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Castroneves sonha com bons tempos da IRL e diz que não chegou à Fórmula 1 por 'politicagem'
Bianca Alves Costa Em São Paulo
 
Helio Castroneves conquistou seu primeiro milhão antes dos 30 anos. Melhor que isso. Foi campeão das 500 Milhas de Indianápolis, uma das provas de maior prestígio no mundo, aos 27 - quando a disputou pela primeira vez -, e confirmou o bicampeonato um ano depois.
A façanha lhe abriu várias portas no automobilismo, mas não impediu aquela que talvez seja sua única frustração: ter perdido para a "politicagem" na hora de tentar ingressar na Fórmula 1. Agora, "o tempo já passou", confessa o piloto da equipe Penske.
Com físico e cabeça de atleta, ele demonstra atitude de empresário, profissão que assume nos intervalos das corridas, e admite que a categoria na qual corre já não tem a força que exibia há dez anos, quando ainda formava uma única série com a Champ Car. A receita do sucesso, segundo ele, pode ser tirada da Nascar, categoria rival que Castroneves elogia.
Empolgado ao falar das corridas, o brasileiro explica o que é realmente "segurar" um carro a 300 km/h em um circuito oval, a dificuldade que os pilotos da IRL têm ao andar em uma pista mista - os carros da série não contam com direção hidráulica - e das impressões que pilotos da Fórmula 1 tiveram de suas primeiras experiências na categoria norte-americana. Acompanhe na entrevista abaixo:
UOL Esporte: Como está a IRL? É uma categoria forte?
Helio Castroneves: Com certeza ela está melhor que a Champ Car, mas se você comparar com o que era no passado, uns 10 anos atrás, os números de televisão, de carros, em todos os sentidos, eram maiores. Tínhamos 25 carros, hoje temos 19. Antes eram umas cinco equipes disputando título, hoje são três.
Hoje, nos EUA, a categoria forte é a Nascar. Quando você fala de automobilismo, os norte-americanos não pensam em IRL, Champ Car, F-Atlantic. Pensam em Nascar. Ela está em todo canal de televisão, tanto as corridas quanto as propagandas. Eles têm muita publicidade, até a pista tem boneco com nome. E mesmo que junte a IRL e a Champ Car, a categoria não vai se recuperar imediatamente, vai demorar uns quatro ou cinco anos. Cada tacada que a Nascar dá é bem pensada. Eles levaram o Montoya agora, por exemplo.
UOL Esporte: E você tem vontade de correr na Nascar?
Castroneves: Agora não. Imagina um exemplo muito simples: passei minha vida inteira aprendendo a pilotar um monoposto. É como andar. Se você anda descalço, vai ter que se acostumar a andar de tênis. É a mesma coisa, mas com detalhes diferentes. Por exemplo: na aproximação da curva num monoposto você tem que frear o mais tarde possível para chegar rápido. Com a Nascar é o contrário, você tem que chegar devagar para conseguir sair o mais rápido possível. Por isso tem muito piloto de monoposto que não se acostuma com categorias como a Nascar, de turismo... demora um pouquinho para entender o processo.
UOL Esporte: Como piloto brasileiro nos EUA, você tem algum tratamento diferenciado?
Castroneves: Nem tanto. Não é como jogador de futebol na Europa, por exemplo. Acredito que, ao invés da minha nacionalidade, foi o fato de ter vencido duas Indianápolis me abriu muitas portas. Disputei a IROC (campeonato que seleciona campeões de outras categorias), uma categoria no meio da Nascar, e fiz muitas amizades lá justamente por ter vencido as 500 Milhas. Esse pessoal que corre na Nascar e olha Indianápolis lembra de quando era criança e queria disputar essa corrida, então sente um respeito muito grande. Acho que a diferenciação é por quem venceu o que, e não pela nacionalidade.
UOL Esporte:E o que um piloto precisa para vencer as 500 Milhas, uma corrida onde nem mesmo conquistar a pole garante qualquer coisa?
Castroneves: As 500 Milhas são dois tipos de corrida, aquela pela pole position e a corrida de fato. Chega uma hora que você fala: 'Eu não quero ir para a pista' (risos).
São muitos treinos porque muda muito, o tempo muda muito. E nossos carros são muito sensíveis a isso. Do dia para a noite podemos perder um acerto sem nem mesmo mexer no carro. Não tem segredo, o jeito é ter paciência.
Quando você tem que executar certas ultrapassagens, tem que planejar isso duas voltas antes, não adianta partir como se fosse a última chance. Mas você se acostuma. Chega uma hora que vê um carro a 150 m e pensa: 'Bom, meu carro é bom na curva três, então tenho que fazer de tal maneira'. Tem gente que parte para cima e quando chega no carro da frente não tem o que fazer. E nisso, outros te passam. Essa é mais ou menos a tática.
UOL Esporte: Então a máxima "chegar é uma coisa e ultrapassar é outra" é válida?
Castroneves: Muito. Especialmente nos ovais por causa do ar. Nossa parte aerodinâmica é a mais afetada. O ar limpo é o que vai segurar o carro, então quando você está atrás de alguém, não tem mais a pressão pra segurá-lo, aí ele começa a escapar de traseira, de frente. E é aí que muita gente reclama: 'Pô, o Helio chegou, mas não passou'. E não é tão simples porque você tem que achar uma posição. Às vezes o carro não está tão bem preparado para andar atrás. Quando tem muito tráfego não dá pra passar.
| 4º | Chicago | 3º |
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| 5º | Sonoma | 9º |
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| 3º | Kentucky | 1º |
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| 1º | Michigan | 19º |
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| 14º | Milwaukee | 2º |
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| 5º | Nashville | 14º |
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| 6º | Kansas | 1º |
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| 10º | Richmond | 1º |
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| 1º | Texas | 4º |
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| 7º | Watkins Glen | 12º |
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| 25º | 500 Milhas de Indianápolis | 1º |
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| 1º | Motegi | 4º |
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| 1º | São Petersburgo | 8º |
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| 2º | Homestead | 3º |
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| CASTRONEVES X HORNISH JR. | | 3º em 2006 |   | Campeão em 2006 |
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UOL Esporte: Por isso que às vezes ficam dois ponteiros disputando a liderança e, de repente, três carros vêm de trás e ultrapassam os dois?
Castroneves: Exatamente. Gente, é muito detalhe. Mas isso é que é legal. É o contrário da F-1, que você cria e constrói seu carro, você sabe as limitações dele. Na IRL você tem seu carro e depende da sua capacidade e do seu time de achar um acerto para ele antes dos demais. Por isso, às vezes um carro tem uma performance melhor que os outros.
UOL Esporte: E a pista oval, é mais fácil que a mista?
Castroneves: Lá dentro da pista oval as coisas acontecem muito rápido. Mas quando você está lado a lado com outro piloto na mesma velocidade não parece que estão tão rápidos. Quando você bate é que vê como está rápido. Aí dói (risos).
O público está acostumado a ver o carro na pista mista, virando para a direita, para a esquerda. Mas no oval, se o carro está saindo de traseira, você tem que segurar. E chega um ponto que não dá mais: ou bate ou pára. O ideal é parar, mas nem sempre dá tempo.
Tanto é que se você pede para um piloto da F-1 correr no oval ele vai dizer que não é seguro. Não é seguro se você corre como na F-1, fechando os carros. Aqui você tem que ter um certo respeito. Não pode jogar um carro na grama, senão um dia é você quem vai acabar lá.
UOL Esporte:E segurar o carro exige muita força? É no braço mesmo?
Castroneves: Nós não temos volante hidráulico como na F-1. O nosso é mano a mano, temos que literalmente segurar no braço. E circuito misto pra nós realmente é muito duro. É uma pressão enorme. A gente chega a suportar 4 ou 5 G - o peso do carro e do seu corpo quatro vezes mais na gente.
No ano passado o (Ryan) Briscoe e o (Giorgio) Pantano, da F-1, foram pra IRL e perguntei para eles como foi. Eles responderam: 'Nossa, é pesado, hein?'. E eu respondi: 'Pois é italiano, tá achando que chega aqui e vai andar na frente' (risos).
Quando guiei na F-1, em 2002, senti só o pescoço, praticamente. Naquele ano não andei em circuito misto. Mas foi a única dificuldade. O carro tecnicamente é ótimo, uma tecnologia muito grande. Acho que a IRL é muito mais uma combinação de equipe e piloto que a F-1. A F-1 é política e equipe. O piloto é detalhe.
| CLASSIFICAÇÃO DE 2006 |
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| 1. S. Hornish Jr. (EUA) | Penske | 475 |
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| 2. D. Wheldon (ING) | Chip Ganassi | 475 |
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| 3. H. Castroneves (BRA) | Penske | 473 |
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| 4. S. Dixon (NZL) | Chip Ganassi | 460 |
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| 5. V. Meira (BRA) | Panther | 411 |
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| 6. T. Kanaan (BRA) | Andretti Green | 384 |
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| Piloto | Equipe | Pontos |
| CLASSIFICAÇÃO COMPLETA |
UOL Esporte: Mas você não tem vontade de correr na F-1?
Castroneves: Não. Passou o tempo. Hoje estou muito contente. Foi até interessante fazer o teste em 2002, que foi perfeito, andamos muito rápido. Mas durante o teste, a Toyota me falou que tinha assinado com o Cristiano (da Matta), e foi uma decepção muito grande pra mim, não pelo Cristiano, mas porque não esperaram nem mesmo eu terminar o teste para contar.
Lá politicagem é jogo direto. Então foi até bom não ter dado certo. E você viu o que aconteceu com ele. Nem dois anos depois o tiraram do carro. E não é culpa dele. Tanto é que a Toyota continua andando atrás. Fiquei até contente. O cara lá de cima escreve as coisas certas.
Hoje poderia não estar correndo de nada. E, ao invés disso, estou em uma equipe fantástica, se não for uma das melhores do mundo, de organização, recursos, potencial. O pessoal está sempre trabalhando e por isso é difícil ir pra outra equipe e entender isso. Estou contente não só pela equipe, mas pelo respeito.
UOL Esporte: Para você o que é mais importante, o título das 500 Milhas ou da IRL?
Castronves: Poxa, sacanagem! Olha, para o piloto - vamos esquecer o glamour - o campeonato é mais difícil, pois são mais provas, mais circuitos. Então, para o piloto vejo que é mais importante. Agora, para o público, as 500 Milhas é mais importante, por ter nome, história e principalmente por ser uma pista muito difícil. São 500 milhas, tudo acontece em um dia, é um minicampeonato. Então as 500 Milhas para mim foi tudo. Hoje o campeonato está faltando, mas para mim. Mas também quero ser tri (das 500 Milhas), vamos voltar lá.
UOL Esporte: Como você responde às pessoas que dizem que automobilismo não é esporte?
Castronves: Apesar de não estarmos correndo atrás da bola, saltando, o esforço existe, mas é diferente. Hoje a IRL é um esforço físico muito grande, especialmente o circuito misto. O piloto precisa estar bem condicionado, ter preparo físico, ter alimentação adequada. Tudo isso.
E também é um esporte em equipe porque você depende do carro para estar bem. Hoje me considero atleta, lógico que na minha devida proporção. Trabalho pescoço, ombro, antebraço, e este é o lado que vamos usar mais. Hoje o piloto é um atleta, mas lógico que tem suas exceções. É uma coisa de cada piloto. Eu sempre fui assim, para mim é natural. Agora o Montoya é um cara que diz que só malha em fim de temporada e acabou. Meu próprio companheiro de equipe não malha sempre.
Publicada no dia 10 de novembro de 2006
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