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"O tempo parou"...Testemunhas detalham cesta rara no basquete brasileiro

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

23/03/2018 04h00

Uma cesta inacreditável de Paulinho Boracini garantiu na última quarta-feira uma vitória que parecia impossível para o Basquete Cearense, que jogou em Fortaleza contra o Bauru, pela NBB. A cena rodou o mundo e impressionou os fãs de um esporte acostumado a reviravoltas dramáticas nos últimos segundos.

No estouro do cronômetro, o armador errou de propósito um lance livre, pegou o rebote na linha de três e, mesmo pressionado e desequilibrado, conseguiu superar a marcação de Alex, do Bauru, para chegar à virada com requintes cinematográficos.

O UOL Esporte entrevistou quatro testemunhas do lance raro, além do próprio Paulinho, para reconstituir com detalhes aquela que já está sendo considerado a cesta mais incrível da história do basquete brasileiro.

Seis segundos para o fim do jogo
Basquete Cearense 77 x 80 Bauru

Shilton Santos, pivô do Bauru

Victor Lira/Bauru Basket
Imagem: Victor Lira/Bauru Basket

O jogo foi basicamente equilibrado desde o começo, nenhum time abriu uma larga vantagem. No final a gente já esperava que fosse decidido com lance livre, com falta, ainda mais naquele momento lá.

Fiorotto, pivô do Basquete Cearense

O Bauru tinha dois lances livres pra abrir quatro pontos de vantagem sobre nós. O Alex fez o primeiro e errou o segundo. Eles ficaram três pontos na frente, com seis segundos para o fim. O Paulinho veio correndo pro ataque, a ideia era fazer um arremesso de três pra nos dar o empate e levar o jogo pra prorrogação.

Shilton Santos, pivô do Bauru

Eu estava no banco. Tínhamos três pontos de vantagem. No contra-ataque, o Paulinho foi tentar um arremesso para dois pontos e o Alex fez a falta. Na hora ali, achamos que foi uma falta boa porque evitava a chance do empate, uma falta tática, inteligente. Faltando dois segundos no relógio, a probabilidade de acontecer o que acabou acontecendo é minúscula. Em 18 anos como profissional nunca tinha visto um lance desse.

Cara...faltavam dois segundos...eram dois lances livres.

Fiorotto, pivô do Basquete Cearense

Eu tenho certeza que a falta foi pra três lances livres, mas o juiz deu para dois. Contestamos, mas ok. O Paulinho fez o primeiro, baixou a vantagem pra dois.

Dois segundos para o fim do jogo (após o primeiro lance livre)
Basquete Cearense 78 x 80 Bauru

Fiorotto, pivô do Basquete Cearense

Stephan Eilert/Basquete Cearense
Imagem: Stephan Eilert/Basquete Cearense

Ali no banco não falamos nada porque estava meio óbvio que o próximo ele ia chutar pra errar. Todos os jogadores em quadra foram preocupados com o rebote. O Alex foi pra perto do aro pra tentar pegar o rebote. Mas ninguém esperava que o Paulinho fosse dar o rebote para ele mesmo.

Leozão, pivô do Basquete Cearense

Estou com uma pequena lesão no tornozelo, e o melhor foi ver esse lance de fora. Eu estava sentado atrás da quadra. Dentro tu perde muita coisa.

O Paulinho sempre foi um cara mágico, de fazer uns lances que não tem adjetivo

Paulinho, armador do Basquete Cearense

Stephan Eilert/Basquete Cearense
Imagem: Stephan Eilert/Basquete Cearense

Na hora do jogo, com a adrenalina lá no alto e sabendo que você não pode falhar, fica ainda mais difícil fazer um lance como esse. Eu gosto de brincar de coisas assim depois dos treinos e posso dizer que faço isso bastante.

Fiorotto, pivô do Bauru

Estou me recuperando de uma cirurgia, ando de muletas ainda. Como era o último lance, fiquei de pé. Eu sabia que ele ia chutar pra errar, mas pensei que, como muitos fazem nessa hora, ele ia levantar pros pivôs tentarem pegar o rebote.

Allana Alves, assessora de imprensa do Basquete Cearense

A gente já tinha ganhado alguns jogos nos últimos segundos. Nessas situações eu tenho um ritual. Quando o Paulinho bateu o primeiro lance livre e acertou, ele se preparou para o segundo. Eu virei de costas e comecei a rezar.

Dois segundos para o fim do jogo (no segundo lance livre)
Basquete Cearense 78 x 80 Bauru

Shilton Santos, pivô do Bauru

Ninguém deixou de ir no rebote. Estavam os três jogadores ali protegendo o garrafão, mas o Paulinho jogou a bola no local perfeito. Se ele tentar esse lance de novo mil vezes, quantas ele vai acertar?

Paulinho, armador do Basquete Cearense

Era nossa única saída para tentar a vitória. Combinei com os pivôs do meu time para eles tentarem ir para o lado direito na hora que eu arremessasse. Consegui jogar a bola na força certa no aro para eu poder pegar ela na zona morta.

Leozão, pivô do Basquete Cearense:

Stephan Eilert/Basquete Cearense
Imagem: Stephan Eilert/Basquete Cearense

O Alex, que é só o melhor defensor do Brasil nas últimas oito temporadas, disse: “Fecha aí que eu vou fechar o Paulinho.” Ele sabe que o Paulinho vai tentar alguma coisa e se direciona de costas pra ele, no centro do garrafão. Mas quando o Alex olha de novo, o Paulinho já está correndo. Ele ainda tenta dar o toco, e cai por cima do Paulinho. Quando a bola sai das mãos dele, o tempo acaba.

Paulinho, armador do Basquete Cearense

Eu já tinha em mente de fazer aquilo, o Marcelinho Huertas já tinha tentado. Contra o Vasco esse ano aconteceu bem parecido, mas eu errei o aro, não deu certo. É tudo muito difícil. Tem que mirar muito bem no aro pra ela voltar onde você quer. Na hora do arremesso, o Alex, que é o melhor defensor do Brasil, estava em cima de mim. Foi o dia que deu tudo certo.

Paulinho acerta o aro, pega o rebote na zona morta e acerta um arremesso de três

Basquete Cearense 81 x 80 Bauru
Fim do jogo

Fiorotto, pivô do Basquete Cearense

Parece que o tempo parou, ficou tudo congelado ou em câmera lenta. Estava todo mundo em êxtase no ginásio. Eu olhava o filho do Paulinho, um menino de uns 8 anos ali com a camiseta do Carmelo Antony. Ele pulando, correndo, saltando, vibrando com a cesta do pai. Todo mundo muito emocionado. O cara treina para caramba, foi na hora certa. Fiquei falando com os caras depois: imagina uma bola dessas para ser campeão!

Allana Alves, assessora de imprensa do Basquete Cearense

Stephan Eilert/Basquete Cearense
Imagem: Stephan Eilert/Basquete Cearense

Quando ele fez a cesta eu virei e já tava o montinho em cima dele. Um jornalista do meu lado me descreveu o lance. Eu comecei a chorar, gritar, e ele tentou me acalmar. “O jogo acabou e vocês venceram”, ele disse.

Passei a noite vendo e revendo aquilo por todos os ângulos, reparando em todos os detalhes.

Leozão, pivô do Basquete Cearense

Umas crianças levam as mãos na cabeça. Eu mesmo levo as mãos à cabeça. O Fiorotto, que acabou de fazer uma cirurgia, corre sem as muletas. O cara esqueceu as muletas! Dá o primeiro passo, sente a dor e atira as muletas para o lado. A cara dele é de quem diz: “O que eu fiz?” Ele pega uma cadeira e atira no chão pra comemorar.

Fiorotto, pivô do Basquete Cearense

Na hora ali eu só queria correr para abraçar alguém.

Leozão, pivô do Basquete Cearense

Do meu lado, todo mundo se abraçando, chorando, o time todo pulando em cima do Paulinho, fiquei até com medo de alguém se machucar.

O pessoal do Bauru ficou sem acreditar. O Alex cai por cima do Paulinho. Ele vê a bola caindo na cesta enquanto ele mesmo está caindo. Todo mundo do Bauru ficou cabisbaixo, alguém tentou falar alguma coisa pro árbitro.

Shilton Santos, pivô do Bauru

Eu estava no banco na hora, fiquei apreensivo. No final, isso deixou toda a equipe boquiaberta, ficamos incrédulos. No momento seguinte, ficamos bravos por perder dessa maneira. Mas é uma coisa que transforma o basquete nesse esporte extraordinário. Se tem um esporte em que isso pode acontecer é no basquete.

Leozão, pivô do Basquete Cearense

Eu já vi alguns lances bonitos, umas bolas impossíveis que valem uma vitória, mas um lance desses... O cara dar um giro com o melhor defensor do Brasil pendurado nele! A bola escorrer na tabela e entrar! A finalização é incrível, é a perfeição. É um jogo para entrar para história.

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