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Ignorar o que foi construído para Rio 2016 é apressar o desmonte do esporte

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Brasileiros comemoram ponto diante da Itália na final do vôlei nas Olimpíadas do Rio Imagem: Reuters
José Cruz

José Cruz

José Cruz, jornalista, trabalha no gabinete do senador Romário

2019-03-28T15:32:25

28/03/2019 15h32

A cada quatro anos, o brasileiro descobre que há vida esportiva fora do futebol. Por breves dias, os atletas olímpicos e paralímpicos nos permitem esquecer o jogo da bola para vibrar com pódios na ginástica, no vôlei, no judô ou no atletismo, como se fossem raros gols de Neymar. Ao final, nos satisfazemos com pingadas medalhas, apesar do tamanho, da diversidade e do potencial humano do nosso país para formar bons competidores em todas as modalidades. Proporcionalmente, os paraolímpicos mostram mais resultados.

O ano de 2020 está chegando e lá vai o Brasil rumo a Tóquio: Olimpíada, de 24 de julho a 9 de agosto, e Paralimpíada de 25 de agosto a 6 de setembro. Nesses eventos, saberemos se os investimentos públicos de R$ 3,6 bilhões apenas em atletas para os Jogos Rio 2016 deixaram legados de fato.

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Os governos das últimas décadas apostaram no esporte para exibir ao mundo o nosso potencial e capacidade de também conquistar pódios. Dinheiro não faltou, mas planejamento de longo prazo e fiscalização, sim. A corrupção e o desperdício foram enormes, já comentados neste espaço. Agora, a conta amarga do jogo dos espertos chegou, e a falta de dinheiro e a choradeira são reais.

Há três anos, depois de apagada a chama olímpica no Rio de Janeiro, lancei as seguintes questões em um artigo que provocava sobre o nosso futuro esportivo:

"O que será do amanhã? A chegada de novo governo ao poder da República e a gravidade da economia tornarão o esporte uma 'fábula de Cinderela', como no conto de fadas em que uma carruagem volta às suas origens de abóbora?

E indaguei mais: "As estatais continuarão a jogar dinheiro nas confederações"? "O Ministério do Esporte terá orçamento para manutenção e conservação das 47 pistas de atletismo que distribuiu pelo país"? E por aí segui numa série de dúvidas que, hoje, temos as tristes respostas.

Pois o novo governo chegou. O déficit total projetado nas contas públicas deste ano é de R$ 130 bilhões, o que endurece o jogo da liberação de grana pública para o esporte. O Ministério foi extinto, e a recém-criada Secretaria de Esporte ainda não tem equipe titular completa. As verbas secaram. E, apesar de termos um presidente formado em Educação Física e egresso das Forças Armadas, de tradicional vínculo com a prática esportiva, os rumos do esporte estão à deriva.

Diante das mazelas da saúde, da educação e da segurança, compreende-se que o esporte não esteja entre as prioridades do atual governo. Mas também não se pode ignorar o que foi construído em termos físicos e humanos para os Jogos Rio 2016. Ao ignorar isso, o governo apressa o desmonte do que restou e repete, indiretamente, o desperdício de governos passados.

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