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Mundial de futebol de rua
vale integração e ‘caneco’


Moradores de rua formam 26 seleções para a segunda edição da Homeless World Cup, com direito a "saída Bangu" e conscientização que os sem-teto são uma classe marginalizada no mundo capitalista

Danilo Valentini
Em São Paulo



Reprodução
Jogador da seleção dos EUA



A Uefa apóia, o Manchester United e o Benfica patrocinam e algumas equipes usam os uniformes da mesma fabricante da seleção brasileira. Os 26 times são divididos em grupos, e a Inglaterra bateu na trave para ganhar o título. As coincidências com uma competição internacional profissional são muitas, mas é quando o jogador entra em quadra que fica claro que a Copa do Mundo para homeless (moradores de rua) não é um torneio qualquer.

Disputada pela primeira vez em 2003, quando a anfitriã Áustria bateu na cidade de Graz os ingleses na final, a competição de 2004 começa no próximo domingo em Gotemburgo, na Suécia. A Copa, disputada por entidades sociais que representam seus países, é organizada pela Rede Internacional de Jornais de Rua (INSP, na sigla em inglês) e tem sua final programada para o dia 1º de agosto.

Com o objetivo de integrar os moradores de rua dos países que possuem ONGs que o auxiliam, a Copa do Mundo tem organização de dar inveja aos dirigentes do futebol brasileiro. Com o patrocínio de empresas poderosas, a INSP fornece toda a infra-estrutura às equipes, com alimentação, hospedagem (em quartos coletivos, como os moradores normalmente vivem nos albergues) e passe livre no transporte público.

Reprodução
Torcedor da equipe da Dinamarca
O aporte financeiro viabilizou inclusive a participação da Ocas, revista com tiragem de 8 mil exemplares vendida por pessoas “em situação de rua” em São Paulo e no Rio de Janeiro. As passagens dos oito jogadores, do técnico e do “chefe da delegação” foram bancadas pela organização -o uniforme será fornecido gratuitamente pela Nike. No ano passado, a publicação, associada a INSP, não pôde competir por falta de recursos -o projeto Criança Esperança, da Rede Globo, representou o Brasil.

Outras “seleções”, porém, vivem uma situação luxuosa se comparada à equipe brasileira. Os ingleses, por exemplo, que serão representados pela Big Issue, a mais conhecida publicação de rua do mundo, conta com o patrocínio do Manchester United, que dá apoio logístico ao time vice-campeão da Copa. O Benfica exerce a mesma função para a equipe portuguesa, que enviará vendedores da revista Cais, enquanto o Metrostars ajuda a New Yorker norte-americana e o Toronto Lynx banca a Canucks, do Canadá.

O torneio, em um ano, cresceu consideravelmente. De 18 equipes, em 2003, o número de participantes subiu para 26, com a estréia de países como Namíbia, Ucrânia, Argentina, França, Portugal, Uruguai e o primeiro representante asiático, o Japão. Para a edição de 2005, quando a sede será Nova York, o objetivo é contar com 32 selecionados, como a Copa do Mundo profissional _em 2006, a competição acontece na Cidade do Cabo (África do Sul).

Os oito grupos serão divididos no dia da abertura, quando já acontecem os primeiros jogos. Todo dia, cada equipe deve disputar três partidas, e mesmo eliminada da disputa do título, todos os times lutarão por troféus até o final da competição. E as regras são as mais autênticas aplicadas em qualquer “pelada” de rua de bairro.

Em dois tempos corridos de sete minutos, os times entram com um goleiro e mais três jogadores de linha, que disputam a bola de forma insistente, sem cobrança de lateral e sem poder entrar na área adversária, único trecho do “campo” paramentado com grama sintética. E quando uma equipe sofre gol, não precisa dar a saída do meio-campo, podendo reiniciar a partida a partir da própria área, prática conhecida em alguns lugares do Brasil como “saída Bangu”.

Reprodução
Quadra do Mundial de 2003
Os jogos, que serão disputados numa praça pública -Gotaplatsen- no centro de Gotemburgo, porém, têm objetivos além dos esportivos. Com tendas reservadas para fóruns e palestras para se discutir a situação dos sem-teto do mundo inteiro, os “jogadores” sabem que o futebol será apenas a parte mais divertida de uma questão mais importante e delicada.

“(A competição) é importante pela idéia de mostrar que o sem-teto é uma classe marginalizada pelo sistema capitalista que aumenta o precipício social entre todos os seres humanos”, diz Dário Bertulucci, 28 anos, ex-postulante a uma vaga de piloto de aviões particulares que, após deixar os estudos, foi passar um período em um albergue e sobreviver vendendo peças de artesanato. Um ano após vender a Ocas, porém, já conseguiu alugar um quarto particular e planejar a volta aos estudos -no momento, faz cursinho para prestar vestibular para o curso de Filosofia.

E o sucesso da empreitada parece já estar consolidado. Depois da primeira edição reunir público de 20 mil pessoas, 90 jornalistas e 25 emissoras de TV, novas edições já estão confirmadas para os dois próximos anos.



Para mim é tudo uma cidade só. Só mudam as línguas. O que sei é que na Suécia tem várias loiras

Antônio César da Silva, vendedor da Ocas que vai jogar o Mundial




26

é o número de equipes confirmadas na edição deste ano, oito a mais do que em 2003.





Príncipe e mendigos
Estrelas do futebol mundial, como o brasileiro Ronaldo ou o técnico do Manchester United Alex Ferguson, são 'padrinhos' das equipes que representam a Espanha e a Inglaterra, respectivamente