Em dezembro do ano passado, Rapha foi eleito o melhor jogador estrangeiro do Jogo das Estrelas do Campeonato Russo. Neste mês, Thiago Aranha ganhou o título do Campeonato Francês. Rivaldo também foi campeão, mas no Japão. Além de serem destaques de seus times, os três jogadores têm mais uma coisa em comum: atuam longe dos holofotes (leia-se a Superliga brasileira e o Campeonato Italiano), e por isso vêem a seleção brasileira masculina de vôlei cada vez mais distante.
Em contrapartida, jogadores consagrados no grupo do técnico Bernardinho não se preocupam em atuar em campeonatos de pouca expressão internacional. Escondidos na Grécia, o ponta Dante e o levantador Marcelinho têm a certeza de que continuarão a ser chamados para defender a seleção brasileira.
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Thiago Aranha é um dos destaques do melhor time francês, o Paris Volley
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Os dois são os únicos jogadores da equipe que conquistou os títulos da Liga Mundial e da Copa dos Campeões do ano passado que atuam foram do Brasil ou da Itália. Mas como a ida dos dois para o Panathinaikos aconteceu quando ambos já tinham vaga consolidada na seleção, a preocupação sobre um possível esquecimento do treinador inexiste.
"O Bernardinho sabe como a gente está, sabe com quem a gente está treinando (o comandante do Panathinaikos é o argentino Carlos Weber, ex-treinador da Unisul). Ele confia muito no Weber, tanto que colocou o Bruno (Resende, filho de Bernardinho) para treinar na Unisul. Além disso, está sempre nos ligando, ou ligando para o Weber", disse Dante, que afirmou conversar com o técnico da seleção pelo menos duas ou três vezes por mês.
O levantador Marcelinho, reserva de Ricardinho na seleção, também tem tratamento especial da comissão técnica do Brasil. "Estou desde 97 na seleção e constantemente ligam para a gente, em busca de informações. O Bernardo conhece bem o Weber e eu também tenho total confiança nele. Se o Weber veio para cá, sabia o que estava fazendo. Então, quando ele me chamou, aceitei sem ter dúvidas", disse.
O próprio técnico Bernardinho confirma a dificuldade em observar os jogadores que estão longe dos grandes centros. Entretanto, o treinador aposta em uma rede de informantes para se manter a par do desempenho dos atletas no exterior.
"Mercados como Grécia e Rússia são mais difíceis de acompanharmos, mas temos os nossos contatos, que sempre nos enviam informações sobre jogos, campeonatos, jogadores. Na Itália já é mais fácil. E em termos de números, estatísticas, o site da Liga Italiana disponibiliza tudo, o que nos ajuda bastante. Ou seja: procuramos estar sempre por dentro de tudo sobre o voleibol", disse Bernardinho, por intermédio da assessoria de imprensa da Confederação Brasileira de Vôlei.
Mas quem está fora da "panelinha" é sistematicamente esquecido. O oposto Rivaldo, maior pontuador da temporada 2004/2005 da Superliga pelo Banespa, acredita que praticamente encerrou suas chances na seleção ao trocar o time paulista pelo Sakae Blazers, do Japão.
| TORCIDA FANÁTICA |
| Invasões de treinos, ameaças, pressão. Na Grécia, a torcida de vôlei pode ser comparada às mais fanáticas do futebol brasileiro. Com a transferência para o Panathinaikos, Dante e Marcelinho passaram a ter de dar satisfações não apenas para o técnico, Carlos Weber, mas também para milhares de fãs.
"Quando meu vizinho do prédio começa a falar um monte de coisas em grego, já sei que ele está reclamando porque a gente não foi bem. Aqui, os torcedores já invadiram treino para cobrar e também freta avião para ver os jogos fora", conta o levantador Marcelinho.
Sair às ruas com roupa vermelha ou verde, então, é arriscar-se. O verde é relacionado ao Panathinaikos. Já o vermelho é a cor do rival Olympiacos. "Eu joguei no Vasco, que tem uma torcida fanática no futebol, mas no vôlei é mais tranqüilo. Aqui é impressionante", diz Marcelinho.
Seu colega Dante também ficou impressionado. "Em qualquer esporte, pode ser até no bilhar, é uma rivalidade que eu nunca vi igual, nem no Brasil. Chega até a dar medo. No jogo contra o Olympiacos, ficamos 45 minutos na quadra porque a torcida não nos deixava entrar no vestiário. As pessoas não podem sair com a camisa do clube na rua porque sempre tem confusão", conta.
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"Eu sou um profissional do vôlei. A seleção não é o meu maior objetivo. Estou jogando onde estou sendo valorizado. Não estou preocupado em fazer uma imagem para a seleção. Tinha essa preocupação somente até quando saí do Brasil", afirmou o jogador, que negocia sua volta ao país. "Não que eu não tenha um sonho de jogar na seleção. Mas hoje não vejo a necessidade de um jogador da minha posição lá", resigna-se Rivaldo.
Para o levantador Rapha, a seleção sempre esteve mais perto do que para Rivaldo. O jogador, hoje no Dínamo Kazan, na Rússia, chegou a integrar a equipe na disputa da Copa Sul-Americana, em setembro do ano passado, quando Ricardinho foi dispensado por causa de problemas particulares.
"Foi a coisa mais maravilhosa que me aconteceu. Claro que gostaria de voltar e fico um pouco na expectativa, sim. Quando acabou a temporada 2003-2004 conversei com o Bernardinho e ele me disse que acompanha todos os campeonatos internacionais. Procurei um clube conhecido no mundo inteiro e que tem uma boa estrutura. Todos os jogadores da seleção russa estão aqui (no campeonato)", disse Rapha, que saiu do Brasil após ter feito uma excelente Superliga.
Agora, a concorrência na seleção é maior, ainda mais com a ascensão de Bruno, campeão da Superliga 2005/2006 pela Cimed. Por isso, o levantador planeja retornar ao país. "Quero voltar para o Brasil para ficar mais em evidência", disse Rapha.
Se garantir uma vaga na "panelinha" de Bernardinho já é difícil para os atletas longe dos holofotes, para quem deixou o Brasil antes de estourar no vôlei é praticamente impossível. Este é o caso de Thiago Aranha, um dos destaques do Paris Volley, o principal clube francês.
Há quatro anos na Europa, Thiago passou pela Espanha antes de defender o Tourcoing e agora o Paris, na França. No começo do mês, conquistou o título do Campeonato Francês. O jogador, de 24 anos, começou a carreira em Santos, onde nasceu. Atuou também no Rio de Janeiro, sendo vice-campeão estadual em 2000. Antes de ir pra Europa, ele jogou vôlei de praia por um ano ao lado de Rico, filho do treinador Bebeto de Freitas.
"A seleção foi um grande sonho pra mim. Eu queria entrar para a seleção infanto e juvenil, treinar no nível que eles treinam, mas nunca fui chamado", lamenta. "Não vou dizer que não penso nisso (ir para a seleção), porque representar seu país é um desejo para todo o jogador de vôlei. Mas não jogo pensando em me mostrar. Hoje, o Brasil tem muitos jogadores fortes, de habilidade e qualidade. A competição é difícil", disse Thiago.
O único contato que o ponteiro teve com a seleção foi como ajudante de treinamento. Em 2001, ele era um dos responsáveis por auxiliar o técnico Bernardinho a testar os jogadores da equipe no bloqueio e no saque.
"Acho que dois fatores pesam no meu caso: ter saído do Brasil e ter trabalhado com a seleção, ajudando nos treinos. Quando isso acontece, não te olham mais como jogador", analisa o ponteiro. "Por um lado foi bom porque aprendi coisas e tive contato com jogadores que hoje são campeões olímpicos. Mas se pudesse ter tido esse contato de outra forma, treinando, eu ia preferir, claro".
Publicado em 19 de maio de 2006