O poderoso e temível Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) não é o que parece. Retratado no filme Tropa de Elite como uma organização quase perfeita, a unidade tem fragilidades na vida real e recorre a uma saída interessante, através do esporte. Quem é responsável pela missão esporádica de 'acalmar' os oficiais do stress diário da profissão são os atletas do Niterói Rugby, do Rio de Janeiro.
A equipe de Niterói também demonstra interesse em tal parceria. O principal objetivo do time é absorver a mentalidade vencedora e a postura agressiva do Bope para colocá-las em prática durante competições oficiais. Mesmo sem tanta regularidade, os 'caveiras' encaram os treinamentos como uma chance de se desenvolver no rúgbi. Por sua vez, os atletas têm a chance de aprender um pouco mais sobre concentração e disciplina.
A iniciativa de montar uma equipe de rúgbi com policiais surgiu a partir da idéia do próprio Bope. Os treinos, realizados desde o início do ano na Praia do Flamengo, são escassos devido à rotina de trabalho dos oficiais. O treinador do Niterói Rugby, Nei Vasconcelos, elogia os 'alunos', mas lamenta que os encontros sejam irregulares.
"Infelizmente, não há freqüência, porque a disponibilidade dos policiais é reduzida. Mas nos contatos que temos existe uma interação muito boa. Eles aprendem o conceito do jogo de forma rápida, porque são muito concentrados e interessados. Gostaria de ter uma equipe formada por atletas com o nível de comprometimento deles", comenta Vasconcelos.
O treinador espera que a parceria se solidifique ainda mais a partir de 2009. "O Bope nos procurou, porque se identificou com o esporte e adotou o rúgbi como a sua modalidade. É a forma que os policiais encontraram para aliviar a tensão. Os conceitos do jogo são muito parecidos com o cotidiano deles. Eles são unidos, têm espírito de equipe e forte noção de hierarquia", enumera.
O Bope até cogitou formar uma equipe para disputar competições oficiais. Porém, de acordo com Vasconcelos, essa possibilidade é pequena. "Eles têm outras prioridades e estão mais interessados em uma atividade física do que em competição. Além disso, a natureza do trabalho não permite que eles sejam fortes, tenham um biótipo de atleta. A nossa parceria tem o intuito de fazer com que os policias aprendam o esporte", completa o treinador, que também comanda a seleção brasileira sub-23 de rúgbi.
A contrapartida entre policiais e atletas é saudável para ambos os lados, de acordo com Daniel Gregg, atleta e preparador físico do Niterói Rugby. "É uma experiência interessante, porque temos contato com o espírito de disciplina e a concentração deles. O início dos policiais no esporte é diferente do que geralmente acontece, porque eles já têm uma idéia bem definida sobre tática e estratégia, que são detalhes fundamentais no esporte", comenta.
Jogador da seleção brasileira, Gregg afirma que há o interesse de ambos os lados em manter o contato. "Eles demonstram que querem continuar, apesar das dificuldades. É um esporte de combate, muito similar ao que eles vivem diariamente. Os policiais levam o esporte como um jeito de extravasar, mas tudo dentro das regras", lembra.
Iniciativas como a dos 'caveiras' demonstram que, aos poucos, a popularidade da modalidade está aumentando. Segundo Adrien Duarte, que jogou por cinco anos nas seleções brasileiras de base e por três na equipe adulta de rúgbi, o preconceito é deixado de lado a partir do momento em que o esporte é massificado.
"Os valores do rúgbi são universais e junto com a massificação, há o conhecimento mais claro das pessoas sobre os valores do esporte, que são iguais em todas as modalidades. O esporte era focado apenas no Centro-Sul do Brasil e, agora, está se alastrando por todas as regiões do país. Alguns trabalhos isolados em comunidades carentes ajudam a popularizar o esporte", afirma Duarte.
A linha é defendida por Nei Vasconcelos. O treinador aponta que projetos em comunidades carentes podem acabar com o caráter elitizado que o rúgbi ainda possui. "O segredo é atrair crianças de todas as classes sociais. Precisamos de popularidade", indica. O projeto Rugby Para Todos, localizado na favela de Paraisópolis, em São Paulo, é uma das iniciativas que levam a modalidade para comunidades carentes.