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Melhor do mundo, Derly assume papel de ídolo
Murilo Garavello Em São Paulo
 
João Derly se tornou em 2005 o primeiro brasileiro campeão mundial de judô. Em 2006, de novo obteve um feito inédito para o país: o título no Torneio de Paris, o mais importante depois da Olimpíada e do Mundial. Com os resultados, é o atual líder da categoria até 66 kg do ranking mundial elaborado pela União Européia de Judô.
Derly parece ciente de sua condição de espelho para as novas gerações de judocas. Na conversa por telefone com o UOL Esporte, cujos principais trechos seguem abaixo, o gaúcho diz que precisa dar exemplo dentro e fora dos tatames e anuncia um passo típico de qualquer candidato a ídolo esportivo: vai começar um projeto social, o "Instituto Pódio", em que pretende ensinar judô a crianças "carentes".
| A MUDANÇA DE CATEGORIA | João Derly sagrou-se campeão mundial júnior em 2000 e, em 2002, conquistou três ouros e uma prata no extinto Circuito Europeu -sempre na categoria até 60 kg. Logo depois, entretanto, começaria um pequeno calvário do judoca no esporte.
Em maio de 2002, Derly foi flagrado no exame antidoping do Sul-Americano por uso de diuréticos. Foi suspenso do esporte por seis meses.
O judoca não conseguia se manter no peso limite de sua categoria no dia a dia e, às vésperas das competições, tinha de emagrecer "na marra", piorando suas condições físicas e suas chances de obter bons resultados. No ano seguinte, após fiasco no Pan-Americano de Santo Domingo, Derly foi obrigado pela CBJ (Confederação Brasileira de Judô) a mudar de categoria -da até 60 kg para a até 66 kg- e foi excluído do Mundial do Japão. Na nova categoria, não conseguiu classificar-se para a Olimpíada de Atenas. Só em 2005 veio a redenção, com o título mundial.
| UOL Esporte - Em 2005, você ganhou o Mundial. Agora, levou outro título importante e é o 1º do ranking. O que explica esse salto?
João Derly - A troca de categoria foi muito importante. Tinha sempre de perder muito peso e isso estava atrapalhando meu desempenho. Depois que troquei, levei um tempo até me acostumar a competir com seis quilos a mais. Aos poucos, me adaptei a treinar e a lutar neste peso e as coisas têm dado certo.
UOL Esporte - No dia a dia, você se mantém com 66 quilos?
Derly - Fico com 67 kg, 68 kg, só um pouquinho mais do que o limite. Quando chega perto da competição, é só dar uma cuidadinha na alimentação que chego facilmente aos 66.
UOL Esporte - Até 2003, você estava sempre vários quilos acima do limite da categoria, não?
Derly - Sim, eu estava sempre em uma média de quatro a sete quilos mais pesado do que podia. E tinha de perder tudo isso perto da competição. Era complicado.
UOL Esporte - Qual foi seu recorde de perda de peso?
Derly - Cheguei a perder quatro quilos em um dia.
UOL Esporte - Como?
Derly - Corri, corri, corri e depois corri de novo.
UOL Esporte - Essa fase acabou?
Derly - Sim, hoje tenho o privilégio de ser um pouco mais solto com as comidas. Posso comer pizza e o que tiver vontade. Perto da competição, começo regrar mais a alimentação, não misturo carboidratos.
UOL Esporte - Você tem nutricionista?
Derly - A Sogipa tem, a CBJ tem, mas não estou usando. Com o tempo, a gente acaba aprendendo a se virar nessa área.
UOL Esporte - Como é ser o número 1 do ranking mundial?
Derly - Ser primeiro do ranking não é um objetivo, algo como um Mundial, que você sonha ganhar, mas fico honrado de estar no topo. A conseqüencia é que aumenta o compromisso. Preciso treinar mais, porque fico ainda mais visado. Todos querem derrubar aquele que está em cima.
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Tomar chimarrão é um dos costumes do "bairrista" João Derly

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UOL Esporte - Hoje você tem condições ideais de treinamento?
Derly - Tenho uma estrutura muito boa em Porto Alegre, na Sogipa. Agora, com a chegada dos irmãos Camilo (Tiago, prata em Sydney-2000, e Luiz Francisco), há mais atletas que puxam o nível do treino para cima. Temos a área necessária, tatame importado e, claro, toda a infra-estrutura do clube: fisioterapia, musculação... E, agora que tenho patrocinadores, posso me dedicar inteiramente ao judô. Não preciso de mais nada.
UOL Esporte - Você faz um judô de força, mais ao estilo europeu, de pegar adversários pela perna, enquanto os brasileiros, geralmente, seguem o estilo japonês, focado na eficácia dos movimentos. De onde vem essa característica? Fez treinos específicos para desenvolver esse estilo?
Derly - A escola do judô gaúcho é mais européia, acho que até pela colonização. Assim como em São Paulo a presença japonesa é forte, aqui temos bastante influência européia no judô. É parte da nossa cultura, desde pequeno fui ensinado assim. E como eu sempre competi em São Paulo e no exterior, consegui desenvolver uma espécie de mescla do europeu com o japonês.
UOL Esporte - Os treinos na Sogipa são semelhantes aos da seleção?
Derly - Na Sogipa, nós treinamos mais competitivamente, usamos muita potência muscular, simulamos luta. Em São Paulo, há muito treino dos movimentos, da mecânica dos golpes. É diferente.
UOL Esporte - Aurélio Miguel é um ídolo teu. Ele sempre esteve envolvido em batalhas extra-tatame. Você já se envolveu em alguma luta semelhante?
Derly - Ainda não entrei em nenhuma briga, mas acho que tem momentos na vida que a gente tem de lutar por algumas coisas. Se for preciso, a gente tem de lutar, buscar sempre o melhor. Mas ainda não precisei.
UOL Esporte - Já usou prestígio de campeão mundial para ajudar alguém ou reivindicar algo?
Derly - Estou montando um projeto social, o Instituto Pódio. Meu contador está encarregado de abrir oficialmente o instituto, mas não estou acompanhando muito de perto, não sei o que está faltando. Vai ser um projeto para que crianças carentes pratiquem judô. Mais tarde, quero dar cursos profissionalizantes, também.
UOL Esporte - Você ganhou a medalha de ouro no Mundial há seis meses. Além dos patrocínios, o que mudou na sua vida, pessoal e profissionalmente, com a notoriedade conquistada?
Derly - A gente tem de seguir uma postura para servir de exemplo para as pessoas. Começamos a ficar mais visados. Aqui na Sogipa, há sempre muitas criancinhas vendo o judô. Ficam assistindo aos treinos como eu assistia ao Aurélio Miguel, a outros ídolos. Tenho de passar coisas boas para essas pessoas, não só como esportista.
UOL Esporte - Servir de exemplo o tempo todo não cansa?
Derly - Minha família sempre me ensinou a ser assim, tranqüilo, educado, a fazer as coisas corretamente. Não estou tendo que mudar muito, não.
UOL Esporte - Você é reconhecido nas ruas?
Derly - Tem lugares em que sou bem reconhecido. Se tiver com a camisa de clube, principalmente. É bom receber esse carinho. Dizem que nós, gaúchos, somos bairristas (risos), tem um pouco disso: dizem que sou o orgulho do Rio Grande (risos). E é muito legal receber o carinho das crianças, que é puríssimo, cheio de admiração.
UOL Esporte - Quais seus passatempos? O que gosta de fazer?
Derly - Se eu estou de férias, gosto de descansar, de ir à praia. Costumo ir para Xangrilá, que dá mais ou menos uma hora e 15 minutos daqui de Porto Alegre. No dia a dia, gosto de tomar chimarrão, ficar com os amigos, jogar computador, conversar no messenger. Também gosto de ler a Bíblia.
UOL Esporte - Você é evangélico?
Derly - Sou. Há mais de dez anos. Primeiro, por influência dos meus pais, depois, por convicção própria.
UOL Esporte - Freqüenta os cultos?
Derly - Sim, dentro do possível. Quando viajo, não dá.
UOL Esporte - Qual é sua igreja?
Derly - "Igreja Cristã Junto ao Pai".
UOL Esporte - Você vincula suas conquistas à religião?
Derly - Com certeza. A religião é o meu grande diferencial, uma das coisas que me ajuda bastante, me deixa calmo, me fortalece, me ensina coisas boas. Entro calmo no tatame justamente por estar com o lado espiritual legal.
UOL Esporte - Você reza antes das competições? Cumpre alguma espécie de ritual?
Derly - Quando pode, meu pai me abençoa para fazer uma grande competição e principalmente para não me machucar, que é o grande obstáculo na carreira de um atleta. Mas não tenho ritual, não. Gosto de me concentrar bastante, sem olhar para os lados, para as coisas externas. Judô depende muito de concentração. Se desconcentrar, você pode perder a luta em alguns segundos.
UOL Esporte - Depois de ganhar Roland Garros, Gustavo Kuerten disse que ficou mais bonito. E você? Como campeão do mundo tem feito mais sucesso com as mulheres?
Derly - (risos) Nada, não mudou muita coisa, não. Não tenho nem muito tempo de pensar nisso, não. É um calendário muito cheio, de treinos, competições. Estou solteirão, esperando aparecer alguma coisa boa (risos).
Publicada no dia 10 de março de 2006
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| Folha Imagem |
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Aqui na Sogipa, há sempre muitas criancinhas vendo o judô. Ficam assistindo aos treinos como eu assistia ao Aurélio Miguel, a outros ídolos. Tenho de passar coisas boas para essas pessoas.
João Derly
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Nome completo: João Derly de Oliveira Nunes Jr
Nascimento: 02/06/1981
Local: Porto Alegre
Residência: Porto Alegre
Peso: 67 kg
Altura: 1,64 m
Principais conquistas: Campeão mundial de judô (2005), medalha de ouro no Torneio de Paris (2006), campeão mundial júnior (2000), ouro nas etapas da Copa do Mundo da Áustria, Polônia e República Tcheca (todos em 2002), campeão pan-americano (2005)
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