Na mais simbólica das etapas da Volvo Ocean Race, o brasileiro Torben Grael acabou superado pelo "irmão mais novo". Nesta quinta-feira, o Ericsson 4, comandado bicampeão olímpico, terminou a quinta etapa da Volvo Ocean Race em segundo lugar, 40 dias depois de largar de Qingdao, na China.
Antes dele, o Ericsson 3, barco irmão do usado pelo brasileiro e tripulado por velejadores mais jovens, menos experientes e com menos chances de vitória na competição, foi o primeiro a chegar ao Rio de Janeiro. Em sua segunda participação integral em uma regata de volta ao mundo, pela segunda vez Grael desembarca no Rio de Janeiro sabendo que poderia ter tido uma performance melhor.
Há quatro anos, quando comandava o barco brasileiro Brasil 1, ele era um dos favoritos para um lugar no pódio. A competição, na época, era dominada pelo ABN Amro 1, que foi o campeão com antecedência, mas o Brasil 1 lutou, até as últimas manobras, pelo terceiro lugar. Problemas na chegada, porém, fizeram o barco brasileiro perder um lugar no pódio, chegando em casa apenas no quarto lugar.
Nesta edição da Volvo, a decepção não foi tão grande. Com o segundo lugar, o time de Grael aumenta ainda mais sua vantagem na liderança geral da competição, agora com 63,5 pontos - a diferença deve der de 10,5 pontos quando o vice-líder, o norte-americano Puma, cruzar a linha de chegada em terceiro lugar. O barco é esperado na madrugada de quinta para sexta-feira na Marina da Glória, no centro do Rio.
O segundo lugar é resultado de uma regata conservadora de Torben. Quando o Ericsson 3 decidiu adotar a estratégia que valeu a vitória, velejar para o norte após o paralelo 36 Sul, Torben e seu navegador, Jules Salter, foram tentados pela idéia. Os modelos meteorológicos disponíveis apontavam que, pelo norte, o caminho seria mais rápido. Torben, porém, preferiu não arriscar e seguiu a máxima de quem veleja ao redor do planeta, que prega que navegar ao sul é sempre melhor.
A decisão do E4 foi a mesma do restante da flotilha, que seguiu rumo ao sul enquanto o E3 "subia". Dias depois, os demais veleiros perceberam que a decisão do time sueco tinha dado certo - mas não havia mais tempo de recuperar o tempo perdido. Com os demais barcos atrás, Torben passou, então, a perseguir os "irmãos mais novos". Passou pelo portão de pontuação do Cabo Horn em segundo lugar e, ao subir o litoral brasileiro, chegou a sonhar com a vitória.
A vantagem do líder, que chegou a ser de 200 milhas náuticas (cerca de 300 km), caiu, nos últimos dias da etapa, a menos de 70. Mas, a dois dias da chegada, o Ericsson 3 foi o primeiro barco a deixar uma zona de ventos fracos, voltou a abrir na liderança e chegou ao Rio em primeiro lugar.
Restou a Torben lutar com o Puma, para garantir o segundo lugar. No último dia de competição, o E4 ainda usou o "Stealth Play", um artifício que a organização permite aos veleiros que os deixa por 24 horas fora do radar de seus concorrentes. Por 24 horas, os demais barcos não receberam nenhuma informação de posicionamento ou performance do barco de Torben. "No escuro", eles se aproximaram da Baía de Guanabara e fecharam a perna, de mais de 18 mil quilômetros, dez horas atrás dos companheiros de equipe.