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Sem 'guru', Daiane, 20,
já fala em aposentadoria


Técnico Oleg Ostapenko, um dos principais responsáveis pela evolução do Brasil na ginástica e unanimidade na seleção, pode voltar à Ucrânia após a Olimpíada; decisão pode antecipar aposentadoria da campeã mundial, Daiane dos Santos

Por Murilo Garavello
Enviado especial do UOL a Curitiba



AFP
Leia entrevista com Daiane


Oleg Ostapenko é uma unanimidade na seleção brasileira de ginástica: ginastas, técnicos e dirigentes não poupam elogios ao ucraniano que tem sido essencial para a criação de uma base de ensino de ginástica no país. Seus gestos, ensinamentos e planejamento são atentamente observados por outros técnicos brasileiros, que viajam a Curitiba especialmente para aprender com ele. É Oleg quem define que exercício cada ginasta apresentará em cada competição. Da cabeça dele saem os exercícios que cada atleta poderá exibir em Atenas-2004.

Entretanto, o técnico ucraniano, que está em Curitiba desde abril de 2001, tem contrato apenas até setembro de 2004. Ou seja, até o fim da Olimpíada de Atenas. Depois, não sabe se segue no Brasil. A decisão de Oleg pode ser decisiva para a aposentadoria de duas das principais ginastas brasileiras: Daiane dos Santos, campeã mundial de solo em 2003, e Camila Comin, membro da seleção e veterana da Olimpíada de Sydney-2000.

"Eu gosto muito de trabalhar com o Oleg. E não sou só eu, são todas as ginastas", afirma Daiane. "Devo a ele minha lapidação total. Como comecei tarde na ginástica, atropelei muita coisa, não tive uma base adequada. E ele age aí: trabalha muito minha postura. Sempre fui muito forte, mas isso não adianta se você tiver uma ginástica suja. E é isso que ele cobra muito de mim: limpeza nos exercícios. Ele me ensinou muita técnica. Eu estou aqui em Curitiba por causa dele. Se ele não estivesse aqui, eu também não estaria", diz a ginasta, que tem "planos com a ginástica até a Olimpíada".

Arquivo
Oleg observa Daiane em treino
"Depois de Atenas, preciso analisar diversas coisas, como minhas condições psicológicas e técnicas. Mas a permanência ou não do Oleg vai pesar muito na minha decisão. Agora, vamos para a Alemanha, depois, ele sai de férias. Eu perguntei: 'depois de lá você vai para a Ucrânia?'. Ele falou: 'vou, claro, tou com muita saudade de lá'. 'Você já tá contando os dias, então?' 'Tou contando e não vou mais voltar para o Brasil', disse, brincando. 'Não pode, tem de ficar até o ano que vem aqui. Se você não voltar, eu também não volto.' 'Então vamos comigo pra Ucrânia'. 'Depois a Eliane (Martins, coordenadora da Confederação Brasileira de Ginástica) mata eu e você'. Ele riu", conta Daiane.

"Queremos muito que ele fique aqui", revela Eliane Martins, fazendo elogios rasgados ao ucraniano. "Ele sabe tudo de ginástica e está fazendo uma verdadeira revolução no Brasil. É inteligentíssimo, perspicaz demais, sabe lidar com as meninas como ninguém. Enxerga longe, planeja hoje onde as meninas vão estar chegando perto da Olimpíada. Ele é fundamental".

A opinião é compartilhada por Ricardo Pereira, assistente-técnico da seleção brasileira. "Ele é o melhor técnico do mundo", diz o carioca, que começou na ginástica com Georgette Vidor -a única que faz críticas ao ucraniano. Em 2002, Pereira foi uma das exigências de Daniele Hypólito para passar a morar em Curitiba. E, agora, o treinador decidiu seguir na cidade, mesmo com a volta de Daniele para o Rio de Janeiro. "Vou continuar aqui, estou aprendendo demais".

Camila Comin, que também treina diariamente com Oleg, em Curitiba, é outra que pode se aposentar após as Olimpíadas. "Até lá tenho bastante tempo para pensar. Se o Oleg ficar, terei um ótimo incentivo para seguir também. Ele tem uma visão ampla que os técnicos brasileiros não têm. Ele corrige detalhes aqui e ali que fazem uma enorme diferença no resultado final", diz a ginasta.

Arquivo
Mulher de Oleg quer ficar no país
E Oleg, quer ficar? O técnico detesta dar entrevistas. Mesmo após muita insistência, não conversou com o UOL Esporte. Quem dá mais pistas é a mulher de Oleg, Nadija Ostapenko, coreógrafa da seleção brasileira de ginástica e que concordou em falar com o UOL com a condição de não ter a entrevista gravada. De acordo com ela, o técnico ainda não tomou sua decisão. "Ele sente saudades da Ucrânia. Um dia me disse: 'vamos voltar para lá, é o nosso lugar'. Acho que dois dias depois, veio me falar: 'A Laís (Souza, 15, ginasta da seleção) é muito boa, vai ser melhor que a Daiane. Quero muito vê-la na outra Olimpíada. Então, não dá para saber", revela Nadija, com um português já bastante compreensível, sorrisos e uma espontaneidade que contraria o estereótipo de frieza dos ucranianos.

Se a decisão depender de Nadija, com quem Oleg é casado há 33 anos, ambos devem continuar no Brasil. Ela diz gostar da qualidade de vida que tem no Brasil. Da Ucrânia, só tem sente saudade dos parentes. Principalmente dos filhos. Quer, inclusive, trazê-los ao Brasil. "Mas vou acabar minha vida do lado dele. Para onde ele for, vou atrás".

Trajetória, personalidade, importância
Oleg Ostapenko começou a ganhar destaque em 1990. Trabalhando em Kherson -cidade ucraniana com cerca de 450 mil habitantes, distante 450 quilômetros da capital, Kiev-, levou a ginasta Natalia Kalinina ao título dos Jogos da Amizade. Em 1992, uma de suas ginastas, Tatiana Lysenko, foi medalha de ouro nas Olimpíadas de Barcelona. Mais tarde, o técnico foi convidado a trabalhar em Kiev com a seleção nacional da Ucrânia. Recebeu um apartamento de presente e passou a comandar a equipe. Em Sydney-2000, Viktoria Karpenko liderava o individual geral até o último aparelho, quando cometeu um deslize e perdeu a medalha.

Depois dos Jogos, Oleg foi sondado também pela Austrália e, seguindo os passos de muitos outros treinadores que deixaram a ex-URSS, decidiu fechar contrato com o Brasil. Sua mulher, Nadija, já morava aqui. Uma das primeiras tarefas de Oleg foi selecionar as ginastas para a equipe olímpica permanente. "Ele foi a uma competição em Porto Alegre e me escolheu. Em 2002, vim morar em Curitiba. Acabei voltando pra Porto Alegre porque tinha que operar o joelho, tive ruptura do tendão patelar. Aí, tive de operá-lo. Eu não voltava, não voltava, ele foi lá me buscar. 'Você precisa (estar em) uma semana na Curitiba'. Uma semana depois, eu estava em Curitiba. 'Você precisa com todas meninas morar na Curitiba', ri Daiane, imitando o português ainda impreciso do técnico.

Durante os treinos, Oleg caminha pelo ginásio. Inquieto, senta-se nos mais variados lugares: sobre colchões, no chão, sobre o cavalo. E fica observando o desempenho das ginastas. Daiane, de longe, é a que ganha mais atenção. Após cada um de seus saltos, a gaúcha procura com os olhos o técnico. Que nunca está satisfeito. Faz caretas, gesticula tentando mostrar que movimentos devem ser aperfeiçoados. Repreende, conversa.

"Uma qualidade importantíssima dele é a inteligência. Por ser muito perspicaz, sabe lidar com as meninas. Joga com elas sem que percebam. Como foi atleta de alto nível, sabe quando elas estão cansadas, sabe a hora de diminuir. E sabe também quando estão com corpo mole", diz Eliane.

"Ele fala: 'Daiane, faz duplo-twist. Eu duvido que você consiga'. Ele me desafia. Todos os dias. Aí eu vou lá e faço. 'Você gosta de trabalhar na pressão', ele brinca comigo. Ele é muito engraçado. Não consigo ficar brigada. Eu discuto com ele, dali a pouquinho ele vem: 'ai, querida, bravinha'. Eu digo: 'tou cansada Oleg, você fica falando isso...' 'Você não trabalha, precisa trabalhar'. Tá sempre cobrando muito", revela Daiane.

"Vou ter de treinar muito, tudo de novo, para conseguir uma medalha em Atenas. Mas é o que eu quero para mim. Agora vai ser muito mais difícil porque estarei muito visada. Todos vão querer que eu faça só séries maravilhosas. E minhas adversárias vão pensar: 'ela vai fazer isso, isso e isso. Tenho de treinar mais para fazer melhor'. Preciso ter uma resposta, também", diz a brasileira, que se diz ainda mais motivada para a Olimpíada após o ouro nos EUA. "Tenho mais motivação do que antes porque sou campeã mundial. Vi que eu posso. Sempre achava que podia, mas era uma coisa tão distante que até fiquei surpresa quando ganhei".

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    Publicado em 25 de novembro de 2003





  • Eu brigo com o Oleg, dali a pouquinho ele vem: 'ai, querida, bravinha'. Eu digo: 'tou cansada Oleg, você fica falando isso...' Ele responde: 'Você não trabalha, precisa trabalhar'
    Daiane dos Santos




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    filhos e 33 anos de casamento têm Oleg e Nadija Ostapenko




    Migué
    "Não entendo", diz Oleg aos jornalistas. O ucraniano se comunica bem em português, mas não gosta de dar entrevistas


    Oleg tem uma visão ampla que os técnicos brasileiros não têm. Ele corrige detalhes aqui e ali que fazem uma enorme diferença no resultado final
    Camila Comin


    Ele é o melhor técnico do mundo
    Ricardo Pereira