UOL Esporte Vela
 
06/02/2009 - 15h39

"Em alguns momentos, a vida da tripulação corria risco", diz Grael

Bruno Doro
Em São Paulo
REGATA DE SOBREVIVÊNCIA
VOR
A mais tradicional regata de volta ao mundo virou uma corrida de sobrevivência, tanto para barcos, quanto para velejadores. A Volvo Ocean Race, que está em Qingdao, na China, e na próxima semana larga para o Rio de Janeiro, começou com quatro barcos, três já desistiram de ir competindo até o Brasil e mais um ainda corre o risco de abandonar a etapa.

"Acho que ninguém esperava que os barcos não aguentassem. Quando cheguei em Cingapura, todos falavam que seria uma etapa dura, mas que os barcos iriam chegar. No final, a maioria teve problemas e três nem mesmo chegaram", conta André Fonseca, o Bochecha, tripulante brasileiro do time holandês Delta Lloyd.

Neste sábado será realizada a regata de porto, que conta pontos para a classificação geral. Os quatro barcos que completaram a etapa até agora, Telefônica Azul, Puma, Ericson 4 e Green Dragon, vão velejar. "É claro que seria mais divertido ter oito barcos na raia. Mas os principais competidores seguem aí", analisa Torben Grael (foto).
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O brasileiro Torben Grael, comandante do Ericsson 4, poderia ter tido um desempenho melhor do que o terceiro lugar que o time sueco conquistou na na quarta etapa da Volvo Ocean Race, entre Cingapura e China. Para poupar seu veleiro e, principalmente, evitar riscos para seus velejadores, porém, ele tirou o pé.

No dia em que os espanhóis do Telefônica Azul cruzaram entre as Filipinas e Taiwan, o brasileiro preferiu seguir abrigado na costa de Luzon, a maior das ilhas filipinas. A manobra valeu a vitória aos espanhóis e o brasileiro guiou seu barco ao terceiro lugar. Mas não se arrepende.

"A decisão de deixar Luzon foi muito difícil. Queríamos sair junto com os Telefônica (Azul e Negro). Quando estávamos perto de sair, o Telefônica Negro voltou quebrado. Então decidimos passar a noite em Luzon. São as vidas dessas pessoas e todo o projeto também em jogo. Se destruíssemos o barco nessa etapa estaríamos colocando todo o programa em risco", explica o brasileiro.

Confira a entrevista que o bicampeão olímpico deu ao UOL Esporte, da China.

UOL Esporte: As condições difíceis da última perna surpreenderam? Vocês saíram de Cingapura falando em regata de sobrevivência e foi isso mesmo que aconteceu. Você poupou o barco?
Torben Grael: Sim, nós fizemos uma opção muito clara por poupar o equipamento. As condições eram muito difíceis e em determinados momentos sabíamos que poderíamos colocar até a vida da tripulação em risco. Diante disso, escolhemos velejar de forma conservadora, para garantir que tanto os homens quanto o barco chegassem a Qingdao inteiros para enfrentar a dura perna que temos pela frente agora. Nós sabíamos que seria uma perna complicada, mas é claro que nos surpreendemos um pouco com a dureza das condições que enfrentamos.

UOL: O fato de a maioria dos barcos terem tido problemas mostra que os VO 70, classe adotada na última Volvo, ainda são frágeis? Alguns esperavam menos quebras em relação a 2005/2006, mas o número continua alto.
Grael: É verdade, mas as condições dessa perna foram também muito duras, mais do que as que encontramos na regata passada. Era necessário preservar o equipamento.

UOL: Até agora, só Ericsson 4 e Telefônica Azul venceram pernas oceânicas. Isso é indicio de que são os dois que vão brigar pelo título?
Grael: Não necessariamente. O Puma, apesar de não ter vencido, tem boas colocações e boas performances também. São barcos de mesmo conceito, mas que guardam suas diferenças. Cada um tem seus pontos fortes e fracos, dependendo das condições.

UOL: Em relação a condições de vento, os barcos Ericson são melhores em vento mais forte, os demais são mais rápidos em condições mais leves? Mais ou menos como o que acontecia com os ABNs e o restante da flotilha na regata passada?
Grael: Desta vez tem muito mais igualdade, mas os barcos da Telefônica são os mais orientados para vento fraco.

UOL: Qual foi a importância de ter Horacio Carabelli, velejador e um dos projetistas náuticos mais reconhecidos do Brasil, a bordo?
Grael: A presença dele é fundamental, pois é a pessoa que tem conhecimento técnico para decidir como reparar as possíveis avarias.
Nota da redação: O Ericson 4 sofreu uma avaria no deck na última perna e Carabelli foi o responsável pelo reparo, no meio do mar.

UOL: O que esperar da próxima etapa, até o Rio de Janeiro? Da última vez, vocês passaram pelo Horn como os primeiros brasileiros em regata. Muda o clima? Estão preparando algo diferente para a etapa, que será a mais longa até agora?
Grael: Não há uma preparação específica, mas sim uma preocupação com o excesso de equipamento e mantimentos a bordo para uma perna de quase 40 dias. O clima naturalmente é bem diferente do que tínhamos no Brasil 1, que era uma coisa super especial.

UOL: Chegar ao Rio de Janeiro terá um sabor diferente? A imagem da última chegada ao Rio, quando o Brasil 1 lutava pelo segundo lugar, mas acabou fora do pódio no finalzinho, volta?
Grael: Chegar no Rio de Janeiro, é lógico, é especial. Da última vez tivemos muitos problemas próximo à chegada. Esperamos dessa vez contar com um pouco mais de sorte.
Nota da redação: Em 2006, na chegada ao Rio de Janeiro, o Brasil lutava pelo segundo lugar, mas uma manobra errada na Baía de Guanabara fez com que o barco caísse para a quarta posição.

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