"Recorde impossível" de Roger Bannister na milha completa 60 anos

Fernando Duarte

Do UOL, em Londres

  • Arquivo/AP Photo

    Roger Bannister tornou-se o primeiro ser humano a correr uma milha em menos de quatro minutos

    Roger Bannister tornou-se o primeiro ser humano a correr uma milha em menos de quatro minutos

Numa Inglaterra salpicada de templos esportivos, Iffley Road, o acanhado estádio para 500 pessoas em Oxford, passaria despercebido por uma legião de desavisados, quiçá mesmo os estudantes da Universidade de Oxford que jogam suas peladas e torneios no gramado. Mas foi na pista de atletismo de Iffley Road que há 60 anos o mundo do esporte foi sacudido por um estudante de medicina: lá, Roger Bannister tornou-se o primeiro ser humano a correr uma milha em menos de quatro minutos.

Num esporte hoje dominado pelas marcas de velocistas como Usain Bolt, o feito de Bannister acabou ficando erroneamente ofuscado. Durante décadas especialistas ao redor do mundo disseram que a marca na milha, a prova "prima" dos 1.500m, era impossível de ser batida por conta das limitações do corpo humano. O  fato de que em 1954 a marca de 4m01s há nove anos era o mais próximo que alguém tinha conseguido parecia comprovar as teorias.

Alguém apenas esqueceu de avisar Bannister. Humilhado ao voltar das Olimpíadas de Helsinque de mãos abanando nos 1.500m, o britânico tornou a quebra da marca uma obsessão. Mesmo sem ter muito tempo para treinar por causa dos estudos em medicina, Bannister literalmente correu em busca do tempo em todas as oportunidades possíveis enquanto rivais também se aproximavam perigosamente.

"Atletas há anos estavam fascinados pela marca. Ela tinha um apelo diferente por exigir uma simetria nas voltas pela pista. O desafio tinha cativado a imaginação do público. Como estudante de medicina eu não acreditava que o limite tinha sido atingido. Se tinha gente correndo em 4.01 alguém poderia baixar. Bastava que tudo estivesse certo no dia em que o corredor acreditasse em si mesmo", afirmou Bannister, hoje com 85 anos, numa entrevista à BBC para celebrar o 60o aniversário.

Foi sob pressão que em 6 de maio de 1954 Bannister alinhou na largada em Iffley Road, numa tarde em que ventos de 40km/h por algumas vezes o fizeram pensar em desistir da tentativa. Numa pista arenosa, bem diferente da borracha sintética dos dias de hoje, o britânico contou com a colaboração de dois colegas de atletismo para servir de "coelhos".

Quando Bannister cruzou a linha de chegada, a multidão de 3 mil pessoas que abarrotou a pista sequer deixou o locutor oficial anunciar o tempo inteiro – bastou ele dizer a primeira parte da marca de 3m59s4 – centésimos ainda não faziam parte da cronometragem. Exausto, Bannister precisou ser carregado após cruzar a linha de chegada. Seu status de herói foi instantâneo numa Inglaterra ainda em esforços de reconstrução pós-Segunda Guerra e não demorou muito para que as condecorações surgissem: em 1955, Bannister recebeu a medalha de Comandante do Império Britânico, e vinte anos depois foi transformado em "Sir Roger" pela rainha Elizabeth II – curiosamente por serviços prestados como primeiro dirigente do Conselho Esportivo, agência governamental de promoção do esporte.

A ironia é que quando recebeu a medalha, Bannister já não era mais o recordista: seu recorde durou apenas 46 dias. Desde então, a marca já caiu quase 17 minutos e tampouco parece despertar o interesse dos atletas modernos – o recorde atual, 3m43s13, em poder do marroquino Hicham El , já aposentado, foi estabelecido em 1999. Mesmo assim, a façanha de Bannister virou livros e filmes.

No entanto, o britânico continuou cultuado ao redor do mundo, apesar de ter dedicado muito mais tempo à medicina. Bannister, no entanto, usou seu prestígio para cobrar das autoridades maiores esforços no combate ao doping.

O ex-atleta, que sofre do Mal de Parksinson, até hoje vive em Oxford. A uma curta distância do estádio cuja pista foi rebatizada com seu nome. Há apenas uma discreta placa azul para celebrar. Esta semana, porém, Iffley Road foi um point concorrido.

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