| |

 |
Telê Santana: da tragédia do Sarriá à consagração mundial com o São Paulo
Da dolorosa eliminação da seleção na Copa de 1982 até os anos vitoriosos no Morumbi na década de 90, técnico demonstrou toda a capacidade para montar times inesquecíveis, erguidos para serem ofensivos, coletivos e jogar bonito
Da Redação Em São Paulo
 |
 |

| AFP |
 |
Telê Santana fez boas seleções, mas não conquistou a Copa

|
|

Demorou dez anos para que Telê Santana conseguisse provar que era um técnico de primeira classe, vencendo a Libertadores e o Mundial Interclubes pelo São Paulo em 1992, uma década depois da dolorosa derrota da seleção brasileira na Copa do Mundo da Espanha.
A queda contra a Itália em 1982, na partida denominada de "Tragédia do Sarriá", ameaçou, injustamente, marcar a carreira de Telê. A verdade é que, mesmo com o 5º lugar, a equipe de Zico, Falcão, Sócrates e companhia entrou para a história como uma das melhores do futebol nacional.
Mas, a despeito dos méritos de armação da seleção de 1982, Telê viu o destino de seu time criar uma polêmica discussão no futebol brasileiro, com o debate se era melhor dar espetáculo ou ganhar jogando feio.
A derrota para a Itália no hoje extinto estádio Sarriá, em Barcelona, teve contornos de drama. O Brasil, que vinha de uma campanha impressionante, parou na Itália, que até ali não havia empolgado ninguém.
Na vitória por 3 a 2, os italianos estiveram em vantagem por três vezes, com três gols do "carrasco" brasileiro Paolo Rossi. O time de Telê Santana, que precisava apenas de um empate para ir à semifinal, falhou demais na defesa e não conseguiu compensar no ataque.
"Não me arrependo de nada que tenha feito naquele dia. Tenho certeza que muita gente gostaria que eu tivesse algo de novo para contar. Mas não existe nenhum segredo. Tudo que tinha que ser feito, foi feito", contou Telê em entrevista para o livro biográfico "Fio de Esperança", do jornalista André Ribeiro.
Mesmo com o trauma da eliminação na Espanha, Telê voltou à seleção para a Copa seguinte, para satisfação popular, assumindo o cargo que passara rapidamente pelas mãos de Carlos Alberto Parreira e Evaristo de Macedo. Para isso, o treinador foi obrigado a rescindir um rentável contrato com o Al Ahli, da Arábia Saudita.
Pela primeira vez na história do futebol brasileiro, um técnico derrotado numa Copa era chamado para voltar a dirigir a seleção.
No Mundial do México, nova eliminação antes da semifinal. E, com alguns remanescentes do time de 1982 em campo, a seleção de Telê viu nascer um novo trauma na derrota dramática nos pênaltis contra a França de Michel Platini.
Redenção no Morumbi
Depois da experiência em duas Copas do Mundo, Telê Santana viu sua carreira voltar aos clubes. As passagens por Atlético-MG, Flamengo e Palmeiras não foram das mais vitoriosas, e a fama de "pé-frio" seguia a incomodar o treinador mineiro.
Em 1990, Telê assumiu o São Paulo para um desafio que parecia definitivo na sua vida. O clube vinha em um péssimo momento, com uma campanha vexatória no Paulistão daquele ano nas mãos do técnico uruguaio Pablo Forlán.
Logo nos primeiros meses, começou a modelar a equipe vencedora do São Paulo. Mas o ano acabou com o vice-campeonato brasileiro, perdendo a final para o rival Corinthians.
A série impressionante de títulos de Telê no Morumbi começou com a glória no Brasileiro de 1991, batendo o Bragantino de Carlos Alberto Parreira na decisão. No mesmo ano, o clube fez uma campanha irrepreensível no Paulista e se vingou do Corinthians.
Nesse ano, o futebol de alguns jogadores começava a aparecer. Na incrível geração do Morumbi, a obstinação do treinador "fez" jogadores como Cafu, modelou o talento de Raí e resgatou a capacidade de Müller. Só para citar alguns exemplos.
Em 1992 o São Paulo de Telê "varreu" quase todas as taças disponíveis. A primeira delas foi a Libertadores, voltando a despertar o interesse do brasileiro para a competição. O time do Morumbi também voltou a conquistar o Paulistão e levantou seu primeiro Mundial, superando o Barcelona.
No ano seguinte, o São Paulo repetiu a "dobradinha" Libertadores e Mundial, chegando ao ápice do futebol coletivo e ofensivo. De quebra, mais uma taça, a da Supercopa. A mudança de peças na equipe titular não parecia representar nada no time de Telê. Nem mesmo a saída de Raí, referência do meio-campo, para o futebol europeu abalou taticamente a equipe.
O sucesso no São Paulo fez Telê voltar a ser reconhecido internacionalmente. Tanto que o brasileiro chegou a receber proposta para suceder o holandês Johan Cruyff no comando do Barcelona. Na época, o técnico recusou a oferta.
O São Paulo chegou à terceira final de Libertadores consecutiva em 1994, mas a derrota para o Vélez no Morumbi evidenciava a queda do "super-time" de Telê. Naquele ano, o clube só não passou em branco em taças por causa da conquista do "expressinho", equipe de reservas, na Copa Conmebol.
Telê deixou o São Paulo em 1996, quando sofreu uma isquemia cerebral dias depois do empate com o Rio Branco na primeira rodada do Paulistão.
O desfecho da relação de Telê e o São Paulo não foi dos mais bonitos. O ex-treinador, revoltado com o suposto descaso do clube em relação a seu tratamento médico, processou os antigos patrões na Justiça. Acabou recebendo R$ 300 mil num acordo entre os advogados.
Publicado originalmente em 21 de abril de 2006
|
|