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Seleção sem-teto treina sob viaduto do metrô
Formado por um alcóolatra, um ex-cobrador de ônibus que perdeu patrimônio em jogos de azar e ex-químico que perdeu família em acidente, selecionado nacional parte para sua segunda participação em Mundial Homeless
Danilo Valentini Em São Paulo

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| Danilo Valentini |
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Em pé: o goleiro Eduardo, o técnico Pupo, Celso e Sérgio; agachados: Irany, Antônio, Marcos, Seu Cláudio e Dário
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A equipe que vai representar a atual campeã Áustria na Copa do Mundo Homeless (morador de rua), saída de uma seletiva entre 17 ONGs, é formada por refugiados de países como Irã e Afeganistão. Já o Brasil será defendido por personagens mais comuns ao combalido cenário social do país, os moradores de rua.
Oito vendedores da revista Ocas, publicação com cunho social que auxilia os “brazilian homeless”, formam o elenco da equipe que vai vestir as cores do Brasil em Gotemburgo, na Suécia, onde acontece entre 25 de julho e 1º de agosto a segunda edição do Mundial de futebol de rua, onde o gol é “caixote” e a bola não sai pela lateral, como numa autêntica “pelada” de rua.
Desde o anúncio da possibilidade da revista disputar a competição, no início do ano, alguns vendedores se mobilizaram e começaram a treinar sozinhos para estarem num bom nível caso a equipe fosse realmente inscrita no torneio.
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Treino de domínio de bola

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Após a confirmação, que veio com as passagens pagas pela organização e com os uniformes cedidos pela Nike, o projeto ganhou corpo e um treinador de verdade, Flávio Fernandes, conhecido como Pupo e que trabalha com categorias de base -atualmente, comanda uma equipe de garotos entre 14 e 16 anos num colégio da cidade de Inchoen, na Coréia do Sul.
Empolgado com a idéia de treinar uma equipe de “amadores”, Pupo passou a freqüentar duas vezes por semana uma quadra pública localizada abaixo de um viaduto do metrô no bairro do Brás, na zona leste de São Paulo. E com treinos físicos -orientados por uma professora-, táticos e técnicos passou a formatar uma equipe entre gente que já atuou como químico, garçom, artesão e que caiu em decadência por razões que vão do alcoolismo ao jogo de azar.
“Comecei a trabalhar com eles do básico, já que são pessoas sedentárias, que não praticavam atividade física. Precisei ensinar a passar, chutar, se posicionar...”, relembra Pupo, que vê na Copa do futebol de rua uma boa perspectiva para encontrar trabalho na Europa, tanto que já providenciou cartões pessoais para fazer contatos.
Os “sedentários”, porém, não querem brincar no torneio. Apesar de todos terem consciência que a competição tem um cunho mais social do que esportivo, “atletas” como o carioca Eduardo Fausto da Silva, de 23 anos, sonham também em levar o time o mais longe possível na Copa do Mundo. “Vou conhecer novas culturas, novas imagens e fotografar, mas também vamos mostrar raça no jogo, sem nos preocupar com nosso jeito desengonçado de jogar”.
A falta de jeito, aliás, não assusta a Cláudio Bongiovani, chamado por todos do time de senhor, devido aos seus 51 anos. O mais experiente em idade e em duras passagens pela vida -perdeu seis integrantes de sua família, incluindo mulher e filhos, em um acidente de carros, em 2002- revive hoje, com os “meninos” da Ocas a mesma satisfação da época que tinha como trabalhava como químico.
“Na época do acidente, me senti culpado, pensei em jogar tudo fora e passei dias morando na av. 9 de Julho (em São Paulo). Mas na Ocas, com terapia, as amizades e o convívio, consegui um aprimoramento mais profundo na vida, completo”, afirmou Seu Cláudio, que se diz um “viciado em bola” e com o objetivo de “atrapalhar os adversários com a tática e a técnica do futebol brasileiro”.
O time brasileiro será composto ainda por Marcos José Dias, de 34 anos, Sérgio Borges, 38 , Irany Francisco dos Reis, 40, Antônio César Andrade Silva, 30, Celso Pereira, 45, e Dário Bertulucci, 28.
Publicado em 22 de julho de 2004
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