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Com o adeus de Romário, "bad boys" dão lugar aos "embaixadores da ONU"

Aposentadoria de atacante carioca marca o fim de uma época que os jogadores polêmicos dominavam os campeonatos e as manchetes; agora, os ídolos ganham até chancela das Nações Unidas para seu bom-mocismo

Da Redação
Em São Paulo



AFP
Marra e gols dão adeus; veja fotos

A aposentadoria anunciada por Romário marca o fim de uma era: saem de campo os chamados "bad boys" e entram em cena os bons moços, aqueles que preferem um posto de embaixador honorário da ONU (Organização das Nações Unidas) a entrar em uma briga.

BAD BOYS NO BRASIL
Heleno de Freitas,
atacante,
anos 40

Ídolo do Botafogo, percusor de rebeldia em campo, morreu antes dos 40 anos em um sanatório
Almir Pernambuquinho,
atacante,
anos 60

No time ou na seleção, provocava brigas campais e acabou morto em briga de bar
Paulo César Caju,
meia,
década de 70

Boêmio e ativista negro, gostava de uma polêmica e dos flashes
Serginho Chulapa,
atacante,
década de 80

Carnavalesco e esquentado, protagonizou brigas em campo com Leão e Mauro
Edmundo,
atacante,
década de 90

Aliou agressão no Equador, acidente de carro no Rio e fugas na Itália

A linhagem de "marrentos", vinda de Heleno de Freitas e Almir Pernambuquinho, passando por Paulo César Caju e Serginho Chulapa, tinha como últimos remanescentes Romário, Edmundo e Djalminha -estes dois últimos, em franca decadência, ainda estão nos gramados.

O craque de 38 anos colecionou tanto títulos quanto polêmicas. Não gostava de treinar ("Treinar pra quê se eu entro em campo e já sei o que fazer", era a letra de uma música dedicada a ele). Gostava sim de noitadas ("A noite é minha amiga", disse uma vez). De tão afeito ao futevôlei fez famosa nacionalmente a barraca em que armava sua rede, o Viajandão da Barra da Tijuca. Afeito às mulheres, mas não a pagar pensão alimentícia, foi parar na delegacia. Após a separação, sua primeira mulher, Monica Santoro, denunciou, e ele acabou investigado pela Receita Federal.

Era tão mortal na área como nas entrevistas. Arrumou rusgas com Zagallo, Zico, Cruyff, Ronaldo, Túlio, Edmundo e, por último, com seu técnico no Flu, Alexandre Gama.

De Zagallo e Zico, não perdoou o corte da Copa de Mundo de 1998, por um contusão que o atacante acreditava ser capaz de se recuperar a tempo. O holandês Cruyff, seu técnico no Barcelona, criticou seu temperamento boêmio e levou uma alfinetada. Ronaldo entrou na polêmica que Romário criou ao afirmar que era melhor que o campeão mundial de 2002.

Já Edmundo, seu amigo e concorrente em número de confusões, virou inimigo após os insucessos da dupla no Flamengo e no Vasco. No Fluminense em 2004, o duo se suportou. Edmundo ficou célebre por quase ser preso no Equador, se envolver em acidente com três mortes e abandonar a Fiorentina, da Itália, para pular o Carnaval carioca.

Já Romário foi para as manchetes ao agredir, junto com um segurança seu, a um torcedor tricolor, dar um soco no companheiro Andrei durante uma partida e colocar caricaturas de Zagallo e Zico sentados em uma privada na porta do banheiro masculino de uma casa noturna sua.

Folha
Kaká (esq.) e Ronaldo: 'genros ideais'

Mas ao contrário de Edmundo, Romário capitalizou com suas confusões e polêmicas criadas como factóides. Tanto é assim que sua aposentadoria tem um quê de marqueteira. Primeiro fez um jogo nos EUA para se despedir da seleção na Califórnia, mas já emendou um jogo na Flórida com a mesma camiseta amarela.

Próximo passo foi anunciar sua retirada exclusivamente para o jornal carioca "O Globo". Na seqüência, anunciou um jogo de despedida vestindo camisetas do Flamengo e Vasco no final de 2005. O clube de Eurico Miranda, porém, diz que vai demovê-lo da aposentadoria. Mas o craque diz estar cansado do futebol competitivo.

No âmbito internacional os "bad boys" também estão em baixa. Há anos, inclusive. Na França, saiu o "carateca" Eric Cantona para a entrada da geração de Zinedine Zidane, que, como Ronaldo e Kaká, é embaixador da ONU. Na Inglaterra, o beberrão e irreverente Paul Gascoigne deu lugar para os "mocinhos" David Beckham e Michael Owen.

BAD BOYS PELO MUNDO
George Best,
atacante,
década de 60

O irlandês era alcoólatra. Suas bebedeiras duravam até a hora dos treinos e jogos
Paul Gascoigne,
meia,
década de 80

Beberrão e gozador, ia direto do estádio para o pub
Eric Cantona,
atacante,
década de 90

Esquentado, ficou célebre por uma voadora aplicada em torcedor rival
Adrian Mutu,
atacante,
anos 2000

Baladeiro, Mutu foi suspenso por uso de cocaína e filmado para filme pornô

As imagens públicas, seja "bad boy" ou "bom moço", são capitalizadas pelas empresas esportivas. "Vilões" como Cantona, Edmundo e Romário ajudaram a vender desde shampoo até cerveja e cueca. "Mocinhos" como Kaká, Ronaldinho Gaúcho ou Shevchenko também servem para o mesmo propósito.

Nos últimos anos, porém, o "baixinho" vinha em baixa. Poucos lampejos, muitos atritos e nenhum resultado. Ele se revezou entre as Laranjeiras e o Qatar. Não lembrava para nada o segundo maior artilheiro da história da seleção brasileira (70 gols em 87 jogos), atrás só de Pelé.

No cenário internacional, seu posto de "o craque brasileiro" era ocupado por Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e finalmente Kaká e Adriano. Mesmo assim, ele brigava contra o presente e soltava frases como: "Depois de Pelé, Maradona. E depois de Maradona, eu." Queria que todos lembrassem de seus feitos ainda recentes, mas já atropelados pelos de seus sucessores.

Sua volta ao Rio em 1995 e a ida no ano anterior de Ronaldo para o PSV, time holandês que também foi a porta de entrada do Fenômeno, marcam a passagem de bastão. Nesse final de 2004, Romário e sua marra desaparece definitivamente dos gramados. Junto com ele, sua maestria dentro da área, de longas esperas, de dribles curtos, de arrancadas velozes e de finalizações precisas.



Quem tem que se preocupar com imagem boa é aparelho de TV

Romário, revelando toda sua preocupação em zelar pela sua fama
Deus apontou o dedo em minha direção e disse: esse é o cara

Idem, em mais uma demonstração de desapego e companheirismo




822

é o número de gols que Romário alega ter marcado em sua carreira




Técnico bom é aquele que não atrapalha

Idem, deixando claro qual a importância que o "professor" tem, na sua opinião, para o time
A noite sempre foi minha amiga. Quando saio, estou contente e marco gols"

Idem, revelando o que lhe deu motivação durante a carreira