Torben Grael já é o maior atleta olímpico brasileiro, dono do maior número de medalhas da vela na histórica olímpica e, desde segunda-feira, campeão da Volvo Ocean Race, a mais tradicional regata de volta ao mundo. Um dia após assegurar a conquista, Grael já sabe qual o próximo objetivo.
Para completar a "tríplice coroa" da vela mundial, ele ainda tem um desafio gigantesco para superar: a America's Cup. A competição é considerada a mais difícil da modalidade, disputada em sistema de match race (em que um barco enfrenta o outro, em "matchs" individuais) e com equipes participantes bilionárias.
"Acho que a questão não é o que ainda falta conquistar. Porque eu faço pelo prazer e não pelos resultados ou pelos títulos. Mas é lógico que ainda tenho objetivos. Adoraria ser campeão da America's Cup", afirma o velejador de 48 anos.
Empresários brasileiros sonham em um time verde-amarelo, mas o bicampeão olímpico considera o sonho distante. "É possível, mas para fazer America's Cup, é preciso ter uma campanha com boas condições. Fazer um planejamento muito bem feito. Nós temos condições, mas tudo tem de ser feito com muita antecipação".
A campanha vitoriosa na regata de volta ao mundo em 2009 veio após sua estreia como comandante na competição, na edição 2004/2005 da Volvo. Na época, ele comandou o Brasil 1, barco construído em São Paulo e com tripulação majoritariamente brasileira. O time terminou em terceiro lugar.
Desta vez, Torben embarcou em um projeto bem diferente. Ele foi o comandante do Ericsson 4 e comandou a tripulação internacional do time sueco - a equipe também tinha uma tripulação formada por jovens velejadores nórdicos.
"A grande diferença entre as duas campanhas foi o tempo. Na regata passada, sentimos muita falta disso com o Brasil 1. Se tivéssemos tido o tempo que tivemos para nos preparar para essa regata, as coisas poderiam ter sido diferentes", compara o comandante.
Confira a entrevista exclusiva do
UOL Esporte com o comandante do Ericsson 4, campeão da Volvo Ocean Race.
UOL Esporte: Desde a última etapa, você só precisava completar as etapas finais da Volvo Ocean Race para ser campeão, mas matematicamente, o título só foi confirmado agora. Quando foi que você percebeu que o título estava assegurado?Torben Grael: Só quando cruzei a linha. O que aconteceu com o Telefonica Azul mostrou que, mesmo só precisando completar as etapas, alguma coisa podia dar errado a qualquer momento. Eles estiveram a um passo de afundar (ao bater em pedras no início da última etapa da Volvo). Sabíamos que podíamos ficar pelo caminho.
Agora, porém, você já está comemorando. Já sabe qual o próximo objetivo?Eu evito pensar no que vem depois porque isso pode influenciar no que você está fazendo agora. Ainda temos alguns dias até o final da regata (a Volvo termina em São Petersburgo, na Rússia) e depois eu vou para casa, curtir a família e ver as oportunidades que estão na mesa.
Com o título, os convites já começaram a aumentar?Com a regata se aproximando do final, eu já comecei a receber algumas propostas. São competições que estão próximas e precisam de uma definição um pouco mais rápida. Mas eu não tenho nada certo.
| GRAEL: IMPASSE NA AMERICA'S CUP É FALHA NA ORGANIZAÇÃO |
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A America's Cup, sonho de Torben Grael, está envolta em polêmicas. A próxima edição ainda não tem data definida, já que os times Alinghi e Oracle brigam na justiça para definir o formato da competição. Para Grael, o grande culpado por isso são as regras da competição, que dão ao defensor da Copa direitos quase ilimitados sobre a forma de disputa do título.
"Esse impasse é ruim para a America's Cup e para a vela de um modo geral. Já era tempo da organização ser um órgão independente (hoje, a organização é do campeão). Mas isso só vai acontecer quando alguém tiver os colhões para fazer isso. Porque o formato atual favorece muito quem defende o título". |
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A America's Cup é o grande título que falta?Eu adoraria ser campeão da America's Cup, mas eu não faço isso pelos títulos, mas pelo prazer.
E America's Cup em um time brasileiro? Isso é uma possibilidade?É possível, mas para fazer America's Cup, é preciso ter uma campanha com boas condições. Para isso, é preciso fazer um planejamento muito bem feito e fazer as coisas com calma. Nós temos condições, mas tudo tem de ser feito com muita antecipação.
É mais fácil, então, ter um novo time para dar a volta ao mundo?Também é uma possibilidade, mas, para isso, temos de pensar que já não será a primeira vez (que o Brasil vai competir). Com o Brasil 1, terminamos em terceiro lugar e o projeto foi um sucesso. Se fizermos um novo projeto, e novamente chegarmos em terceiro lugar, já não será um resultado bom, já que é a segunda vez e não evoluímos.
O Ericsson 4 dominou a competição, vencendo 5 das nove pernas oceânicas. Qual é o segredo para dominar a competição assim?O tempo de preparação foi fundamental, algo que não tivemos na regata passada. E isso nos deu a condição de, desde o começo, andar na frente. Vencemos as duas primeiras regatas, batemos o recorde de 24 horas (de singradura, maior distância percorrida em um dia por um barco) e colocamos uma boa vantagem. Com isso, já pudemos administrar a liderança e velejar com mais calma. Além disso, as duas vitórias tiveram um impacto nos adversários e isso também ajudou.
O time Ericsson está sendo montado desde 2005, mas você só chegou ao time um ano antes da largada, quando a tripulação já estava montada. Foi difícil montar sua equipe em um grupo de pessoas já fechado?Foi bem difícil. No barco, eram duas culturas completamente diferentes. Em alguns momentos, algumas atitudes incomodam. Mas cada cultura tem seus pontos positivos e seus aspectos que não são tão bons assim e o segredo é separar as coisas boas disso tudo.
Qual a receita, então, para uma boa tripulação?Balancear. Você precisar dos dois lados. Não adianta ter só pessoas tecnicamente muito boas, mas que não conseguem se relacionar. Em competições longas assim, você precisa entender que nem todo mundo vai estar bem a todo tempo. O que você precisa é saber quando alguém está em um momento ruim e tentar fazer com que esse momento ruim não se espalhe.
Você teve brigas com alguém da tripulação?Não foram brigas. Mas tivemos momentos difíceis. Assim como tivemos momentos muito bons.
Você voltaria a velejar com os mesmos tripulantes?Com a maioria deles. Mas uma coisa que me deixa muito orgulhoso é que chegamos ao final da competição sem nenhuma troca de tripulante. Fomos a única equipe que fez isso.
*O jornalista Bruno Doro viaja à Suécia a convite da organização