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Sou baladeira demais, revela Daiane dos Santos
Murilo Garavello Enviado especial do UOL a Curitiba
 
Após três horas de treino, Daiane está saindo do ginásio, em Curitiba. São 19h do dia 20 de novembro, quinta-feira. Mas o dia ainda não acabou: ela precisa fazer fisioterapia no joelho esquerdo, protegido com uma faixa durante o treino por causa de uma artroscopia feita neste ano. "Ainda dói e incha bastante, mas já estou acostumada", afirma.
A fisioterapia demora cerca de meia hora. Quando termina, Daiane leva a reportagem do UOL Esporte até o local que divide com outras ginastas e técnicos que formam a seleção permanente de ginástica. Uma casa grande, que fica a um quarteirão do ginásio. Após o jantar -comida balanceada, preparada especialmente, que vem em embalagens fechadas, como as que encontramos nos aviões - , a campeã mundial falou sobre seu lado "baladeiro", a competição com Daniele Hypolito e a vida longe da família em Curitiba.
UOL Esporte: Como é morar com tanta gente?
Daiane dos Santos: No início era bem complicado porque a gente não se conhecia direito. Mas estamos juntas já faz um bom tempo e agora é muito legal. A gente dá muita risada, chora junto. Claro que tem uma briguinha ou outra, até porque são muitas pessoas, muito diferentes, mas essa diferença também acaba sendo legal.
UOL Esporte: Quais são as vantagens e desvantagens de morar aqui?
Daiane: A vantagem de morar aqui é que a gente ficou bem mais unida. Aprendemos a nos conhecer. Agora, eu sei quando alguma delas está com problema, posso ajudar e tal. A desvantagem é ficar fora de casa, longe da família e dos amigos. Às vezes você acorda com os olhinhos pequenos, está em um dia em que não quer ver ninguém. E aí é complicado, porque você não pode ficar tratando os outros mal. Acho que tem muito mais vantagens do que desvantagens.
UOL Esporte: Com que freqüência você volta para Porto Alegre?
Daiane: No ano passado, eu voltava todo final de semana. Eu não conseguia ficar aqui de jeito nenhum. Agora, não. Neste ano eu já fiquei quatro meses sem ir para casa. Na média, vou uma vez por mês
UOL Esporte: E na faculdade, você fez amigos? Tem uma turma?
Daiane: A nossa turma da faculdade é show, muito boa! Sou amiga de todo mundo, tenho uma superamigona. Foi uma das coisas que fez eu ter gostado de Curitiba.
Nota da redação: Daiane dos Santos cursa o segundo ano de educação física na Faculdade Dom Bosco, em Curitiba
UOL Esporte: E quais são seus amigos de balada?
Daiane: As meninas daqui ainda não podem, porque são muito pequenas. Quem mais vai pra balada comigo são minhas amigas da faculdade. Gosto de samba, pagode. E aqui toca muito axé nas casas.
UOL Esporte: A vida de ginasta é muito regrada. O que mais te incomoda?
Daiane: A gente brinca que vive num quartel. O pior para mim é que eu sou muito baladeira. Muito, muito, demais. Se pudesse, eu iria para a noite quase todo dia.
UOL Esporte: Acordaria tarde todos os dias?
Daiane: Pior que não, porque mesmo quando saio eu não consigo dormir muito. Isso já deu uma briga com a Eliane -coordenadora geral da Confederação Brasileira de Ginástica. As meninas aqui quase não saem. E lá em Porto Alegre eu saía quase todos os finais de semana. Ela falou: 'você tem de ficar um pouco em casa, descansar'. E realmente tava fazendo mal: muito treino, pouco descanso. Pra mim foi difícil deixar essa vida um pouco de lado, mas valeu a pena.
UOL Esporte: Você às vezes pensa 'sou campeã mundial e não posso fazer um monte de coisas...'?
Daiane: Na hora da raiva, eu falo, acho que todo mundo fala: 'não tou nem aí, vou fazer e acabou!' Já aconteceu várias vezes: em um dia em que treinei mal, falo: 'vou sair da ginástica, não agüento mais.' Depois penso e vejo que gosto muito da ginástica, foi só um dia ruim, vai passar.
UOL Esporte: Você está famosa? As pessoas te conhecem nas ruas?
Daiane: Estou famosa, sim... As pessoas me conhecem na rua, me páram, pedem autógrafos. Quem mais me conhece são as crianças. Elas ficam olhando, encantadas, às vezes perguntam umas coisas nada a ver, mas é muito legal. Tem uma hora ruim. Às vezes você está com pressa. E as pessoas querem conversar, querem saber das coisas. Eu: "Ai, desculpe, mas eu não posso falar agora, estou com pressa"... Você tem que ter um jeito de falar com as pessoas porque se você trata as pessoas mal, vão pensar: 'depois que ganhou o ouro no Mundial ela ficou toda assim'. Então tem de cuidar bastante.
UOL Esporte: Já saiu em revista de fofoca?
Daiane: Não, espero que eu não saia (risos). Só me falta essa. Contigo, Caras, ai, não. Não, não, não.
UOL Esporte: Você posaria nua para uma revista masculina?
Daiane: Não sei. Falei disso com meu pai. Ele: 'bem capaz, de jeito nenhum! Nem inventa'. Tenho vergonha, ficaria um pouco constrangida.
UOL Esporte: Já teve alguma situação em que ser famosa te ajudou?
Daiane: Já, já, bastante... Outro dia, em Porto Alegre, eu tinha de ir ao banco. Mas eram umas 9h30. Eles abriram o banco só pra mim. Não preciso mais pegar fila. Quando vou às festas, sou VIP (risos). Só porque agora eu sou a Daiane dos Santos. (risos)
UOL Esporte: E o lado ruim de ser famosa?
Daiane: Tira a privacidade. Você nunca pode fazer nada. Quando saio à noite, acontece tipo assim: (mudando a entonação da voz) 'nossa, o que você tá fazendo aqui? Você não tinha que estar treinando?'. As pessoas acham que eu treino a noite toda! Ou quando eu estou de namorado, só escuto cochichos. Vou a um restaurante, fica todo mundo curioso: 'vamos ver o que ela vai comer'. É chato.
UOL Esporte: Você ainda está aprendendo ou já aprendeu a lidar com isso?
Daiane: Eu ainda estou aprendendo, a cada dia aprendo um pouco. Faz uns dois, três meses, tinha voltado do Mundial. Fui ao shopping para comprar um negócio. Ainda não tinha ido a lugar nenhum depois do ouro. Foi a pior burrada que eu podia ter feito. Estava dentro de uma loja, experimentando uma roupa no provador, a menina da loja falou: 'olha, não se assusta, mas tem uma multidão ali fora.' A loja tava cheia de gente. Tiveram que chamar seguranças para eu poder ir embora.
UOL Esporte: O que as pessoas querem?
Daiane: Muita gente vem para dar parabéns, outros querem saber: 'como é ser ginasta? Eu queria colocar minha filha na ginástica'. Outras chegam e mostram as meninas, perguntam se eu acho que ela leva jeito para a ginástica. E perguntam de tudo, tudo mesmo.
UOL Esporte: Existe ciúme entre você e a Daniele Hypolito? Há uma disputa?
Daiane: Ciúmes, não. Tem disputa. Mas eu disputo todo dia com todo mundo que treina no ginásio. Porque ginástica é um esporte individual. Mesmo quando estou competindo por equipe, para ganhar eu tenho de fazer minha parte. Então vou estar sempre lutando para ganhar de todo mundo. Não dá para duas ganharem.
UOL Esporte: E as críticas que a Georgette fez? Nota da Redação: Logo após Daiane se sagrar campeã mundial, Georgette Vidor, técnica de Daniele Hypólito, disse que o nível técnico do Mundial havia sido "fraco" e que Daiane não é uma ginasta completa.
Daiane: Cada um diz o que pensa. Ela disse que sou uma ginasta que só tem dois aparelhos, que não sou uma ginasta completa. Realmente. Eu tenho minhas limitações. É muito difícil você encontrar uma ginasta que é boa em todos os aparelhos. No Brasil, ainda não aconteceu: ninguém ganhou medalha no individual geral. A Dani é uma ginasta mais completa, não digo mais completa do que eu, mas nos quatro aparelhos ela é mais segura do que eu. Meu problema é a trave. Tenho uma nota boa, saio de dez. Mas sou menos segura que ela nesse aparelho.
UOL Esporte: Você ficou magoada?
Daiane: Não digo magoada, mas fiquei tocada. Pela forma como aconteceu. Não sinto raiva, nada.
UOL Esporte: Mas só a Georgette te criticou, não? A Daniele ficou feliz quando você ganhou?
Ficou. E isso que me deixou espantada, porque a 'Geo' também ficou. Ela tava lá. Sempre fomos amigas. Viajamos para vários campeonatos juntas. Não só campeonato, ela me deu muitos treinos. Essas coisas acontecem porque, bem ou mal, há uma pressão em cima dela.
UOL Esporte: Que pressão?
Daiane: De patrocinador. O que eles querem? Resultados. Patrocinador sempre vai querer que o patrocinado esteja no auge. Às vezes, quando isso não acontece, a gente é cobrado. E aí, por um ato desesperado, você acaba falando coisas que não quer. Prefiro ver assim. Depois, ela mandou uma carta para o meu clube pedindo desculpas. Quando a gente se ver de novo, vou tratá-la normalmente, acho que ela também, porque eu gosto muito dela. Gosto da Dani também. Tem muita gente próxima a mim que não gostou do que a Georgette disse, que sentou o cacete mesmo, nela e na Dani, falaram muito mal delas. Mas não é a Dani que está falando, eu sei disso. A Dani que eu conheço, se não mudou, não falaria isso de mim.
UOL Esporte: O solo é seu forte, é o que pode te dar um pódio olímpico. Você está priorizando esse aparelho em seus treinos?
Daiane: Continuo treinando tudo. Se eu quero ser uma ginasta homogênea, eu tenho que treinar para isso. É meu objetivo.
UOL Esporte: É melhor ser homogênea ou ganhar um ouro olímpico no solo?
Daiane: Os dois. Sempre tive muita resistência, mas não tinha execução boa. Agora eu tenho. Tenho paralela, salto e solo bons. Está faltando a trave. Minha nota de partida é boa. Se eu ficar firme na trave, vou contribuir mais com a minha equipe. Não me dedico mais ao solo. Me dedico tanto quanto faço nos outros aparelhos. No solo, eu tenho mais facilidade.
UOL Esporte: Mas o solo não é seu ganha-pão? Você já cogitou priorizá-lo?
Daiane: Sim. Já pensei: 'depois da Olimpíada, vou ser ginasta só de solo'. Vou treinar na seleção só para competir solo. Só que agora, neste momento, a seleção precisa não só do meu solo. Dos outros aparelhos, também. Preciso treinar todos.
UOL Esporte: Quanto o Oleg pesou em sua decisão de permanecer em Curitiba?
Daiane: Bastante. Eu estou aqui por causa dele. Como comecei tarde na ginástica, atropelei muito a base. O Oleg trabalha muito minha linha postural. Não adianta você ser muito forte e ter uma ginástica suja. Isso ele cobra muito de mim, limpeza nos exercícios. Me ensinou muita técnica. Adoro treinar com ele
UOL Esporte: E você não quer ser treinadora de ginástica?
Daiane: Tenho vontade de ser técnica. Mas quero ser técnica de criança, não de adolescente.
UOL Esporte: Você não gostaria de lidar com você?
Daiane: Não, não, é muito difícil. 'Fulana, faz tal coisa'. 'Ah, não quero'. Já com criança, você chega e diz: 'trouxe uma coisa legal para mostrar para vocês. Quem conseguir fazer isso ou aquilo ganha uma bala'. A criança se mata para ganhar uma bala. Tem vários meios de você lidar com a criança. Eu fico encantada, olhando elas treinarem. Elas vão porque gostam mesmo de fazer. Acordam cedo, ficam azucrinando a mãe e o pai.
UOL Esporte: Você não está ficando mascarada?
Daiane: Não. Pelo menos acho que não. Ninguém me falou isso (risos).
Publicada no dia 25 de novembro de 2003
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