UOL Esporte - Pan 2007
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12/06/2007 - 08h28

Alheios ao Pan, desempregados tocam projetos na Cidade de Deus

Bruno Doro
No Rio de Janeiro

Enquanto o Pan do Rio gasta milhões em instalações esportivas, na Cidade de Deus, que fica entre três das principais sedes dos Jogos, dois projetos esportivos sobrevivem de voluntários obstinados.

Bruno Doro/UOL
Don e Mingau posam ao lado de jogadores de futebol de projeto social em favela
RAPPERS CRITICAM PAN
Gilmar Vicente Sobreira comanda o Ginga Brasil, projeto de futebol e atletismo que reúne mais de 200 crianças. Cozinheiro desempregado, ele já trabalha com as crianças do projeto há 30 anos.

"Tem muito moleque que passou por aqui e deu certo. Quem faz esporte vira uma pessoa melhor. Eu tenho criança que passou pelas minhas mãos e hoje virou policial militar, está no exército, virou gerente de empresa grande. Quando eles voltam para falar comigo, pedir conselho, me emociono muito", lembra Gilmar.

Até o começo do ano, o Ginga tinha apoio do estadual, em um projeto que levava o nome do ex-craque do Flamengo Zico. Hoje, depende da ajuda da comunidade. "Toda sexta, a padaria dá pão com presunto e café para as crianças. Sempre que vamos jogar fora, temos transporte da cooperativa. Mas todo mundo faz porque gosta. Eu nunca ganhei nada aqui", conta o cozinheiro.

Outro projeto que mudou a vida dos rappers é o Lutando pela Vida, que ensina judô e jiu-jitsu, que já tem 26 anos. Hoje, funciona em uma das salas de uma das escolas da Cidade de Deus, com mais de 100 alunos, que lutam em um tatame velho. O coordenador é Rodrigo Andrade, eletricista desempregado.

"É muito bom ver o efeito que algo assim tem nas crianças. Jiu-jitsu é esporte de contato, algumas crianças chegam para aprender a brigar, mas se ficam, é porque estão adquirindo a filosofia do esporte", conta Rodrigo.

Aos 27 anos, o próprio coordenador é um produto do projeto. "Se não fosse por isso aqui, hoje eu estaria morto, com certeza. Todos os meus amigos, que começaram comigo no projeto quando eu tinha 14 anos, foram para o crime e não estão mais aqui. Tive sorte de ter entrado aqui e ter tido pai e mãe me falando que o crime não era direito. E é isso que eu sempre tento passar para as crianças aqui", diz o lutador.

Os dois projetos sobrevivem com poucos recursos. No Ginga, o campo usado nas aulas está cheio de buracos, as bolas são velhas e o "material didático" são poucos cones. No Lutando, os alunos lutam em tatame velho e pequeno. As crianças lutam com quimonos doados, alguns deles, de outras lutas marciais, como o taekwondo.