Esporte

Canoísta compete sem um rim e tem chance de medalhas para o Brasil em 2016

Karla Torralba

Do UOL, em São Paulo

27/09/2014 06h00

Isaquias Queiroz tem fôlego, força, concentração, dedicação, talento e tem conseguido resultados expressivos na canoagem. Aos 20 anos, ele é um dos fortes candidatos ao pódio pelo brasil nos Jogos Olímpicos de 2016. O desafio é grande, mas para Isaquias se torna maior. O canoísta compete sem um rim.

Muitas pessoas vivem sem um rim normalmente, mas nenhuma tem o currículo e a responsabilidade que Isaquias tem no esporte e dentro da própria casa. São dois títulos mundiais para o Brasil na classe C1 500, da canoagem.  Nove anos de vida dedicados ao esporte, os outros 11, dedicados à família e às travessuras de criança. 
 
“Eu aprontava muito. Dos irmãos, eu fui o que mais aprontou. Perdi um rim pela traquinagem, são coisas normais, de criança”, relembrou Isaquias Queiroz em entrevista ao UOL Esporte
 
Isaquias tem histórico de ser curioso e isso quase lhe custou a vida e o esporte. “Um ano antes da canoagem, eu estava em casa, não tinha ido à escola por estar com febre, meu amigo falou que tinha uma cobra morta e eu tinha curiosidade. Quando fui dar uma olhada, eu subi no cais, fiquei tonto e caí em cima de uma pedra, de lado. Isso afetou o rim esquerdo na hora. Por fora não tinha acontecido nada comigo, mas fui para o hospital, depois para outro hospital e para a cirurgia. Quando eu acordei já estava sem o rim. Não lembro de nada”, contou Isaquias. 
 
A perda do rim foi apenas um dos dois episódios. Aos 4 anos, a curiosidade de ver uma panela de água sendo fervida no fogão fez com que o menino Isaquias passasse mais tempo no hospital. “Minha irmã mais velha colocou água para esquentar e fui ver, de curiosidade, coloquei o banco, segurei no fogão e a água caiu em cima da minha lateral direita. Com o tempo foi cicatrizando e hoje não dá pra ver direito”, relembrou. 
 
Mas foi a falta do rim que por pouco não o tirou do esporte. Quando começou na canoagem, em um projeto do governo federal, em Ubaitaba, na Bahia, o garoto Isaquias sentia dores, tonturas. “Depois da cirurgia, na canoagem, eu senti dores e tinha que ir ao hospital tomar soro, antigamente tinha que ir todo mês. Na seleção eu chorava de dor. Hoje, depois de dois anos para cá, eu sinto um pouquinho só. Eu tomo bastante água, descanso mais, quando sinto dor. Não sei por que sinto, acho que é porque a cirurgia foi mal feita. Já fiz exame, tudo, e deu que não tenho nenhum problema”, explicou.   
 
Os primeiros treinadores de Isaquias, que descobriram o talento do garoto, não sabiam da falta do rim. “Todo mundo o chamava de ‘Sem Rim’, a gente começou a treinar e ele começou a se destacar. Eu procurei saber do apelido e descobri que não tinha um rim. Então, procuramos um médico. Ele sentia muita tontura na época”, recordou Figueroa Conceição, que era técnico de Isaquias ao lado de Jefferson Lacerda, que fez parte da primeira equipe brasileira a participar de uma Olimpíada pela canoagem, em 1992 (Barcelona). 
 
Hoje, com chance real de medalha em 2016, Isaquias recebe atendimento do médico junto ao Comitê Olímpico Brasil (COB), que fica “de olho” no pequeno detalhe do atleta. “Quando descobrimos que ele não tinha um rim, ele foi para um nefrologista e fizemos todas as investigações, para ver se tinha alguma alteração”, ressaltou o médico, Breno Schor, que coordena a comissão médica que presta serviços ao COB. 
 
“O fato de não ter rim, não quer dizer que a parte renal dele é ruim. Uma pessoa tem que ter 70% de um rim para que viva bem. Para um atleta é necessário um pouco mais do outro rim”, explicou. “O que foi feito para o Isaquias foram adequações alimentares, para não haver uma sobrecarga excessiva do rim e se faz controle periódico com ele a cada oito semanas”, continuou. 
 
As dores sofridas são cada vez menos intensas. “Muitas das queixas não estavam relacionadas ao rim. No inicio tinham questões alimentares. O Isaquias ficou com lembranças em relação ao acidente, cirurgia, isso é uma memória ruim, então ele associa à dor do rim, mas não é o rim que dói. As dores podem ser pela cirurgia que se mexe no músculo. Isso através de fortalecimento dele pode se amenizar e hoje ele sente cada vez menos dor”, disse o médico. 
 
Além do fortalecimento, a hidratação. “É um cuidado que temos, para manter o rim funcionando e a chance de lesão é menor. Quando tem muita desidratação, o rim para de funcionar e isso faz com que tenham lesões, que podem ser irreversíveis como as desidratações excessivas em esportes de luta para perder peso, por exemplo”, completou. 
 
Mão deu apoio para Isaquias não desistir após perda do rim: 
 
Dona Dilma, mãe de Isaquias e de mais cinco filhos biológicos e quatro “do coração”, ajudou para que o menino iniciante na canoagem não parasse. “O médico falava que eu não podia pegar peso, o médico dizia que eu tinha de ficar em casa, mas eu não queria. Ela me deixou continuar e me deu apoio. Quando saí de casa em 2010 para a seleção eu falei que queria ir, eu falei que não ia perder tempo. Sempre quando posso eu vou visita-la. Ninguém nunca me apoiou como ela”, destacou Isaquias. 
 
Queda no Mundial da Rússia: 
 
No começo de agosto, Isaquias Queiroz estava próximo de conquistar o título inédito do Mundial de Canoagem na categoria C1 1000, olímpica. No entanto, na reta final, o brasileiro acabou virando a embarcação e acabou em oitavo lugar. 
 
“Eu estava fazendo uma prova boa, na final eu achei que estava perto da linha de chegada, eu joguei o barco muito forte, estava muito cansado. O pessoal pensa que eu virei, mas foi porque eu pensei em olhar para o lado e quando empurrei vim muito para trás e acabei virando”, explicou. 
 
AP Photo/Pavel Golovkin
Perto de conquistar título inédito, Isaquias virou a embarcação e acabou em 8º lugar Imagem: AP Photo/Pavel Golovkin
 
Por ser uma prova olímpica, Isaquias tem medo de acabar perdendo apoio financeiro do Ministério do Esporte para os próximos anos. “A gente ganha pelos resultados que conquistamos. A gente não pode relaxar, porque se piorar, cai o valor. Eu recebo o bolsa pódio (para atletas com chances de realizarem uma boa Olimpíada em 2016), mas não sei como vai ficar, porque como caí na prova olímpica e fiquei em oitavo, eu não sei o quanto vai me custar a queda. Se eu perder ou não, não vou deixar me abalar, meu foco maior não é dinheiro, são medalhas”, destacou. 
 
O UOL Esporte entrou em contato com o Ministério do Esporte, que explicou que Isaquias não perderá a bolsa para 2015. “O Ministério já recebeu o relatório da confederação que o indica para o próximo ano, uma vez que ele ocupa a 9ª colocação no ranking mundial. Tudo indica que ele terá o plano esportivo aprovado e a bolsa, renovada, já que o resultado de uma única prova não reprova atletas, assim como apenas o ranking entre os 20 não os aprova para entrar no programa. São levados em consideração outros quesitos e resultados ao longo dos 12 meses”, informou via assessoria de imprensa.
 
Isaquias recebe dinheiro por meio do Ministério do Esporte e pela Confederação Brasil de Canoagem. O Comitê Olímpico Brasil também ajuda com viagens, local para treinar e todo o equipamento necessário para a prática do esporte. 
 
Reconhecimento e Olimpíada:
 
No Brasil, Isaquias é mais conhecido em sua cidade natal, Ubaitaba. No exterior, o atleta ganhou ainda mais reconhecimento após cair da canoa no último Mundial. “No Brasil eu sou reconhecido pelos atletas da canoagem e na minha cidade. Eu estava na Rússia (Mundial) e depois que eu virei, todo mundo me cumprimentou pela prova que eu fiz e quando terminei a de 500 (C1 500), que ganhei, eu fui na arquibancada e todo mundo queria tirar foto comigo. O segurança teve que me buscar. Dentro da canoagem eu sou bastante reconhecido. Dentro da canoagem da América do Sul  e Europa”, contou.
 
De malas prontas: 
 
No momento, Isaquias está de férias e depois que voltar aos treinamentos com a seleção, Isaquias terá casa nova. O time brasileiro se mudou de São Paulo, onde treinava na raia da USP, para Minas Gerais, e agora os trabalhos serão em Lagoa Santa. Tudo focando 2016. 
 
“A USP era raia de remo e canoagem e é muito pequena para todos, então precisávamos de um local mais privado. Lá na Lagoa Santa o clima é igual ao do Rio de Janeiro, o vento e o formato da lagoa são iguais a Lagoa Rodrigo de Freitas. Em 2016 o vento vai estar contra. O local em Minas é bom porque só a seleção pode usar. Ninguém pode treinar lá se não for convidado pela seleção”, disse.  
 
Isaquias treinou por dois anos na Lagoa Rodrigo de Freitas, local de disputa da canoagem de velocidade nos Jogos Olímpicos do Rio. “É um local que não se pode falar que é bom. Com vento ninguém entra para fazer canoagem, porque o barco afunda”, comentou. 
 
Rio-2016: 
 
Isaquias Queiroz treina pesado ao lado da seleção brasileira para conquistar medalha em 2016. Ele não quer moleza do técnico espanhol Jesús Morlán. “Dentro de casa vai ser muito difícil perder uma medalha. Para mim é treinar para ficar no pódio. Eu vou treinar bastante para o ouro. Quero ouvir o hino em casa. Quero pensar no agora. Não quero me matar para ficar apenas na final, eu quero uma medalha de ouro”, ressaltou.

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