Em uma sala com apenas um ar-condicionado, que se esforça para deixar a temperatura ideal para milhares de filmes antigos, está o principal registro dos Jogos Pan-Americanos de 1963, realizado em São Paulo. Trata-se do cinejornal "Américas Unidas", produzido pelo documentarista Primo Carbonari.
| DOCUMENTÁRIO DOS JOGOS |
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 Créditos iniciais do documentário de 1963, ainda sem restauração e deteriorando |
 Cena em que boxeador brasileiro acerta rival durante Pan disputado em São Paulo |
 Sequência mostra trecho de maratona disputada na rodovia Anhanguera |
 Filha de Carbonari mostra rolos de filme do Pan deteriorados pela umidade e o tempo |
 Neto e filha de Carbonari posam no estúdio da família na zona Norte de São Paulo |
DOCUMENTÁRIO COM CENAS DO PAN |
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Em outra, sem nenhum tipo de refrigeração, o cheiro avinagrado da má conservação divide o espaço com outros milhares filmagens de Carbonari entre 1934 e 1990. Assim é o estúdio Ampla Visão, fundado pelo próprio na zona norte de São Paulo, e que abriga toda sua obra.
O estúdio parece saído direto da década de 50, totalmente desativado. Escondidas em um dos cantos se amontoam gruas. No fundo, gigantes refletores a carvão chamam atenção pelo glamour. E mal se vê os filmes de nitrato revelados em 1946 e, que agora, deterioram empilhados pelo chão.
Entre os mais de 13.000 filmes, há desde 2842 cinejornais, pequenos noticiários que eram exibidos nas salas de cinema antes da projeção do filme principal. São desde um longa-metragem da década de 30 sobre os índios do Xingu até os Jogos Olímpicos de Tóquio.
A obra de Primo, entretanto, permanece desconhecida para os muitos e até para pessoas próximas da família: "O acervo do meu tio é muito grande e pouca gente sabe o que se tem", conta Lucia Szank, sobrinha do documentarista
Regina Carbonari, única filha do cineasta, planeja montar um filme de duas horas de imagens restauradas, mas não encontrou ainda empresa interessada em bancar a empreitada. Desde a chegada da tocha até as últimas competições do evento, tudo foi registrado em um sistema inovador: o amplavisão.
Criado pelo próprio Primo, o amplavisão era uma alternativa ao cinemascope: "Sabendo que o Cinemascope viria ao Brasil dos Estados Unidos, meu pai estudou o funcionamento e criou o amplavisão, um sistema de filmagem semelhante", conta Regina. Obviamente, a atitude não foi apreciada pelos norte-americanos: "Eles mandaram uma equipe para investigar se meu pai tinha roubado o esquema deles, mas não, foi criação brasileira".
Bem brasileiro também é o começo do filme. O "Samba Pan-Americano", composto por Caco Velho e Haroldo Maranhão, dá início à obra e apresenta o letreiro: "Primo Carbonari Apresenta". Então, uma bela tomada aérea da cidade e da tocha pan-americana abre caminho para o letreiro principal: "Américas Unidas".
A narração fica por conta de seis vozes, muito embora, sejam tão padronizadas que mal se dá para saber quem está falando. Predominam, na entonação pomposa da época, expressões como "a grande figura das raquetas" (para se referir a um jogador de tênis) ou "nosso patrício" (para falar de um atleta brasileiro) ou ainda "renhida batalha nas piscinas" (sobre disputa dos 100 m livre).
Uma das vozes, de acordo com a ficha técnica, é de Fernando Solera, que na época trabalhava na rádio Bandeirantes. Porém, longe ter algum contato com Carbonari, Solera conta que sua participação foi sumária: "Me chamaram para ir ao estúdio, me deram um texto e gravei tudo em off. Nada mais do que isso. Não sei como foi feita a estrutura da filmagem, nem conheci o Primo", revela.
Além dos narradores, um conjunto digno de uma superprodução permitiu a execução do projeto. Eram quatro equipes de filmagens, três diretores, 11 diretores de fotografia e um sonoplasta. "Só assim para filmar os acontecimentos que eram simultâneos", conta Eduardo Carbonari, o neto de Primo.
| A VIDA DE PRIMO ERA CINEMA |
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 Nascido em 1º de janeiro de 1920, o nome de Primo Carbonari vem daí. Brasileiro filho de italianos, ele começou trabalhando como fotógrafo lambe-lambe, na Companhia Americana de Filmes.
Passou pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz e na década de 50 conseguiu abrir sua própria produtora, a Primo Carbonari - Produções Cinematográficas.
Filmou desde peças publicitárias até grandes eventos, como a Olimpíada de Tóquio, em 1964, e a coroação do Papa VI no ano seguinte. Também deu sua contribuição ao futebol, gravando os dribles da Garrincha e alguns lances de Pelé.
Criticado por se associar ao governante de plantão, Primo foi um dos principais documentaristas brasileiros, se equiparando a Carlos Niemeyer, que criou em 1958 o Canal 100. Entre as críticas, Primo também foi alvejado pelos militares. Em seu estúdio, acumulam-se certificados de censura. Muitas vezes, foi obrigado pelos militares a veicular filmes ufanistas antes das próprias produções.
Morreu de causas naturais em 21 de março de 2006, depois de produzir mais de 13.000 filmes, uma das maiores contribuições para a história do cinema nacional. "Ele que era fã de cinema e televisão não quis ligar a tv no seu último ano de vida", disse Regina Carbonari, sua filha. |
Pronto, o longa foi exibido na tela grande ainda em 1963, embora não se saiba ao certo quantas vezes. O que se tem certeza é que, dois anos depois, durante o governo do presidente militar Castelo Branco, o filme foi censurado e depois disso nunca mais exibido.
O motivo? Primo Carbonari nunca fez objeção a nenhum político e filmou com o mesmo entusiasmo Adhemar de Barros, Jânio Quadros e João Goulart. Este último, que era o presidente à época do golpe militar, aparece no "Américas Unidas" e provavelmente não agradou. "Este filme tem muita personagem política", revela Eduardo, "com certeza foi um problema para meu avô".
Mas Primo não teve uma relação conturbada apenas com os políticos. Foi criticado também por militantes de esquerda. No auge das pichações políticas, podia-se ver em muros: "Chega de Primo Carbonari!".
Muito embora tivesse uma relação bastante cordata com todos os políticos, Regina Carbonari garante que seu pai não tinha nenhuma ideologia: "Ele não tinha partido. A vida dele era cinema". E sua vida foi feita de cinema até 1990, ano em que a lei da Obrigatoriedade do Curta, instituída em 1937 e que obrigava que curtas-metragens nacionais fossem exibidos antes dos filmes, saiu de vigor.
Mas grande parte da sua obra ainda resiste aos efeitos do tempo. E, embora uma cópia inteira do "Américas Unidas" tenha se perdido, a família Carbonari tem um projeto para trazer à memória dos brasileiros esta obra sobre o Pan. "Pretendemos fazer outro documentário para cinema ou televisão com as imagens que existem".
Sem patrocínio definido, o projeto vem se arrastando a menos de um mês do início da segunda edição dos Jogos no Brasil. Porém, diferentemente de Primo Carbonari, que executava mesmo que sem recursos os roteiros por ele escritos, o projeto ainda está no papel.