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Os novos rumos do esporte

Tânia Rego/Agência Brasil
Crianças jogam futebol durante aula de Educação Física Imagem: Tânia Rego/Agência Brasil
José Cruz

José Cruz

José Cruz, jornalista, trabalha no gabinete do senador Romário

30/11/2018 04h00

A ida do esporte para o Ministério da Cidadania não significa apenas a redução de mais uma pasta na estrutura de governo de Jair Bolsonaro, mas sugere que haverá radical mudança de rumos no setor. 

Tudo indica que o esporte profissional, altamente subsidiado por verbas públicas nas duas últimas décadas, sairá do guarda-chuva do governo e abrirá espaço para o esporte na escola e práticas de abrangência social. O vínculo da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas à nova pasta mostra esse caminho. E, pelo menos na estrutura, o governo cumprirá, enfim, o artigo 217 da Constituição Federal que determina em seu item segundo "a destinação de recursos públicos para a promoção prioritária do desporto educacional..."

Historicamente, essa é 11ª mudança institucional, e nos remete a 1937, quando o assunto "esporte" integrou pela primeira vez a estrutura de governo, com a "Divisão de Educação Physica", vinculada ao Ministério da Educação e Saúde, no governo do presidente Getúlio Vargas.

Oito décadas se passaram e o "esporte" trocou de estrutura a cada sete anos e meio, em média. Nesse tempo, 82 dirigentes se sucederam, entre secretários, diretores ou ministros. Só nos últimos 15 anos, sete ministros ocuparam o Ministério do Esporte, média de um a cada dois anos.

Toby Melville/Reuters
Imagem: Toby Melville/Reuters

Apesar dessa farta mudança, os dirigentes nunca conseguiram elaborar uma política de Estado para o setor. Esteve-se perto disso em duas ocasiões: em 1985, quando o então ministro da Educação, Marco Maciel, apresentou um projeto de "Política de Estado para o Esporte", e em 2008, com a Terceira Conferência Nacional do Esporte. 

Na primeira tentativa, a proposta não evoluiu no Congresso Nacional; na segunda, ao desinteresse do governo somou-se a agenda dos megaeventos - Copa do Mundo e Olimpíada, principalmente -, que sufocou outros debates, e a tal "política" ficou esquecida. E parece que assim continuará, pois, ao agrupar o esporte com outras pastas e nomeando para o seu comando um deputado que afirma desconhecer o tema, fica claro que o assunto não receberá a atenção que merece por seu grande potencial, para a economia, inclusive, como veremos em outros artigos. 

Assim, o governo deverá direcionar a sua ação para o social, para a melhoria da qualidade de vida e como instrumento de recuperação de viciados, entre outros objetivos. É uma opção, pois recente pesquisa do Ministério do Esporte indicou que 46% dos brasileiros são sedentários. Teoricamente, quase a metade da população precisa ou precisará de serviços médicos para combater as mazelas da saúde devido à falta de uma atividade física regular. E quem paga essa conta, sabe-se, é o cofre público.

Mas com que instrumentos contará o novo governo para incentivar tal prática? Há espaços afins, principalmente para as camadas mais pobres da população, boa parte faminta? Teremos profissionais de educação física para orientar esses programas? 

Ao contrário, estivesse o esporte no Ministério da Educação, com chegou a ser especulado, o público já está definido, e boa parte da estrutura, nas escolas, disponível. Os estudantes seriam os primeiros beneficiados, projetando-se uma população mais sadia e com melhor rendimento escolar. Os países que adotam essa prática exibem esses resultados. 

Fora do "esporte e saúde", o que ocorrerá com os atletas profissionais, com a Lei de Incentivo, a Bolsa Atleta e outros programas, inclusive dos atletas paralímpicos? São assuntos dos próximos artigos. 

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