O capitão da seleção brasileira na Copa Davis vem repetidamente batendo em uma tecla específica: a de que a equipe composta por Flávio Saretta, Ricardo Mello, André Sá, Marcos Daniel e Gustavo Kuerten, além do "sparring" Thiago Alves, é unida e está pronta para usar tal característica a seu favor.
Para o duelo diante da Suécia, que começa nesta sexta-feira e vale uma vaga na elite do tênis, da qual o Brasil saiu em 2003, o ex-tenista vem comandando longos treinos em dois períodos com os atletas. Neles, procura sempre deixar explícito um bem-estar coletivo.
Em entrevista exclusiva ao
UOL Esporte, Meligeni falou sobre os motivos que o levaram à contestada convocação de Flávio Saretta, e sobre a igualmente polêmica não-convocação do líder do ranking nacional Thiago Alves. Afirmou que, ao contrário do que dizem os críticos, não existe uma "família Meligeni"
Explicou, ainda, que vê o Brasil oscilante entre a elite e a segunda divisão do tênis nos próximos anos, mas não crê que isso seja um demérito. E deu suas opiniões sobre a relação entre a Confederação Brasileira de Tênis (CBT) e os atletas.
UOL Esporte: Por que Thiago Alves, tenista número 1 do Brasil, não jogará? Fernando Meligeni: Olha, gosto muito do Thiago, mas são momentos de cada jogador. Eu achava que era um momento complicado para estrear na Copa Davis, para jogar para 10 mil pessoas. Ele que não tem tanta experiência com Grand Slam, e jogou um ou dois jogos de cinco sets. Mas não é demérito isso. Eu poderia botar para jogar, mas, na minha visão, para encarar um caldeirão desse, precisa ter mais experiência em ATP Tour para poder jogar.
UOL Esporte: E o que pensa das críticas com relação à convocação de Flávio Saretta? Meligeni: Eu aprendi que coitado foi o [Carlos Alberto] Parreira:[técnico da seleção brasileira de futebol na última Copa do Mundo]. Porque quem eu colocar, está sempre errado. É uma decisão do capitão. Tem que começar a ter um pouco mais de consciência nas críticas. Falar que eu vou pôr o Saretta porque ele é meu amigo? Então eu tenho que colocar o Ricardo [Mello], o Guga, que eu tinha que ter posto contra o Peru e não coloquei. Sou amigo pessoal deles, tenho telefone e saio para jantar com todos eles. Não existe protencionismo na Copa Davis, não existe "Famiília Meligeni".
UOL Esporte: Então qual é o seu critério para essa escolha?Meligeni: O critério é eu achar o cara mais preparado no momento. As pessoas se esquecem que, no Uruguai, quando ele (Saretta) perdeu o primeiro jogo, eu o tirei. Aí falaram que era protencionismo para o Ricardo. Eu não preciso estar na Copa Davis por causa de uma amizade. Tem que ter coerência dentro da crítica. Se a gente perder, desçam o pau em Fernando Meligeni, não nos jogadores.
| Brasil x Suécia |
Brasil Flávio Saretta, Ricardo Mello, André Sá, Gustavo Kuerten Capitão: Fernando Meligeni |
Suécia Andreas Vinciguerra, Robin Soderling, Jonas Bjorkman, Simon Aspelin Capitão: Mats Wilander |
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UOL Esporte: Sendo assim, quais as chances de o Gustavo Kuerten jogar? Meligeni: De 50% - a mesma que ele tinha no começo (dos treinos). Estão falando que a gente chamou o Guga por uma questão de marketing, falando que a gente quer trazer um monte de público. Vai jogar três jogos, fazer os três pontos? Não. Se você olhar, ele não jogou nenhum set de simples (nos treinos), então eu jamais o colocaria. O Guga é carta completamente fora do baralho para jogar simples. Agora, se ele vai jogar duplas? Mais uma vez: não é marketing, nem protecionismo. Se ele for o cara que vai nos ajudar para ganhar aquela dupla, ele vai ser o cara que estará dentro da quadra.
UOL Esporte: Na sua opinião, qual será o papel do Brasil na Copa Davis no futuro? Meligeni: Acho que no momento a gente tem toda a chance de voltar para a elite e ficar alguns anos ganhando jogos, e em outros jogando o playoff. Hoje em dia está muito difícil você se manter em quartas-de-final de Copa Davis todo ano. Grandes países como Suécia e Espanha estão no playoff, que não é demérito para ninguém, diferentemente de outros esportes.
UOL Esporte: Por quê? Meligeni: Às vezes você joga dois jogos fora de casa, em uma superfície que não se adapta, você acaba caindo para a segunda divisão. Se você se mantém cinco anos na segunda divisão, realmente, o seu lugar é lá. Mas muitos países já caíram... Espanha, Austrália, Itália, França... Por isso, o primeiro passo do meu trabalho na Copa Davis é dar experiência a todos esses jogadores, que têm pouca experiência de Davis, apesar de já terem alcançado bons rankings.
UOL Esporte: E qual o segundo passo? Meligeni: O passo dois é da galera mais de baixo, é a renovação real. É preocupante, a gente tem que olhar com mais carinho. Mas o foco não é a Copa Davis. A Davis é a consequência final, como a seleção de futebol. Primeiro você faz a base sólida, depois começa a mexer em toda a estrutura do tênis para chegar com os jogadores em melhores condições para a Copa Davis. Eu vejo isso com esperança, senão não estaria aqui.
| ORDEM DOS JOGOS |
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| 22/09 | Flávio Saretta x Andreas Vinciguerra |
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| 22/09 | Ricardo Mello x Robin Soderling |
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| 23/09 | André Sá/Gustavo Kuerten x Jonas Bjorkman/Simon Aspelin |
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| 24/09 | Flávio Saretta x Robin Soderling |
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| 24/09 | Ricardo Mello x Andreas Vinciguerra |
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TABELA DE JOGOS |
UOL Esporte: Na sua ótica, por que essa experiência em Davis é tão importante? Meligeni: O jogador precisa viver esse tipo de experiência, conviver com essa pressão. Copa Davis é a maior pressão que a gente tem como jogador. As pessoas estranham minhas convocações, os jogadores que eu coloco para jogar, a falta de seguir um ranking o tempo inteiro. Mas, como no futebol, você tem jogadores que demoram um pouco mais para chegar à seleção ou para ser titular. Eu olho com carinho, para colocar para jogar na hora certa. Eu tive uma estréia muito ruim em Davis, e não quero que ninguém saia machucado como eu saí. Por isso as pessoas falam "pô, por que colocou esse cara, não aquele?" porque eu acho, na minha visão - e por isso que fui chamado para ser capitão de Copa Davis - que tem horas que alguns jogadores não estão tão prontos para jogar.
UOL Esporte: Depois de passada a pior parte da crise entre atletas e CBT, como você vê o futuro desta relação?A relação da CBT com os tenistas depende muito mais da CBT do que dos tenistas. Os tenistas brasileiros vão, jogam a Davis, estão dispostos a representar o país, não fazem tremendas exigências. Em alguns países há problemas de conviver com tanto ego. No Brasil, não vejo esse problema. Na época antiga, os tenistas se cansaram de não ser escutados, respeitados, de pedir coisas mínimas e não serem atendidos, mas isso tem mudado. Eu tenho tido muita ajuda nas coisas que eu peço dentro da Copa Davis. Mas tem um caminho muito grande ainda para achar o caminho certo.
UOL Esporte: Como você enxergou a crise e o boicote?Meligeni: Não acho que o Brasil caiu para a segunda divisão por causa da CBT. Caiu para a terceira por causa do boicote, isso claramente. Mas para a segunda perdeu porque perdeu. Agora, quanto mais estrutura, melhor preparados seus jogadores vão estar. Mas claro que a gente sonha com uma CBT fortíssima, não ajudando a Copa Davis, mas sim as categorias de base. Porque esses garotos como o Thiago, que apareceu agora, o André Ghem, estão lutando através do seu esforço, então a gente poderia ter perdido esses meninos por falta de dinheiro.
UOL Esporte: Você pensa em seguir carreira dentro da CBT? Meligeni: Não. Minha função é sempre ajudar o tênis. Odeio esse cargo. Minha função é aí dentro (aponta para a quadra).
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