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Uma oportunidade no caos

REUTERS/Agustin Marcarian
Imagem: REUTERS/Agustin Marcarian
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

2018-11-26T04:00:00

26/11/2018 04h00

Como num tango argentino, aquela que deveria ser a maior final da Libertadores de todos os tempos, tornou-se um vexame mundial que ninguém mais sabe quando, onde e como terminará. Haja o que houver, entretanto, o futebol sul-americano está diante de um daqueles momentos únicos, nos quais, se houver vontade política, pode-se tomar decisões importantes para mudar os rumos da principal competição do continente, servindo também de exemplo para banir, de uma vez por todas, problemas que, pouco a pouco, vão tornando o futebol um esporte de alto risco na América do Sul.

Não creio que a desmoralizada Conmebol vá punir o River Plate pela absurda agressão de sua torcida ao ônibus do Boca Juniors, no caminho para o Monumental de Nuñez. Mas a oportunidade é perfeita para que, ao menos, se exija um regulamento bem mais duro que, a partir da próxima edição, reprima e condene com vigor quaisquer tipos de agressão nos estádios e nos seus arredores. Basta querer. O presidente da Fifa, Gianni Infantino, estava na Argentina. Se der um empurrãozinho...

Não custa lembrar que, na final da Sul-Americana do ano passado, o Maracanã foi palco das mais variadas e condenáveis formas de selvageria. O estádio foi invadido, os bares saqueados, houve brigas e roubos, enfim, um inferno que nem a polícia foi capaz de controlar.

A partir daí algumas medidas simples, como bloqueio de ruas vizinhas ao estádio, exigência de apresentação do ingresso aos policiais, bem antes de chegar às catracas, e trabalho preventivo de inteligência sobre as mais violentas torcidas organizadas, melhoraram consideravelmente o quadro. O Flamengo jogou duas partidas da atual Copa Libertadores com os portões fechados como punição.

As tragédias de Heysel e Sheffield, nos anos 80, provocaram suspensões de cinco anos de todos os clubes ingleses nas competições europeias (o Liverpool pegou seis) e levaram a Inglaterra a produzir o relatório Taylor, reformar os seus estádios e banir os hooligans deles.

É preciso que se aproveite o absurdo acontecido nesse último final de semana em Buenos Aires para adotar medidas semelhantes, já a partir da próxima temporada. Há alguns dias, houve um dirigente que chegou ao delírio de comparar a Libertadores à Champions League. Essa final entre Boca e River nos mostrou, com clareza, como estamos a anos-luz disso.

Se, no entanto, esse lamentável episódio servir como ponto de partida para uma reformulação que nos permita avançar na luta contra a violência no futebol, o vexame de Nuñez pode até ser lembrado, no futuro, como um ponto histórico e positivo.

O problema é acreditar que isso, realmente, vá acontecer, num órgão, como a Conmebol, que, entre outras coisas, permitiu que esse ano uma mesma infração tivesse dois veredictos distintos, prejudicando um clube brasileiro (o Santos) e beneficiando um argentino (o River).

Infelizmente, a Conmebol não é confiável. Mas que tem pela frente uma oportunidade de ouro para passar a ser, tem.

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