Basquete

Como Georginho saiu do hospital em busca do sonho de jogar na NBA

LNB/Divulgação
Georginho, armador do Paulistano Imagem: LNB/Divulgação

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

23/06/2017 02h44Atualizada em 23/06/2017 15h45

O armador brasileiro Georginho de Paula viveu a expectativa de ser escolhido no Draft da NBA, o evento que seleciona 60 calouros para a liga de basquete americano, mas seu nome acabou não aparecendo. A apreensão durou pouco. Horas depois o Houston Rockets apresentou uma proposta a seus empresários, que aceitaram pensando na evolução de sua carreira.

Natural de Diadema, São Paulo, o armador do Paulistano agora participará da Liga de Verão da NBA e deve ter um vínculo de até dois anos com o time texano. Também deve participar da Liga de Desenvolvimento, um campeonato paralelo no qual as franquias americanas testam seus jogadores jovens, pensando em um dia utilizá-los no time principal.

Georginho se junta assim a outros nove brasileiros que terminaram a última temporada na NBA – apenas dois deles têm contrato garantido. O UOL Esporte acompanhou o último mês do armador e conta como ele se dividiu entre as finais da NBB, o campeonato brasileiro, e a expectativa de chegar ao centro do basquete mundial.  

"Não foi cagada sua!"

No ginásio do Paulistano, um clube desportivo cravado no coração de um bairro tradicional da elite da cidade, as arquibancadas cheias de torcedores se distanciam da quadra de basquete por nada mais do que alguns passos.

Georginho – o armador do time da casa, 21 anos, 1,96 m de altura e braços de 2,13 m que se abrem como as asas de uma águia – escuta o sinal anunciando um dos tempos técnicos. Ele caminha ao banco de reservas aparentemente contrariado com o próprio desempenho. É o primeiro jogo da final da NBB, o campeonato brasileiro de basquete, e o Paulistano vem tendo dificuldade em romper o bloqueio adversário.

“Não foi cagada sua!”, diz o técnico Gustavo de Conti, consolando Georginho. “A defesa foi muito bem.” A seu redor os jogadores se secam com toalhas já encharcadas. A temperatura lá fora está amena, mas ali dentro o ginásio ferve.

Gustavo sabe que não pode deixar Georginho, um de seus melhores jogadores, perder a cabeça. “A bola voltou para você, não dá pra chutar, não dá pra passar, não dá pra entrar, calma! Volta e começa de novo.”

Cabeça fria leva à primeira vitória nas finais

Georginho começou de novo. Deu assistências e cravou uma bola de três em uma sequência que garantiu nove pontos para sua equipe.

O Paulistano acabou vencendo o jogo, o primeiro da série melhor de cinco da final com o Bauru. O time do Jardim América precisava de mais duas vitórias para chegar ao título inédito do NBB. Sua torcida, na maior parte sócios que pagam caro para desfrutar das confortáveis instalações do clube e, eventualmente, ver os melhores jogadores do basquete nacional de perto, empolgou-se.

Divulgação/Paulistano
Imagem: Divulgação/Paulistano

Mas Georginho não. Depois do jogo, de banho tomado, ele sorria e posava para fotos com fãs. Depois, o semblante um pouco carregado demais, analisou seu desempenho. “Joguei fora da minha posição”, disse ele, conversando com você, mas olhando para outro lado, como a evitar contato visual direto. “Não me senti confortável. Estou feliz com a vitória do time, claro, mas sei que não fui bem. Fiquei o jogo inteiro me criticando e isso me atrapalhou.”

Ele precisava voltar a jogar bem, e logo. Havia algo mais em jogo. Estava evitando falar disso ou mesmo pensar nisso, mas dali a menos de um mês, aconteceria nos Estados Unidos um evento que poderia mudar sua vida para sempre: o Draft da NBA.

“Vestibular” tenta equilibrar o nível técnico entre as equipes

Diferentemente das outras ligas esportivas mundo afora, cujos sistemas de contratação seguem basicamente as leis da selva e qualquer time pode contratar qualquer atleta (desde que tenha dinheiro para isso), os esportes americanos desenvolveram um mecanismo de recrutamento que ajuda a tornar os campeonatos mais equilibrados.

No Draft da NBA, um evento transmitido ao vivo pela televisão, os 30 times se revezam para escolher, cada um em sua vez, um jovem jogador de destaque das universidades americanas ou de ligas internacionais. Os piores times do ano anterior têm direito a fazer as primeiras escolhas para o ano seguinte, o que em tese lhes permite ter os melhores jogadores e, assim, diminuir a diferença técnica na liga.

Mike Stobe/Getty Images/AFP
Imagem: Mike Stobe/Getty Images/AFP

Cada equipe tem direito a escolher apenas dois atletas no Draft. Para não errar, elas submetem potenciais contratados a treinos específicos, testes físicos, medições exaustivas, entrevistas e destacam olheiros para acompanhá-los de perto. Sites especializados publicam notícias e avaliações do desempenho de “prospectos” nas ligas universitárias e nos campeonatos locais.

No fim do dia, todo ano, 60 jogadores entram na liga de basquete mais importante do mundo através do Draft. Outros milhares de inscritos ficam fora. Uma vez não escolhido no Draft, um jogador nunca mais pode ser recrutado para a NBA dessa forma. Por sua natureza dramática e excludente, o Draft lembra um vestibular de medicina.

Ou, nas palavras de brasileiros que nunca foram escolhidos, um “moedor de carne”.

Na reta decisiva, um mal inesperado

Quando entrou em quadra para jogar a final do campeonato brasileiro, Georginho sabia que àquela altura ele era o único atleta do país apontado pela imprensa internacional com chances reais de ser escolhido. Não era pouca coisa: em toda a história da NBA, apenas 14 brasileiros receberam um sim no Draft.

Por causa da reta final do campeonato, o armador deixou de viajar aos EUA para se submeter a treinos e aparecer aos times, ao contrário de seu colega Wesley Mogi, que deixou o Paulistano para treinar e aparecer às equipes da NBA. A cabeça de Georginho, ele repetia, estava totalmente voltada aos jogos contra o Bauru.

Divulgação/Paulistano
Imagem: Divulgação/Paulistano

Mas para sobressair, ele precisava superar uma inesperada falta do destino: no meio dos playoffs, o armador passou mal durante um treino e foi internado no hospital.

Lá conviveu com a suspeita de dengue ou chikungunya; submetido a exames, foi diagnosticado com uma doença misteriosa, descrita apenas como “virose”. Ao todo foram cinco dias no hospital.

Fora dos treinos, perdeu ritmo e ficou para trás. O time acabou se classificando às finais sem ele. “Quando eu cheguei aqui eu tive que brigar por posição”, disse ele na porta do ginásio, relembrando seus primeiros dias na equipe. O jogo seguinte estava marcado para dali a uma semana, em Bauru. “Agora, como fiquei fora esse tempo, sinto que tenho que brigar de novo. Começar tudo de novo.”

No começo foi uma cesta impossível

Um dia antes, descansando após o último treino antes da final, ele contava sobre o dia em que decidiu ser jogador profissional de basquete. Ele tinha então 12 anos. Alguém filmou a cena. Georginho lidera o time de uma associação de São Bernardo do Campo. O time está perdendo por dois pontos. O cronômetro marca 3,1 segundos para o fim do jogo. Ele recebe a bola da linha de fundo e vê três marcadores formando uma parede a sua frente.

Ele corre pela esquerda tentando chegar ao meio da quadra. Dois segundos. Os marcadores ficam pra trás, talvez cansados demais para oferecer resistência, talvez imaginando que não haveria tempo para nada. Um segundo. Georginho se aproxima da linha central. Toma impulso, pula. A bola voa de suas mãos descrevendo uma parábola perfeita no ar.

Tomando o único caminho possível em direção à cesta, a bola cai com graça no espaço vazio entre o aro, balançando a rede. Três pontos. Metade das crianças corre para abraçar Georginho; a outra metade apoia as mãos na cabeça se perguntando se aquele lance era possível no mundo real ou só nos filmes.

“Ali foi uma emoção diferente, não consigo nem descrever”, disse Georginho nove anos depois. “Foi ali que que decidi que queria viver do basquete.”

O basqueteiro poderia ter virado jogador de vôlei

Filho de dois jogadores de vôlei, ele tinha ido parar no basquete porque o esporte dos pais não estava disponível em Diadema (SP), sua cidade natal, na época. “Se a gente tivesse encontrado uma escolinha de vôlei”, disse sua mãe Suzana, antes do primeiro jogo da final, “talvez a história dele seria bem diferente.”

Do time de São Bernardo, ele foi parar no Pinheiros e pela primeira vez encontrou garotos de sua idade com quem podia competir de igual pra igual.

Mas foi no Paulistano que ele realmente assumiu o protagonismo de uma equipe com média de idade baixa para os padrões do NBB. Nas categorias de base da seleção brasileira, viajou aos Estados Unidos e entrou no radar das franquias da NBA, que depois vieram ao Brasil para vê-lo jogar.

Divulgação
Imagem: Divulgação

No primeiro jogo da final contra o Bauru, ao menos dois olheiros internacionais estavam nas primeiras fileiras do ginásio prontos a produzir relatórios sobre a sua atuação (e a de seu amigo Lucas Dias) aos times americanos. Outros olheiros tinham aparecido ao longo do ano.

Mas nada é tão simples assim. Apesar de Georginho ter sido eleito o jogador que mais evoluiu no campeonato brasileiro deste ano, o nível do basquete nacional ainda é muito diferente do que se joga nos EUA. É como se fossem dois esportes diferentes. Por isso os olheiros já admitiam que, mesmo que o armador fosse escolhido, dificilmente ele já entraria para jogar no time que o contratasse.

Contratado, ele ficaria um ou dois anos aprendendo, evoluindo, para só então ser aproveitado em quadra no time de cima, diziam os olheiros. A NBA, como a liga brasileira, tem um campeonato apenas para jovens jogadores ganharem minutos de quadra e experiência, para depois chegarem bem ao torneio principal. Essa era a projeção que se fazia para ele.

Três derrotas e uma vitória

Depois de abrir duas vitórias no duelo melhor de cinco decisivo, o Paulistano acabou permitindo a virada, e o Bauru se tornou, pela primeira vez, campeão do NBB. No quarto jogo, depois de mais uma atuação abaixo da expectativa, Georginho parecia desconfortável ao falar com a imprensa no ginásio do Corinthians, em São Paulo.

“Tentei fazer o melhor e ajudar meu time”, disse ele ao ser questionado sobre o que tinha achado de seu desempenho individual.

Depois que o vice-campeonato se confirmou, recebeu convites de jornalistas para que estivesse junto com a mídia no momento em que os times da NBA escolheriam seus novos jogadores. Temendo uma frustração em massa, ele preferiu se isolar e passar esse momento recluso, rodeado pela família, em Diadema.

Ainda haveria tempo para uma vitória individual, porém. Dois dias antes do Draft, em uma premiação da NBB, Georginho foi eleito o jogador que mais evoluiu no ano e recebeu um troféu ao lado de seu empresário e da namorada.

No dia D, de Draft, reclusão e tensão com a família

Na grande noite, ele se reuniu com a mãe, o pai, a madrasta, a irmã, o irmão e uma sobrinha e grudou na TV para acompanhar a transmissão, nome a nome.

Na internet, as especulações continuavam as mesmas. Ouviu os narradores brasileiros da ESPN lerem mensagens de torcedores que a todo momento perguntavam se ele já havia sido escolhido. Seu nome era o mais repetido como o mais provável de aparecer.

Sites especializados o apontavam como uma das dez últimas escolhas. Times como Houston Rockets, Denver Nuggets e Milwaukee Bucks apareciam como possíveis destinos do armador.

Até que à 1h21, quando o ginásio em Nova York já estava em clima de fim de festa, o narrador oficial do evento leu o último nome dos atletas escolhidos. E não era o dele. Quem estava a seu lado disse que ele ficou calado ao ter certeza do que tinha acontecido. Não esboçou emoção.

Wesley Mogi e Lucas Dias, seus companheiros também cotados, também foram preteridos. 

Uma vez não escolhido no Draft da NBA, um jogador não pode participar dele novamente. Com contrato com o Paulistano por mais uma temporada, Georginho deve seguir a vida normalmente e seu agente terá a chance de futuramente negociar seu nome com algum time da liga, como qualquer outro atleta.

Mas algumas horas depois, o Houston Rockets enviou uma proposta a seus empresários. Eles tinham pensado em uma estratégia para contratá-lo durante o Draft, mas a dinâmica das escolhas a tornou impossível.

Com um vínculo de até dois anos com os texanos, Georginho chegou à NBA, mas terá que passar pela Liga de Verão e pela Liga de Desenvolvimento antes de alcançar o time de cima. Alguns testes a mais para quem se acostumar a tantos recomeços. 

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