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04/11/2009 - 07h01

Torcida e ambiente descontraído marcam maior torneio de pôquer do país

Guga Fakri
Em São Paulo
Ao entrar no salão de um torneio de pôquer profissional, com uma premiação de quase R$ 1 milhão, é difícil imaginar que o que mais chama a atenção é o barulho da torcida. E foi exatamente isso que a reportagem do UOL Esporte encontrou durante a disputa da mesa final do Full Tilt 750K, o maior torneio de pôquer já realizado no Brasil.

O SALÃO DO TORNEIO FULL TILT 750K

  • Amulio Murta/Divulgação

    Atualmente, o pôquer é o segundo esporte que mais cresce no mundo, atrás do MMA (evolução do vale-tudo). A transmissão da WSOP (Série Mundial de Pôquer, o campeonato mundial da modalidade) é a segunda maior audiência da ESPN Internacional, ficando atrás somente do Super Bowl, a final do futebol americano.

  • Amulio Murta/Divulgação

    Cinthia, Marcela, Isabela e Larissa chamaram a atenção de quem acompanhou o Full Tilt 750K

Após quatro dias de competição e mais de 40 horas de jogo, nove jogadores restavam entre os 368 participantes de 20 estados brasileiros que lutaram pelo prêmio de mais de R$ 200 mil reservado ao campeão. Apesar do valor da premiação e do nervosismo inevitável em uma fase final de qualquer tipo de disputa, a torcida e o clima descontraído se destacavam no salão.

A manifestação dos torcedores de pôquer lembra muito a de um jogo de tênis. Durante a disputa da jogada, silêncio, até que se defina a ação final dos jogadores. A partir daí, cada carta virada na mesa é motivo de festa para a torcida do jogador favorecido pelo baralho, e os fãs comemoram como se fosse um gol de seu time do coração.

"Vamos Toninho, vamos ser campeões, vamos Toninho", gritava a torcida do jogador Antonio Pereira, no ritmo da melodia de I can't take my eyes off of you, sucesso lançado por Frankie Valli em 1967. A torcida deu certo e Toninho terminou na terceira posição, o que lhe rendeu um prêmio de R$ 117 mil.

Para Devanir Campos, um dos diretores do torneio, a torcida só melhora o clima da competição. "Torcida é uma parte importante do jogo. É como estádio cheio, eles passam uma energia bacana. A principal regra é que eles só podem se manifestar depois que os jogadores façam sua jogada final, para não correr o risco de influenciarem o resultado da mão. Todos respeitam isso, e nós incentivamos a presença deles", disse Campos.

Os torcedores não podem ficar muito perto da mesa. Para acompanhar a ação, contam com a narração da jogada, feita por um dos diretores do torneio, e um telão com a transmissão ao vivo via internet, para poder ver as cartas abertas na mesa. A transmissão não mostra as cartas dos jogadores antes que eles as abram na mesa.

Um pouco mais distante da área onde ficava a torcida, uma mesa só de jovens mulheres também chamava a atenção de quem entrasse no salão. "Viemos torcer por nossos maridos e namorados. Mas eu fico meio longe porque se ficar do lado dele e ele perder, fala que eu sou 'urubu'", explicou Marcela, casada com um jogador.

Após algum tempo de conversa, elas admitiram que não foi fácil apresentar para a família um namorado profissional de pôquer. "Minha mãe quase me matou", disse Larissa, namorada de um dos diretores do torneio. "Eu estudava o dia inteiro e comecei a trabalhar como dealer [crupiê], à noite. Foi trabalhando com isso que conheci meu namorado, mas minha mãe achava que eu estava fazendo programa", contou ela, arrancando risadas das amigas.

  • "Juruna" posa como campeão do Full Tilt 750K, título que lhe rendeu prêmio de mais de R$ 212 mil

"A gente tem uma imagem de que o ambiente do pôquer é pesado, tudo escuro, com fumaça, e não é nada disso. Muita gente tem preconceito, mas depois que você explica como funciona um torneio, elas entendem. Acompanhamos nossos maridos e namorados em suas carreiras, e fizemos muitas amizades por causa disso", diz Isabela, esposa de Igor "Federal" Trafane, um dos pioneiros e principais jogadores do país.

E ela tem razão quando diz que o ambiente é bem diferente daquele que conhecemos pelos filmes norte-americanos e por histórias de nossos avós. O salão lembra muito uma casa de shows: iluminação sofisticada, cadeiras confortáveis, garçons e profissionais de imprensa indo e vindo, grande presença de mulheres e muita descontração, tanto por parte da torcida quanto por parte dos jogadores, que às vezes nem parecem estar disputando uma premiação tão polpuda.

Do lado de fora da casa, enquanto a reportagem do UOL Esporte conversava com Devanir Campos, o entrevistado foi abordado por um dos jogadores, que fumava um cigarro. "Poxa DC, não dá para colocar os jogadores fumantes em mesas no andar de baixo, para não precisarmos descer e subir escadas para fumar?", perguntou. "Sinto muito, mas não vai dar", respondeu Devanir "DC", com um sorriso no rosto.

Ao voltar para a entrevista, "DC" explicou que o pôquer brasileiro já deixou o amadorismo no passado. "Hoje existe muita disciplina dos jogadores. O público está se educando, e os jogadores são experientes e deixam as manias dos jogos caseiros em sua própria casa. Não tem marinheiro de primeira viagem em um torneio como esses", disse o diretor de torneios.

"Estamos saindo da informalidade. Atualmente, na parte de organização, os torneios brasileiros não devem nada para os disputados na Europa e nos Estados Unidos. A única diferença é na produção e grandiosidade, já que ainda temos restrições por falta de patrocínio", disse "DC".

Para participar do Full Tilt 750K, os 368 inscritos investiram R$ 3 mil, o que gerou uma premiação total de R$ 975.200 divididos entre os 36 jogadores mais bem classificados. O campeão, Francisco "Juruna" Eufrásio, levou R$ 212.550,00 para casa.

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