UOL Esporte Ciclismo
 
05/08/2010 - 07h01

Maior time do país atrasa salários, enfrenta protesto e tem licença sob risco

Mauricio Dehò
Em São Paulo

A equipe de ciclismo Scott/Marcondes César, de São José dos Campos (SP), começou a temporada com boas notícias, sendo a primeira do país a conseguir a licença da categoria profissional continental (Pro Continental), que dá acesso à elite da modalidade. No entanto, após sua estreia na Europa, o cenário é de polêmica. Ciclistas e integrantes do time alegam estar com salários atrasados, chegando a cinco meses sem receber para competir.

OS LADOS DA POLÊMICA

Não tem nenhum membro da equipe sem problemas. Há massagista sem receber, dívidas a serem quitadas pela equipe com os ciclistas. Os pagamentos não estão em dia, inclusive o meu

LUCIANO PAGLIARINI, sobre seu protesto ao não correr o Campeonato Brasileiro

Dois dos patrocinadores saíram e isso deixou um prejuízo grande. Temos uma solução sendo proposta e sexta-feira estaremos resolvendo os problemas pendentes

CARLINHOS, dono da equipe Scott
O problema foi escancarado por Luciano Pagliarini, veterano ciclista que passou mais de uma década na Europa e retornou no último ano ao Brasil. Com a licença dada pela União Ciclística Internacional à Scott, ele passou a integrar no time, com a esperança de levar o Brasil a um novo patamar fora do país. No entanto, com a alegação de não estar recebendo em dia, protestou ao não participar do Campeonato Brasileiro, em julho.

"Não tem nenhum membro da equipe sem problemas. Há massagista sem receber, dívidas a serem quitadas por parte da equipe, problemas com seguro de vida e de saúde que foram combinados em novembro, quando negociamos", detalhou o paranaense, em entrevista ao UOL Esporte. "Os pagamentos não estão em dia, inclusive o meu."

Como resultado da acusação, no protesto feito sozinho, Pagliarini não tem sido chamado para as competições. Outros ciclistas e até um mecânico deixaram o time comandado por José Carlos Monteiro, o Carlinhos. É o caso de Tiego Gasparotto, que recentemente conseguiu um acordo para deixar o time e fechar com a equipe de Pindamonhangaba.

"Faz cerca de duas semanas que saí, e o problema é o de sempre, a questão de salários. Não é só comigo, todos sofrem em relação a isso. Eu estava no limite, há cinco meses sem receber. [O Carlinhos] vai prometendo e você vai relevando, o problema é o salário, porque de estrutura e material a Scott ainda é a melhor", disse o ciclista de 22 anos. "Tem gente que tem pai e mãe que banque, mas quem não tem precisa. Foi uma coisa certa o que o Luciano fez, mas não teve apoio da galera se reunir, porque alguns não precisam tanto do dinheiro", completou.

  • Divulgação

    Luciano Pagliarini protestou contra a equipe e não participou do Campeonato Brasileiro, em julho

O mecânico Evandro Souza Oliveira, que foi assistente técnico de Carlinhos, ressalta um dos principais temores dos membros do time. "Quando eles voltaram da Volta da Turquia, como estava tudo atrasado, falei que ia sair. Mas a maioria tem medo de perder o emprego. A equipe é profissional continental e, se saírem, podem ter de ficar até o fim do ano sem pedalar se quiserem fechar com um time deste nível", diz ele.

Evandro já foi às Olimpíadas com a seleção e teve de defender outra equipe no Tour do Rio, encerrado neste domingo. Ele trabalhou com a italiana Trevigiani, do campeão Tomas Alberio. Agora aguarda novos contatos do time, que deve retornar ao continente para disputar outras Voltas. "Esse problema não é de hoje, o Carlinhos desde que tem a equipe é enrolado com atletas", acusa o mecânico.

Em contato breve com a reportagem, Carlinhos afirmou que o problema está sendo resolvido e colocou prazo até sexta-feira para isso. Sem entrar no assunto, alegou que a insatisfação no time se resume ao protesto de Pagliarini, mas admitiu dificuldades.

"Foi só o Pagliarini quem fez isso. Saíram dois patrocinadores, por decisão deles mesmo, e isso deixou um prejuízo muito grande. Temos uma solução sendo proposta e sexta-feira estaremos resolvendo os problemas pendentes quanto a isso", disse Carlinhos.

OS SALÁRIOS POR UMA BIKE

  • Um dos ciclistas afetados pela crise na Scott, Tiego Gasparotto conseguiu deixar o time para entrar na equipe de Pindamonhangaba. No entanto, ainda não viu o dinheiro que alega ter a receber. Com isso, sobrou a ele um acordo nada convencional. Enquanto espera pela quantia, a garantia é uma bicicleta. Ele está com um equipamento em mãos que dá uma pequena amostra do tamanho da dívida. Uma bicicleta usada por ciclistas profissionais chega ao valor de R$ 14 mil, como a que está com Tiego.

    Com menos sorte, o mecânico Evandro, que também saiu da Scott, faz bicos longe do ciclismo. Com o caminhão de um irmão, faz carretos para levantar dinheiro. Ele conseguiu uma vaga na equipe italiana Trevigiani para o Tour do Rio e espera que eles retornem para mais disputas no país e na América do Sul, para que tenha novas chances na modalidade.

No entanto, toda a confusão pode custar a posição de destaque que o time de São José dos Campos conquistou. Segundo Pagliarini, ele e o italiano Jorge Giacinti, também competidor do time, entraram em contato com a UCI para que o caso seja investigado. Caso se prove a falta de pagamento, a permissão para que a Scott participe de eventos internacionais pode ser bloqueada.

Na geladeira

Maior estrela do ciclismo brasileiro ao lado de Murilo Fischer, que segue na Europa, Pagliarini está há um mês sem competir devido ao protesto.

"Com tudo isso, o Carlinhos acabou me dando uma gelada. Mas, como chegou aonde chegou, eu já esperava. Alguém precisava fazer isso. Estou esperando que acerte comigo e me convoque, porque estou pronto para competir", diz ele. "Meus 20 anos de carreira não foram inventados, e ficar parado nessa situação está moralmente me prejudicando, e muito".

"Espero que ele tome consciência dos atletas. Estão todos na mão dele, porque não há para onde correr. [O Carlinhos] parece ser cauteloso, mas age de má fé com os atletas", acrescentou o ciclista. "Eu tenho a felicidade de ter feito uma grande carreira na Europa e de ter outras fontes de renda que decorreram disso. Nesse lance de salário, tenho a sorte de não precisar dele neste momento. Mas desde o início já vi atletas reclamando e percebi que ele estava mal-intencionado."

Pagliarini ainda não cogita simplesmente sair do time e afirma que espera uma resolução, indo inclusive para a Justiça para tentar solucionar o caso, se for necessário.

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