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Surfista carioca que morreu no mar pode virar santo da Igreja Católica

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

16/12/2014 06h00

Há alguns anos circula entre grupos de jovens católicos um texto atribuído ao papa João Paulo II no qual se diz que a Igreja precisa de “santos de calça jeans e tênis”.

Trata-se de um recado aos jovens religiosos: mesmo no mundo contemporâneo, eles podem (e devem) trilhar o caminho da santidade cristã. Eles podem (e devem) vencer o pecado e se tornar hoje os humanos a serem venerados pelos fiéis do futuro.

No mês passado, a arquidiocese do Rio de Janeiro recebeu o aval do Vaticano para iniciar o processo de canonização que pode dar ao Brasil seu segundo santo reconhecido pela Igreja. E o postulante é diferente de todos os mais de 10 mil mártires e heróis que a Cristandade já produziu.

Guido Vidal França Schäffer, que morreu no mar aos 34 anos, era surfista. Nasceu e cresceu bem perto da praia de Copacabana e a ela costumava ir atrás da onda conhecida como “Sorriso”. É um apelido carinhoso usado apenas por aqueles mais íntimos do mar, como Guido era.

A onda, considerada rara, se forma atrás do forte de Copacabana, cresce em tamanho e em velocidade, e vem varrendo a água enquanto sua crista parece sorrir para quem está na praia. Só conseguem domá-la surfistas mais experientes, surfistas de “ondas grandes”, como Guido era.

Guido estava sempre sorrindo quando caía no mar, dizem aqueles que o conheceram. Muito católico, tendo estudado para ser padre, dizia que a história do surfe havia começado com o próprio Jesus Cristo, o primeiro a caminhar sobre a água.

Quando estava na faculdade de medicina, acordava cedo, antes mesmo do sol, para pegar onda nas praias do Rio. Participou e ganhou campeonatos amadores com os colegas da faculdade. Sonhava em ir ao Havaí, conhecer e surfar ondas gigantes de verdade – no Brasil, as maiores raramente passam dos cinco metros.

Esse sonho ele nunca realizou.

Morrer no mar

O sol não estava muito forte, o mar não estava muito agitado, as ondas não estavam muito altas, a água estava azul turquesa e o dia estava perfeito em primeiro de maio de 2009, no Recreio dos Bandeirantes, zona oeste do Rio.

Guido, a menos de dois anos de se tornar padre, fez uma oração na areia antes de cair na água. Estavam com ele Maurício, seu irmão, Dudu, o amigo do irmão que se tornara amigo dele mesmo, e Nicolas, amigo de Dudu.

Com 17 anos, Nicolas era o mais novo do grupo. Guido, com 34, o mais velho. No dia seguinte, o seminarista faria parte da celebração de casamento de Dudu, mesmo ainda não sendo oficialmente sacerdote.

Dudu tinha convidado os amigos mais íntimos para sua despedida de solteiro, um dia inteiro dentro do mar, pegando onda. Tinha emprestado a Guido uma de suas próprias pranchas, uma que trazia escrito um versículo da Bíblia.

As lembranças daquele dia ainda estão muito vivas na memória de Dudu. Ele lembra de ter caído na água e ter se afastado um pouco do grupo, atrás de uma onda. Lembra de ter visto Guido sobre sua prancha, à distância.

E logo depois, apenas a prancha, flutuando sozinha aos caprichos da maré. Mas Guido não estava lá.

Onde estava Guido? (Isso às vezes acontece, ele pensou, às vezes a corda que liga o surfista à prancha arrebenta, se solta... eles se afastam por um momento, mas logo se encontram novamente.)

Dudu lembra de ter nadado o mais rápido que conseguiu em direção aonde imaginava estar o amigo. E lembra de finalmente ter visto suas costas bronzeadas boiando na superfície do mar, viradas para o sol carioca.

Guido se afogara. Uma onda forte, mais tarde eles descobriram, tinha feito a prancha fugir do controle do surfista e acertar em cheio sua nuca. Desacordado, com os pulmões inchados de água, ele foi levado à areia.

Fizeram os primeiros socorros, rezaram muito, tentaram ressuscitá-lo.

Não conseguiram.

“Ele sempre dizia para a mãe que gostaria de morrer no mar”, disse cinco anos depois Dudu, Eduardo Martins, que hoje é engenheiro e mora em São Paulo com a família.

O santo surfista

Guido Schäffer atende ao primeiro critério analisado pelo Vaticano para dar início a um processo de canonização: sua trajetória na Terra criou uma “fama de santidade”. Seu velório de corpo presente foi assistido por uma multidão de cristãos, inspirados pela biografia do seminarista.

Até hoje, na data de seu aniversário, devotos peregrinam ao cemitério onde ele está enterrado para rezar, cantar, pedir e agradecer. Ao redor do túmulo, crescem como ervas daninhas placas informando sobre graças alcançadas.

Em vida, Guido dedicou parte da juventude para cuidar de gente pobre, contam aqueles que o conheceram.

Durante a faculdade de medicina, trabalhava de graça em hospitais cariocas, tratando doentes e desesperados. Uma senhora que fez parte de seu grupo de oração diz que, abordado por mendigos na rua, ele doava suas roupas e calçados, além de “dar conforto à alma” do sofredor.

Ele é descrito como alguém que estava sempre disposto a ouvir sobre seus problemas e a te dizer as palavras certas para te deixar em paz consigo mesmo.

Se você conversar com qualquer uma das centenas de pessoas que o conheceram, vai perceber que há em suas vozes um tom de profunda admiração, quase de reverência, como se elas não estivessem apenas falando de um ser humano que foi muito bom, mas de alguém que veio de outro mundo.

E há, claro, os relatos de milagres.

Uma freira diz que se curou do diabetes graças à intercessão de Guido. Os pais de uma criança dizem que ela se curou de uma fraqueza muscular extrema depois de um apelo a Guido. Uma mulher afirma ter dada à luz um filho saudável de uma gravidez complicada depois de ter uma visão do médico surfista.

A Igreja deve começar no ano que vem o processo de verificação desses milagres. Se de fato eles forem considerados obra da graça divina, sob intercessão de Guido, o processo de beatificação e canonização avança.

É um processo longo, desgastante e pode nunca chegar ao fim. O Brasil tem cerca de 40 candidatos a santo, mas apenas um, o Frei Galvão, conseguiu cumprir todas as etapas, a última em 2007.

Ele é até hoje o único herói da Cristandade nascido no país.