Senasp), encarregada da segurança dos Jogos Pan-Americanos, a partir de 13 de julho, criará perímetros de segurança ao redor de todos os equipamentos do Rio-2007. Dentro dessas áreas, só credenciados, moradores ou torcedores com ingresso. Ambulantes não terão vez.

"Olha, não sei mesmo o que vou fazer. Eu queria ficar, mas não vou arriscar. Anota aí. Fala que todo mundo aqui gostaria de ficar e participar do Pan. Mas ninguém ainda falou com a gente, não falaram se pode ou se não pode", diz Dona Cileide.

A ausência de um sobrenome é proposital. Nenhum dos vendedores abordados pela reportagem do UOL Esporte quis revelar detalhes pessoais, como nome completo, ou tirar fotos. O temor é a fiscalização da Prefeitura.

A outra vendedora que deu declarações foi Dona Lúcia, que preferiu não revelar a idade. Ela é vendedora de cachorro quente em frente a um hospital, localizado em uma das ruas que circundam o estádio. Trabalha no local há 11 anos.

"Você acha que o César Maia vai deixar ambulante trabalhar aqui durante o Pan? Vai nada... Eu já estou pensando em tirar umas férias", resigna-se a ambulante, que não viu mudanças em seu trabalho com as obras do lado. "Olha, a única coisa que o Pan vai trazer são essas férias. Porque nem os peões da construção comem hot dog. Fico só com o pessoal do hospital, mesmo", completa.

Os guardadores de carros, famosos "flanelinhas", não poderão atuar por lá durante os Jogos. O destino deles será o lugar em que a polícia deixar parar carro mais aqui perto do perímetro de segurança. Onde exatamente? Nenhum deles sabe.

A situação é a mesma com todos os ambulantes. Todos acham que não vão ficar no local. Mas não foram avisados sobre isso. "Eu moro aqui do lado, mas não vou fazer nada, não. Não quero perder mais coisas do que já perdi. Já levaram muita mercadoria minha na vida. Quando você não está olhando, a polícia chega e leva embora", reclama Dona Cileide.

Bruno Doro/UOL
Vendedor de hot dog trabalha ao lado de obras de estádio no Engenho de Dentro
Presidente do Comitê Organizador dos Jogos, Carlos Arthur Nuzman espera reclamações nessa área. "Essa economia informal é uma instituição que existe no mundo inteiro. Nas Olimpíadas, você tem locais em que se montam camelódromos. Nós vamos fazer a nossa parte, mas sabendo que vão ter pessoas tentando burlar isso. Vamos procurar evitar ao máximo, mas sempre dentro da ordem", explica o dirigente.

Para Nuzman, os principais agentes da economia informal serão os vendedores de alimento e de artigos piratas. "Estamos coibindo o que podemos agora, mas só na reta final dos Jogos saberemos exatamente o que estamos enfrentando", prevê.

Ele lembra até de um conselho de organizador do Pan de oito anos atrás. "Quando falei com o responsável por Winnipeg-1999, a primeira coisa que ele me recomendou foi para contratar vários escritórios de advocacia: `Você vai ver que vai precisar deles´. Ou seja, se até no Canadá ele teve essa preocupação, imagina no Brasil?", completou Nuzman.