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O dilema de uma campeã mundial e paralímpica: escolher um dia para morrer

Francois Nel/Getty Images
Marieke Vervoort comemora vitória no Mundial de Atletismo Paraolímpico de 2015, em Doha Imagem: Francois Nel/Getty Images

Thiago Rocha

Do UOL, em São Paulo

26/01/2018 04h00

O ímpeto de não se render às limitações físicas provocadas por uma doença degenerativa, descoberta ainda aos 14 anos, transformou Marieke Vervoort em atleta paraolímpica vencedora. Mas nem adversárias nem resultados abaixo do planejado foram capazes de derrotar mais a belga do que a própria vida dela.

Aos 38 anos, combalida pelas dores e pela saúde frágil, Marieke desistiu de seguir vivendo e está próxima de tomar a decisão mais extrema possível a um ser humano: escolher a data em que quer morrer. Desde 2008, o governo da Bélgica concedeu a ela o direito à eutanásia – permissão legal para alguém com doença incurável obter uma morte rápida e indolor. O método é proibido em vários países, entre eles o Brasil.

Ela está internada desde novembro em um hospital de Diest, a terra-natal da ex-atleta, na companhia de familiares e amigos, que se revezam no quarto, e o apoio da cadela Zen, adestrada para ajudá-la caso sofra ataques epiléticos. O nome é uma homenagem ao budismo, que a ensinou a meditar e ter força espiritual para encarar as dores físicas.

Se as limitações abalam o humor, a opção pela morte tira o sono de Marieke Vervoort, embora acredite ser uma decisão inevitável. “Não estou assustada. Para mim, morrer é como ir dormir e não acordar nunca mais. Dormir e não voltar a sentir dor nunca mais. A única coisa que me inquieta é marcar a data. Escolher o dia em que quero morrer é muito difícil”, confessou ao jornal espanhol “El País”.

Embora tenha autorização para dar cabo ao sofrimento há dez anos, Marieke deixou a eutanásia como a última alternativa. Cadeirante desde 2000, quando a atrofia muscular aliou-se a uma tetraplegia, a belga optou por praticar esportes adaptados até quando fosse possível. Começou no basquete em cadeira de rodas, mas foi no para-triatlo que atingiu a elite e conquistou dois títulos mundiais, em 2006 e 2007.

Reprodução/Facebook
Marieke e a cadela Zen Imagem: Reprodução/Facebook

Conciliar as três práticas que compõem o triatlo (natação, ciclismo e corrida), no entanto, ficou inviável. Vervoort, então, migrou para o atletismo, em 2011, e ganhou projeção rapidamente. Em sua primeira participação em Jogos Paraolímpicos, em Londres-2012, conquistou a medalha de ouro nos 100m e a prata nos 200m rasos da categoria T52 (tetraplégicos). Três anos depois, em Doha, sagrou-se campeã mundial nos 100m, 200m e 400m rasos.

Os Jogos do Rio de Janeiro, em setembro de 2016, seriam a última competição da carreira de Marieke Vervoort. Foi neste período que a informação sobre poder escolher quando irá morrer se tornou pública.

"Com a minha história, quero inspirar os países a tentar deixar as pessoas mais felizes. Acho que ocorreriam menos suicídios se a eutanásia fosse permitida. Com a eutanásia, deixei de pensar em suicídio. Não é assassinato, é algo positivo. Ajuda a pessoa a viver por mais tempo", explicou na ocasião.

Marieke despediu-se do esporte paraolímpico com duas medalhas no Rio: a prata nos 400m e o bronze nos 200m rasos.

Desde o fim da trajetória como atleta, a situação médica da belga entrou em progressiva piora. Em casa, recebia o auxílio de três enfermeiras. “Não é fácil depender dos outros”, disse. Para ter uma condição melhor de assistência enquanto não toma uma decisão, Marieke resolveu se internar. ”Não quero mais sofrer. Está muito difícil para mim agora e estou cada vez mais deprimida. Choro muito. Até a minha visão está desaparecendo.”

A aura do quarto 208 do Hospital de Diest transita entre a alegria de receber visitas, ganhar carinho e relembrar histórias, e a angústia de decidir quando será o último dia em que Marieke Vervoort estará viva. “Eu disse à minha mãe que quero esperar até depois do aniversário dela, em 27 de fevereiro. Ela falou que devo decidir sem pensar nisso. Que eu não devo sofrer.”

Entre o dilema e o sofrimento, a ex-atleta vive enquanto pode. Ou até quando suportar viver.

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