UOL Esporte UOL Esporte
UOL BUSCA

21/09/2006 - 10h17

Guga joga, e Brasil "pós-boicote" busca volta à elite da Davis

Paulo Luis Santos
Enviado especial do UOL
Em Belo Horizonte
Principal protagonista do boicote dos tenistas brasileiros à Copa Davis em março de 2004, que culminou no descenso do Brasil à terceira divisão do torneio e na queda do então presidente da CBT Nelson Nastás, Gustavo Kuerten vai atuar no confronto que pode recolocar o tênis nacional na elite do torneio. Ele foi confirmado nesta quinta-feira pelo capitão Fernando Meligeni para atuar na partida de duplas deste sábado, ao lado de André Sá, no duelo contra a Suécia.

Divulgação/POA Press
Principal atração em Minas Gerais, Guga é confirmado por Meligeni no jogo de duplas
PERFIL DE GUSTAVO KUERTEN
PÁGINA DA COPA DAVIS
Além de Guga e Sá, os representantes do Brasil serão Flávio Saretta e Ricardo Mello, que disputarão os jogos de simples, na sexta-feira e no domingo. Com a escolha de Meligeni, quem ficou de fora da equipe brasileira foi Marcos Daniel. Atual número 2 do Brasil, ele participou de toda a preparação junto dos quatro escolhidos e de Thiago Alves (nº 1 do país, e que também não jogará), mas foi preterido na escolha final do capitão brasileiro.

Guga e Sá enfrentarão Jonas Bjorkmann e Simon Aspelin, respectivamente números 4 e 17 do mundo no ranking de duplas da ATP, no terceiro jogo do duelo da repescagem da Copa Davis, que vale uma vaga no grupo Mundial, a elite do torneio. O confronto começa nesta sexta-feira, às 10h da manhã, com dois jogos de simples.

"Foi uma grande surpresa eu conseguir estar nessa semana aqui com eles, eu realmente não esperava. E depois foi outra grande surpresa a minha evolução nos treinos para eu participar da dupla", revelou Guga logo após o sorteio dos duelos. "Eu estou confiante, estou otimista".

O confronto começa com os jogos de simples. No primeiro deles, o paulista Flávio Saretta, atual número 124 do mundo, enfrenta Andreas Vinciguerra, número 147, que teve bons resultados no saibro ao longo da temporada. Saretta, que teve sua convocação contestada por que jogou pouco nos últimos meses e alegou problemas de motivação, sentiu uma série de dores ao longo da semana, e recebeu tratamento especial em diversas oportunidades. O paulista disse que são dores normais e suportáveis.

O segundo jogo será entre Ricardo Mello, atual número 138 na ATP, e Robin Soderling, número 35 - melhor ranking entre todos os que jogarão simples. Mello atuou nove vezes pela ATP neste ano, e perdeu sete vezes. Já Soderling obteve 26 vitórias e 17 derrotas na temporada. Seu melhor resultado foi o vice-campeonato em Memphis, quando perdeu para o alemão Tommy Haas.

Após o dia de duplas, os confrontos de simples se invertem no domingo. Saretta volta a entrar em quadra, desta vez contra Soderling. Por fim, Mello e Vinciguerra fecham o duelo entre brasileiros e suecos.

No entanto, os capitães podem alterar os atletas de simples e duplas até uma hora antes dos jogos, desde que as alterações não resultem na repetição de confrontos.

CRONOLOGIA DA CRISE
09/03/2004Guga anuncia que não joga a Davis contra o Paraguai
10/03/2004 Flávio Saretta também decide não jogar a Copa Davis
10/03/2004Oncins pede demissão do cargo de capitão da equipe da Davis
11/03/2004Terceiro melhor brasileiro, Ricardo Mello abandona duelo da Davis
17/03/2004 Nastás cede a pressões e diz que deixa a CBT em maio
23/09/2004 Nastás ressurge com nova promessa de adeus e rebate TCU
09/12/2004 Guga comemora eleição na CBT, mas não confirma volta à Davis
17/12/2004 Catarinense é o novo presidente da CBT
06/03/2005 Brasil faz 5 a 0 na Colômbia e pega Antilhas Holandesas
13/07/2005Meligeni confirma Guga e Mello para duelo com Antilhas
17/07/2005Brasil passa por Antilhas e pega Uruguai
25/09/2005Brasil supera Uruguai e volta à segunda divisão
12/02/2006Mello desencanta, e Brasil vence Peru
09/04/2006Brasil bate Equador e vai à repescagem do grupo Mundial
Guga, principal atração da equipe nacional em Belo Horizonte, fará, assim, seu primeiro jogo oficial em sete meses. A última vez que entrou em quadra foi no dia 21 de fevereiro, quando perdeu na estréia no Aberto do Brasil. Pouco mais de uma semana antes, havia batido, com Sá, a dupla Luis Horna/Ivan Miranda, do Peru, pela Davis.

"Nós estamos muitos felizes com sua participação, que só vai engrandecer o evento. Ele (Guga) é um grande jogador, grande figura e grande pessoa", afirmou Mats Vilander, ex-jogador e atual capitão da equipe sueca.

Crise, queda e ascensão
O duelo contra a Suécia representa a possibilidade de o Brasil concretizar uma volta por cima no tênis nacional. O descontentamento com procedimentos e prioridades da Confederação Brasileira de Tênis levou os principais tenistas do país, encabeçados por Gustavo Kuerten, a promoverem um boicote à Copa Davis em março de 2004.

"As coisas mudaram muito, valeu a pena", avaliou André Sá sobre o boicote. "Foi uma atitude difícil, mas deu muito certo. A gente está muito mais próximo da Confederação, o presidente tem muito mais contato com a gente, e tem vários projetos acontecendo, torneios de níveis mais baixos, como Futures e Challengers. Então com certeza deu certo."

A crise foi de cunho político. Nelson Nastás, então presidente da CBT, era acusado de irregularidades, entre elas apropriação indébita. Como protesto, Guga iniciou o boicote ao confronto contra o Paraguai pela Zona Americana (segunda divisão da Davis) naquele ano, e foi seguido por André Sá e Flávio Saretta.

Sob pressão, Jaime Oncins renunciou ao cargo de capitão da Davis, enquanto outros tenistas, entre eles Ricardo Mello, Francisco Costa e Bruno Soares, também desistiram de participar do confronto contra os paraguaios.

Com tenistas inexperientes e até juvenis, a seleção brasileira acabou caindo para a terceira divisão, acirrando a crise na CBT. A situação de Nastás se tornou insustentável, e ele deixou o cargo no fim de 2004. Em dezembro daquele ano, foram realizadas eleições, e o atual presidente, Jorge Rosa, foi eleito.

Com a queda de Nastás, os melhores tenistas do Brasil voltaram a defender o país na Copa Davis. Com isso, a equipe superou as Antilhas Holandesas e o Uruguai na terceira divisão, subindo para a segunda; nela, superou Peru e Equador, e ganhou a chance de tentar, contra a Suécia, voltar ao primeiro escalão do tênis mundial por equipes.

Veja mais