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Após fracasso olímpico, Hortência evita falar de Iziane e não garante permanência de técnico

Hortência minimizou as críticas e disse que seu trabalho trará frutos a longo prazo - Nelson Almeida/Fotocom
Hortência minimizou as críticas e disse que seu trabalho trará frutos a longo prazo Imagem: Nelson Almeida/Fotocom

Daniel Neves

Do UOL, em São Paulo

17/08/2012 06h00

O resultado ruim na Olimpíada de Londres não abala a confiança de Hortência no comando da seleção feminina de basquete. Sem resultados expressivos em seu primeiro ciclo olímpico como dirigente, a ex-jogadora se defende das críticas, cita a carência de boas jogadoras na geração atual e ressalta a realização de um trabalho voltado a colher frutos a longo prazo.

         OPINIÃO DE FÁBIO BALASSIANO

  • Está claro que Hortência chama o presidente Carlos Nunes para participar mais do basquete feminino deste país. Acho que até ela deve ter se cansado da ausência de Carlos Nunes...

    Respeito demais Hortência e seu passado como atleta, mas ela avaliar que faz um trabalho bom na frente das seleções femininas porque classifica todas as categorias de base para Mundial ou porque se dá estrutura é estranho. Leia mais

Em entrevista ao UOL Esporte, Hortência se desviou das perguntas sobre o corte de Iziane, mas não escondeu sua decepção com o caso. A dirigente ainda admitiu que o técnico Luís Cláudio Tarallo não tem seu cargo garantido para o próximo ciclo olímpico, podendo ter o mesmo destino dos outros três técnicos que já trabalharam com ela. Confira como foi a entrevista com a diretora das seleções femininas:

UOL Esporte: Duas semanas após a eliminação olímpica, já foi possível fazer uma avaliação do desempenho da seleção feminina em Londres?
Hortência:
Não há como negar que o time não foi bem. O Brasil jogou aquilo que era possível com essas jogadoras, não podemos fazer comparações com as principais equipes. Poderíamos ter ganhado do Canadá? Poderíamos, mas temos que ver que elas também estão investindo.

Precisamos entender que hoje vivemos uma geração diferente daquela de quase 20 anos atrás. Existe uma lacuna de atletas com 25, 28 anos. Estamos realizando um trabalho de longo prazo, para termos mais quantidade e qualidade. Não se faz uma boa jogadora do dia para a noite.

O Tarallo está confirmado para o próximo ciclo olímpico ou terá o trabalho reavaliado?
Eu gosto do trabalho do Tarallo. Treinador é igual aos atletas, precisa evoluir, pegar experiência. Todo treinador novo, em algum momento, tem que participar de sua primeira Olimpíada, seu primeiro Mundial. Tenho certeza de que em 2016 ele estará muito melhor.

Mas eu não sou presidente da Confederação. Teremos reuniões a partir do dia 21 para discutirmos o trabalho realizado e planejarmos o que vai acontecer nas próximas temporadas. Será o presidente [Carlos Nunes] quem determinará a permanência ou não do treinador na equipe principal.

Seleção feminina de basquete
Seleção feminina de basquete
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Você vai completar quatro anos à frente das seleções femininas e tem recebido muitas críticas devido aos resultados do time adulto, que fracassou nas principais competições. Como você avalia seu trabalho como dirigente?
É complicado fazer uma auto-avaliação. Mas posso falar que conseguimos classificar as nossas seleções para todas as competições possíveis, em todos os níveis. Subimos no pódio no Mundial sub-19 e ainda revelamos a Damiris, eleita a melhor jogadora do mundo na categoria.

Quando eu jogava, recebia muitas críticas também. O importante é você saber que seu trabalho está sendo bem feito. E isso eu estou fazendo. Dou toda a estrutura que essas meninas precisam, mas não dá para fazer uma jogadora em tempo recorde. A força de um esporte é sua base e estamos investindo muito nisso.

Você citou a ênfase no trabalho de longo prazo e a formação de novas atletas. O objetivo é realizar uma grande renovação na equipe para 2016?
Temos que renovar com calma, pois ano que vem temos a Copa América. Não podemos colocar apenas atletas de 18 anos para jogar e não classificarmos para o Mundial. Senti na pele essa renovação e demoramos 18 anos para sermos campeãs mundiais. Hoje nossa média de idade é de quase 30 anos. Eu fui campeã com 35. Não podemos pular etapas.

Antes da Olimpíada você falou sobre a possibilidade de naturalizar uma armadora estrangeira. Com a aposentadoria da Adrianinha, esse processo será acelerado?
Se aparecer uma jogadora que se encaixa ao nosso estilo, não vejo porque não naturalizar. Mas não vamos naturalizar qualquer uma. Estamos acompanhando tudo o que está acontecendo e vamos avaliar a capacidade das jogadoras, que não precisam necessariamente jogar na LBF. Aí decidiremos se vamos trazer uma estrangeira ou não.

O corte da Iziane foi um dos momentos mais marcantes da trajetória da seleção feminina nestas Olimpíadas. Você ficou decepcionada com o que aconteceu? Ela voltará a ser convocada?
Já falei muito deste assunto, que está encerrado para mim. Não quero mais falar sobre isso. Nunca mais [ser convocada] é muito tempo e não sou presidente da CBB. Acabamos de chegar e ainda teremos reuniões para analisarmos tudo o que aconteceu antes e durante as Olimpíadas.

A seleção feminina sub-17 começa a disputar nesta sexta o Mundial da categoria na Holanda. O time sub-18 está jogando a Copa América em Porto Rico. Pretende acompanhar de perto essas competições?
Como estou envolvida com a programação dos próximos anos e com os convênios com o Ministério do Esporte, achei mais importante ficar por aqui e enviar meus treinadores. O Tarallo foi acompanhar o sub-18 e o Cris [Cristiano Cedra, assistente técnico] está com o sub-17.

A preparação destas duas equipes enfrentou alguns problemas, como a falta de visto para as atletas que iriam disputar amistosos contra os EUA (Entenda o caso). Esses times tiveram a preparação ideal para os torneios que estão disputando?
Você não pode fazer uma pré-lista de 50 jogadoras, pois o Consulado dos EUA não concede visto de cinco ou 10 anos, mas sim para aquela viagem específica. Por isso não realizamos esse procedimento com grande antecedência. Ainda assim, fizemos os pedidos com tempo suficiente, mas demos azar de pegarmos uma mudança no sistema de emissão de vistos. Eles demoraram demais para devolver os passaportes e algumas atletas não conseguiram viajar.

Claro que, quando você deixa de fazer os jogos programados, sofre um prejuízo em sua preparação. Era uma semana de treinamentos, em uma parceria que temos com a confederação americana. Neste convênio, poderíamos usar as instalações da seleção dos EUA e ainda teríamos esses amistosos. Mas infelizmente essa questão dos passaportes atrapalhou.

A França foi vice-campeã olímpica utilizando a base da equipe que ficou em 3º no Mundial sub-21 em 2003. O Brasil, que foi segundo colocado naquela ocasião, conta com apenas duas atletas daquela geração. Algumas das atletas sequer continuaram no basquete. A nossa seleção tem aproveitado bem os talentos revelados pela base?
Estamos trabalhando para melhorar isso. Quando a jogadora sai do sub-19, é preciso dar continuidade no trabalho, o que não foi feito lá atrás. Quantos jogos internacionais essas brasileiras de 25 anos fizeram? Por isso estamos formando uma seleção de novas e vamos colocá-las para viajar e jogar bastante no próximo ano.

É aí que entra o convênio com o Ministério do Esporte. É um projeto de desenvolvimento que temos, o mesmo que já fizemos com o sub-19 no ano passado e ajudou o time a ser vice-campeão mundial. Em 2012 não tivemos este convênio e tivemos muita dificuldade para trabalhar a nossa base.

Não é possível realizar este trabalho apenas com os atuais patrocínios da CBB? Em entrevista recente ao programa Papo Reto, com o apresentador Neto, você reclamou de problemas na arrecadação de recursos. (Relembre aqui)
Não mexo nessa questão de dinheiro, mas é claro que é possível realizar um trabalho melhor se a arrecadação é maior. Temos que buscar todas as possibilidades de investimento. Se eu já tenho R$ 3 milhões garantidos, tenho que buscar 10, 20 milhões.