Na casa de Martine, 18, vela é assunto do café da manhã. Aos quatro anos, ela subiu no barco pela primeira vez. E não parou.
Jorge Renato do Amaral teve a mesma chance apenas aos 13 anos, quando foi procurar um emprego de verão em Búzios, no Rio. Apaixonou-se pelo windsurfe. Pobre, não tinha condições de comprar equipamentos. Mas não desistiu.
Duas histórias discrepantes com um elo comum. Os velejadores são herdeiros de dois dos maiores nomes do esporte nacional. E, a partir desta quinta, representam o país no Mundial de Vela da Juventude.
Martine Grael é filha de Torben, dois ouros, uma prata e dois bronzes em Olimpíadas.
Renato, 18, é pupilo de Ricardo Winick, o Bimba, campeão mundial na classe RS:X.
"Se não fosse por ele, eu não teria nem material para treinar", afirma Renato.
Quando chegou a Búzios, aos 13, ele se encantou pela prancha a vela. Convenceu os pais a deixar o interior do Rio e serem caseiros do presidente do clube local. Entrou no projeto social de Bimba e, aos 16, passou a se dedicar à classe RS:X.
Todo o material que Renato utiliza para treinar e competir é fruto de doações feitas para a escolinha mantida por Bimba.
"Com certeza, ele é uma revelação. É muito sério e dedicado aos treinos. Toda essa seriedade pode levá-lo bem longe no esporte", afirma o mentor.
Renato já viajou diversas vezes para fora do país e acumula feitos. O maior deles, acredita o atleta, foi o sétimo lugar no último Mundial juvenil de 2008, realizado na Dinamarca.
"Outro dia, estava fazendo meu currículo e nem acreditei na quantidade de coisas que tinha para colocar", conta ele.
Martine teve mais facilidade para praticar o esporte. Ela correu suas primeiras regatas aos 11 anos, mas desde pequena gostava de assistir ao desempenho do pai e de amigos no mar.
"Vela sempre fez parte da nossa família. Isso acabou me influenciando, sim. Meu pai também me apoia bastante. Ele é um ídolo para mim. Espero conseguir um dia fazer um décimo do que ele fez", afirma.
O sobrenome, no entanto, não foi sinônimo só de facilidade na carreira da bicampeã brasileira na classe 420 e quarta colocada no Mundial juvenil.
"Pode até ajudar na hora de conseguir alguma coisa, mas também traz muita pressão. Todo mundo me cobra resultados porque sou filha do Torben. Tenho de aprender a lidar com isso", afirma a velejadora.
Mesmo tendo trajetórias tão diferentes, Martine e Renato se encontram na mesma encruzilhada às vésperas do Mundial, que vai até 18 de julho na praia dos Ossos, em Búzios.
Um bom resultado na competição pode ajudar a definir o futuro de suas carreiras.
"Hoje em dia é muito difícil viver como atleta no Brasil. Não tenho patrocínio. Meu plano é me formar [quer cursar engenharia ambiental] e tentar continuar a velejar", diz Martine.
Renato pensava em viver da vela quando entrou na escolinha de Bimba. Descobriu as agruras da carreira nas conversas com o campeão mundial.
"É o esporte que eu amo, mas é muito caro. Já era difícil arranjar patrocínio sem a crise, agora, então...", afirma ele.
"Se eu for bem no Mundial e conseguir uma ajuda, vou continuar. Se não, vou pensar em fazer uma faculdade [de administração] e arranjar uma profissão. Já tenho 18 anos", completa o esportista.
RecordeA competição, que começa amanhã em Búzios, terá 60 países, 283 velejadores, 208 embarcações e 97 técnicos e chefes de delegações. Este será o evento com maior número de participantes da história dos Mundiais.
A competição, organizada pela federação internacional da modalidade, também faz sua estreia na América do Sul como o maior campeonato internacional de vela já realizado no Brasil.