UOL Esporte - Pan 2007
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12/06/2007 - 09h09

"Excluídos", rappers do Pan querem mudar letra de música

Bruno Doro
No Rio de Janeiro

Eles foram convocados para a abertura do Pan do Rio. Estão dando entrevistas e ganhando destaque que não teriam se não fosse o Rio 2007. Mesmo assim, os rappers Don e Mingau, autores do rap "Cidade do Pan", em homenagem aos Jogos, estão insatisfeitos com o destino da canção.

GUIAS SEM PLANEJAMENTO
Divulgação
Mingau e Don posam para foto no bairro Cidade de Deus, um dos mais pobres do Rio
Don considera o projeto de Guias Cívicos do Pan a única ligação entre o Pan e a Cidade de Deus. E mesmo assim, aponta problemas. "Fizeram isso sem planejamento. Naquela briga que aconteceu no Maracanã mesmo, deveriam esperar que aquilo acontecesse."

Segundo ele, as facções criminosas que controlam as comunidades carentes fazem parte da vida dos moradores, mesmo que eles não sejam criminosos. "Todo mundo pensa que se você é da Cidade de Deus, é da facção que manda aqui. E até você explicar que não é, pode não dar tempo", avisa Don.

O próprio rapper já sentiu isso na pele. Ao visitar um morro de uma facção rival à da Cidade de Deus, com um amigo que já foi do tráfico, ele foi apresentado como morador de um barro de classe média.

"Nem o cara teve coragem de me apresentar como da Cidade de Deus, para você ver como a coisa é forte. Não dá para negar que você, ouvindo todo dia sobre isso, não vai ser afetado. E isso acontece com os jovens, mesmo os que não fazem parte. Esses guias mesmo. Eles não têm tempo para ser bandidos, não são do tráfico, mas estão nesse mundo e têm os mesmo conceitos", explica.
Moradores da Cidade de Deus, uma das mais famosas favelas do Rio, os dois reclamam da exclusão das comunidades carentes no Pan. O descontentamento é tão grande que até mesmo a letra do rap que está alavancando a carreira da dupla já não soa verdadeira.

"Se eu pudesse reescrever a música hoje, ela seria bem diferente. Eu me sinto excluído do Pan. As comunidades carentes não fazem parte dos Jogos. Se eu pudesse escrever de novo esse rap, pediria, que além dos Jogos, fosse dada mais atenção para a cidade, para quem mora aqui, não só para o turismo", afirma Don, o autor da letra.

A reclamação dos rappers é baseada justamente na falta de mudanças na vida da Cidade de Deus. Apesar de estar no coração do Pan-Americano, entre a Vila do Pan, a Cidade dos Esportes no autódromo de Jacarepaguá e o Estádio Olímpico João Havelange, a comunidade não viu nenhum benefício vindo dos vizinhos ricos.

Os projetos esportivos continuam sem apoio e sobrevivem da iniciativa de poucos colaboradores que moram na própria favela. As ruas da comunidade continuam de terra batida, sem projetos de urbanização ou melhorias.

Próximo de uma quadra de futebol onde Don e Mingau trabalham como voluntários em um projeto de atletismo e futebol, os dois rappers mostram o maior exemplo do descaso das autoridades com a comunidade. Uma ponte, que une a entrada da Cidade de Deus a um descampado, onde será construído, um dia, um centro esportivo, está caindo.

"E isso é só um exemplo. Imagina, as pessoas têm que passar por essa ponte caindo todo dia, para ir da Cidade de Deus até a Rocinha 2, que é uma outra área aqui da comunidade. E isso está assim há mais de dez anos. Pode cair a qualquer momento", revolta-se Don.

Por isso, pelo descaso, o pedido da dupla é simples: apenas mais atenção. "O que as autoridades não entendem é que a gente precisa é de uma invasão social. Em favela, você só vê a invasão policial, a repressão. Comunidade carente não precisa de arma, polícia ou violência. Precisa é de cesta básica e oportunidade".

O rap do Pan
Oportunidade, aliás, é justamente o que Don e o parceiro Mingau estão buscando com o Pan. Os dois se juntaram em 2000. Na época, Don fazia parte da banda de MV Bill, padrinho de um de seus filhos, e Mingau era dançarino.

DESEMPREGADOS DO ESPORTE
Bruno Doro/UOL
Praticantes de judô em projeto social na Cidade de Deus, zona Oeste carioca
Enquanto o Pan do Rio gasta milhões em instalações esportivas, na Cidade de Deus, que fica entre três das principais sedes dos Jogos, dois projetos esportivos sobrevivem de voluntários obstinados.

Gilmar Vicente Sobreira comanda o Ginga Brasil, projeto de futebol e atletismo que reúne mais de 200 crianças. Cozinheiro desempregado, ele já trabalha com as crianças do projeto há 30 anos.

Outro projeto que mudou a vida dos rappers é o "Lutando pela Vida", que ensina judô e jiu-jitsu, que já tem 26 anos. Hoje, funciona em uma das salas de uma das escolas da Cidade de Deus, com mais de 100 alunos, que lutam em um tatame velho. O coordenador é Rodrigo Andrade, eletricista desempregado.
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"Quando o Don ficou sabendo do Pan, em 2002, veio e falou tínhamos que fazer alguma coisa. Resolvemos escrever o rap. Eu fui para a minha casa, ele foi pra dele e no dia seguinte a gente comparou. A dele estava melhor...", lembra Mingau, uma celebridade no bairro.

O ex-B-Boy dançou no filme "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles, e é um dos atores de "Cidade dos Homens", produzido por Meirelles, que será lançado em agosto. Além disso, é ator da novela "Vidas Opostas", da Rede Record.

"Estamos tentando viver da música, mas é difícil. Eu vivo do trabalho de ator. O Don, de um trabalho na prefeitura. É difícil arranjar gravadora, é difícil tocar na rádio", reclama Mingau. "Infelizmente, pra tocar em rádio você precisa de jabá. Mas o que as pessoas não entendem é que fizemos o rap pra homenagear, não para benefício próprio".

A esperança que a dupla mostra em entrevistas, aliás, pode ser sentida também na letra de "Cidade do Pan". A música é uma apologia a como o esporte pode tirar as crianças da criminalidade e como o Rio.

Uma rima, por exemplo, fala que "as drogas fazem mal, o esporte cura. A molecada joga bola no meio da rua". Ou então "o grito que sai da lama, do anonimato, da favela para a fama, ganhou do americano". A frase que melhor personifica isso, porém, aparece no fim do rap: "Chance para os atletas de todo o Brasil. A molecada abandonando a pistola e o fuzil".

"Eu e o Mingau fomos atletas e sabemos como isso pode transformar uma criança. Os garotos de comunidade carentes são carentes de tudo, de afeto, de carinho, de abraço. A diferença que faz você chegar em um dos projetos e só mostrar atenção para o que eles estão fazendo é incrível. A música é também um jeito de mostrarmos o esporte como instrumento de mudança social", analisa Don.

Ouça abaixo o rap do Pan:

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