UOL Esporte Vela
 
22/06/2009 - 07h05

Única mulher a competir na 'nova Volvo' diz que tripulação feminina é impossível

Bruno Doro
Em Estocolmo (Suécia)
A edição 2008/2009 da Volvo Ocean Race, que termina neste fim de semana na Rússia, é a primeira nos 35 anos de história da competição que não teve nenhuma mulher competindo. E, na opinião da última mulher a velejar na regata de volta ao mundo, o retorno feminino é pouco provável.

A "INTRUSA" NA VOLVO OCEAN RACE
Divulgação
Única mulher a competir na Volvo Ocean Race desde a introdução do novo barco, Adrienne Cahalan velejou a primeira etapa da regata de volta ao mundo de 2005 ao lado do campeão de 2009, Torben Grael. Após a perna entre Espanha e África do Sul, porém, Torben fez mudanças na tripulação, trocando Cahalan pelo holandês Marcel van Triest.

Como foi representar o time brasileiro na última Volvo?
Eu gostei muito de ter trabalhado com o time brasileiro. Como australiana, acho que temos muitas coisas em comum. Fiquei bastante desapontada por não poder terminar a volta ao mundo, depois de todo o trabalho que tive antes da largada.

Você teve problemas com Torben?
Não gosto de falar sobre a experiência de velejar com o Torben. O que aconteceu foi há muito tempo. Ele não é a pessoa mais fácil do mundo para se velejar, mas ninguém duvida que ele é um velejador muito talentoso.

Você teve convites para disputar essa Volvo?
Eu tive a chance de velejar a quinta perna, mas tive de rejeitar o convite. Estou grávida e meu segundo filho nasce em julho. Mas fiz trabalhos de meteorologia para a organização.
Para Adrienne Cahalan, navegadora do time brasileiro na primeira etapa da Volvo 2005/2006, a força física que os novos barcos usados na competição exigem torna a presença feminina cada vez mais distante. Em 2005, a regata passou a usar os barcos Volvo Open 70, uma nova classe de veleiros, com velas gigantes e quilha móvel. E foi justamente essa mudança que tornou a regata exclusivamente masculina.

"Seria muito difícil ter um grupo de 12 velejadoras que tivessem a combinação de talento com a força física necessária para ser competitivas dentro de um barco como esse. Principalmente porque o número de meninas velejando no mundo não é grande o suficiente para se encontrar alguém com essas características. As mulheres não são fortes para todo o esforço necessário em um barco tão potente. Temos a resistência e o talento necessários, mas não a força física exigida", explica a australiana.

Com duas regatas de volta ao mundo no currículo, o brasileiro Horácio Carabelli concorda com a australiana. Os dois foram companheiros no Brasil 1, em 2005, e Carabelli acaba de conquistar o título da regata 2008/2009, com o Ericsson 4.

"Uma tripulação 100% feminina seria difícil, já que os barcos exigem muita força física. É possível, claro, mas elas chegariam uma semana depois dos homens. A força física é o que dá aqueles 2 nós a mais necessários para vencer e, para as mulheres, esse detalhe faria falta", afirma o velejador.

O grande vilão para as mulheres voltarem à prova é o peso das velas. Um barco de competição carrega várias velas em uma etapa, que podem pesar, quando molhadas, mais de 1000 quilos. Para melhorar a performance, essas velas precisam ser movidas pelo barco, para adequar o centro de gravidade ao ângulo que o barco veleja - essa ação é chamada, pelos velejadores, de "stacking". Mudar as velas de lado, por exemplo, representa ganho de velocidade.

"Todo o peso das velas exige muito dos velejadores e as mulheres, pelo menos nesse aspecto, são limitadas. Claro que uma equipe só de mulheres pode completar a volta ao mundo sem nenhum problema. Mas alcançar os primeiros lugares seria improvável", analisa Cahalan.

Na opinião da australiana, as mulheres podem voltar à competição, mas em tripulações mistas. "Acho que o único jeito de aumentar a participação é tornar obrigatório ter uma velejadora em cada tripulação. É o mesmo que fizeram com a regra o velejador com menos de 30 anos nessa edição (todo time é obrigado a ter um velejador mais jovem em seu time). Se isso não acontecer, a opção de ter um homem para ajudar será muito atrativa para os times escolherem uma mulher para a tripulação", diz.

Mudanças à vista

Para tentar aumentar a presença feminina, a partir da próxima edição, marcada para 2011, a organização pretende adotar novas regras, que tornariam os barcos menos "pesados". O número de velas que poderiam ficar dentro de cada barco, por exemplo, cairia em 40 % e elas só poderiam ser guardadas no centro do barco - o que diminuiria a troca de posição e a necessidade de pessoas fortes para carregá-las. Além disso, toda tripulação feminina teria direito a 12 tripulantes a bordo, incluindo dois homens.

Essas mudanças se encaixam na análise de Adrienne sobre as funções que uma mulher poderia exercer atualmente no barco. "Uma mulher poderia ser navegadora, timoneira, talvez reguladora de velas. Mas com os proeiros, você precisa de força bruta, de gigantes que conseguem levantar as velas, que são incrivelmente pesadas. Então, para essas posições você precisaria de um homem, ou de mulheres muito, muito fortes. Você até pode ter uma ou duas mulheres em cada tripulação, mas não mais do que isso, porque é preciso de muita força para fazer todas as tarefas do barco", completa a australiana.

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