UOL Esporte Vela
 
02/03/2007 - 09h01

Com Grael afastado, Ferreira "testa" parceiro no Pré-Olímpico

Bruno Doro
No Rio de Janeiro
Aos 41 anos, Marcelo Ferreira é o menos conhecido de uma das parcerias mais vitoriosas do esporte olímpico brasileiro. Ao lado de Torben Grael, ganhou duas medalhas de ouro (Atlanta-1996 e Atenas-2004) e uma de bronze (Sydney-2000) na classe Star da vela em Olimpíadas.

QUASE 20 ANOS DE TÍTULOS
Reuters
Marcelo Ferreira e Torben Grael estão juntos desde 1989 e as conquistas começaram assim que os dois se juntaram. Após a conquista da medalha de bronze nas Olimpíadas de Seul-1988 com Nelson Falcão, Torben passou a competir com Marcelo.

Em 1990, já eram campeões mundiais e em 1994, campeões olímpicos. Em 1997, Marcelo conquistou seu principal título longe do amigo. Com o alemão Alexander Hagen, ele foi Campeão Mundial em Marblehead, nos Estados Unidos. Com isso, ele pode se orgulhar de ter um título mundial a mais do que o parceiro.

Os problemas com o calendário de Torben começaram pouco antes das Olimpíadas de Sydney-2000. Na época, Torben se tornou o primeiro brasileiro a competir na final da America's Cup, por um time italiano, derrotado pelos neozelandeses na decisão.

Nas Olimpíadas, ele e Marcelo chegaram à última regata com chances de ouro, mas não foram bem e terminaram apenas com o bronze. Quatro anos depois, Torben não chegou tão longe na America`s Cup, teve mais tempo para treinar com Ferreira e os dois dominaram a classe em Atenas-2004.

Ano passado, a parceria se estendeu para a volta ao mundo. Comandante do Brasil 1, Torben Grael convocou o parceiro para participar da tripulação.
A partir deste domingo, porém, o bicampeão olímpico começa um projeto afastado do parceiro de quase 20 anos. A parceria com Grael, 46, homem com o maior número de medalhas olímpica da modalidade, ainda não acabou. Ainda. Ao lado de Alan Adler, 42, outro veterano, Marcelo Ferreira disputa a seletiva para a formação da equipe olímpica brasileira em 2007.

"Tinha compromisso com meus patrocinadores e, com o Torben afastado da classe Star por tanto tempo, fiquei muito tempo sem competir. Essa parceria com o Alan tem como objetivo voltar a velejar e fazer alguns campeonatos na Europa, para aparecer. A princípio, o Mundial de Cascais será com o Torben. Mas, a princípio...", ri o velejador. A competição em Cascais a que ele se refere é o Mundial da Isaf (Federação Internacional de Vela), que vai classificar os países em cada classe para a Olimpíada.

O tom de brincadeira da declaração serve apenas para mostrar o lado bem-humorado de Marcelo Ferreira. Pode não ser a primeira vez que o velejador compete com outros parceiros, mas é a primeira vez que ele tem um planejamento a longo prazo com um novo companheiro.

Com Adler, Ferreira pretende disputar, além do Pré-Olímpico de Búzios, o Troféu Princesa Sofia (Palma de Mallorca, na Espanha, entre 1º e 6 de abril) e a Holland Regatta (Medemblik, na Holanda, entre 23 e 27 de maio), além de uma competição nos Estados Unidos, em abril. Embora a justificativa oficial seja treinar, a possibilidade de não embarcar em uma campanha olímpica com Torben Grael para Pequim existe.

O grande vilão na história é a "carreira paralela" do companheiro. Atualmente, Grael é um dos mais solicitados velejadores do mundo. No ano passado, por exemplo, ele disputou a regata de volta ao mundo como comandante do barco brasileiro e, uma semana após o fim da aventura, já estava na Espanha, defendendo um dos times italianos na America's Cup.

Em 2007, o calendário continua lotado. A disputa propriamente dita da America`s Cup (os treinamentos da maioria das equipes começou há mais de dois anos) começa no dia 15 de abril, na Louis Vuitton Cup, que dá ao vencedor o direito de desafiar o campeão da última edição da America's Cup. A disputa, que vale o troféu mais antigo em disputa em qualquer esporte no planeta, começa no dia 23 de julho. É justamente daí que vêm os "a princípio" e risadas de Marcelo. Caso o time de Torben se classifique para a final, ele estará fora do Mundial de Cascais.

Os problemas, porém, não param por aí. Em 2008, uma nova campanha brasileira na regata de volta ao mundo pode tirar Torben das Olimpíadas de Pequim. A largada da Volvo Ocean Race será no final do ano, mas Torben já disse que só aceitaria uma nova campanha caso pudesse se preparar melhor do que na primeira.

Como no ano da largada da última edição do evento, 2005, o Brasil 1, time que comandou, começou a treinar no começo do ano, Torben pleiteia cerca de um ano de preparação para a Volvo. Nesse cenário, não teria como se preparar adequadamente para Pequim-2008. Em entrevista ao UOL Esporte, em 2006, Marcelo Ferreira já tinha dito que "não faria campanha olímpica de qualquer jeito".

O "novo parceiro" de Marcelo pode não ter tantos títulos quanto Torben, mas ainda assim é um dos melhores timoneiros do mundo. Alan Adler, ironicamente um dos diretores do Brasil 1 que pode tirar Grael das Olimpíadas, foi campeão mundial de Star em 1990, ao lado de Nelson Falcão.

Em Búzios, os principais adversários da "nova dupla" serão os atuais líderes do ranking mundial, Robert Scheidt e Bruno Prada, que não poupam elogios ao rival. "Todo mundo fala muito do Torben, mas esquecem do Marcelo. Mas o Marcelo é um dos melhores proeiros do mundo. Tanto que tem um título mundial da Star a mais do que o Torben (veja quadro)", afirma Prada.

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