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Zaidan: Sensação do ano, Ajax é exemplo da revolução permanente do futebol

Olaf KRAAK / ANP / AFP
Imagem: Olaf KRAAK / ANP / AFP
Claudio Zaidan

Claudio Zaidan é radialista há 44 anos. Em São Paulo, trabalhou nas rádios Jovem Pan e Trianon. Entrou na Rádio Bandeirantes em 1994, onde ficou por cinco anos. Voltou para Bandeirantes em 2001, onde atualmente é comentarista.

2019-04-08T04:00:00

08/04/2019 04h00

Erik tinha inocentes 4 anos de idade e, provavelmente, não prestava muita atenção ao que fazia a seleção de seu país em campos alemães.

Hoje, passados 45 anos, não são muitos os que compreendem tanto quanto Erik os feitos daquele time holandês e sua versão radical da revolução húngara idealizada por Gusztav Sebes e executada pelos craques Bozsik, Hidegkuti, Czibor, Kocsis e pelo fenomenal Ferenc Puskas.

Foi na Copa de 1974 que o restante do mundo conheceu, enfim, Rinus Michels e Johan Cruyff, que, havia seis anos, assombravam o futebol europeu.

Erik ten Hag nasceu em 2 de fevereiro de 1970, três meses e quatro dias antes de o Feynoord - de Jansen, de Israel e do craque van Hanegen - vencer o Celtic por 2 a 1 e tornar-se o primeiro clube holandês a ganhar a Copa dos Campeões da Europa, chamada atualmente de Liga dos Campeões.

Em 71, o título permaneceu na Holanda: o Ajax, de Michels e Cruyff, derrotou, por 2 a 0, o Panathinaikos, então treinado, vejam vocês, por Puskas. Depois desse título, Michels foi dirigir o Barcelona. O Ajax, que havia perdido a final de 69 para o Milan, conquistou seu bicampeonato em maio de 72, ganhando do outro gigante de Milão, a Inter, por 2 a 0, com Stefan Kovacs no lugar de Michels.

PA Images via Getty Images
Comandado por Michels e com Cruyff em campo, time do Ajax de 71 cativou o mundo Imagem: PA Images via Getty Images

Erik tinha 3 anos em 30 de maio de 73, quando, em Belgrado, Cruyff e o Ajax conquistaram sua terceira Copa dos Campeões, vencendo a Juventus por 1 a 0, com gol de Rep. Foi a vez de Cruyff ir para o Barcelona.

Em 1988, o troféu voltou para a Holanda: o PSV, de Gerets, Willy van de Kerkhof e Koeman, sob comando de Guus Hiddink, venceu nos pênaltis o Benfica, que tinha os brasileiros Mozer, Elzo e Chiquinho. No ano seguinte, Erik passou a jogar nos profissionais do Twente. Em maio de 95, sete anos depois do título do PSV, o Ajax voltou a conquistar a Europa.

Comandado por van Gaal, o time de van der Saar, Rijkaard, Frank de Boer, Blind, Davids, Seedorf, Litmanen, Overmars e Kluivert, venceu o Milan por 1 a 0. Na temporada seguinte, o Ajax estava de novo na final; e, pela segunda vez na história, contra a Juventus. Os italianos ganharam nos pênaltis.

Erik ten Hag encerrou sua carreira de jogador em 2002 e, imediatamente, passou a trabalhar como técnico na formação de jogadores do próprio Twente, que, quatro anos depois, o promoveu a assistente técnico no time profissional. Em 2012, foi contratado para ser o treinador do Go Ahead Eagles; encarou, depois, duas temporadas no time B do Bayern de Munique e outras duas no Utrecht.

Em dezembro de 2017, Erik ten Hag chegou ao comando do Ajax. Foi o início de um resgate.

Insisto: é um resgate histórico o que tem acontecido com o Ajax nesta temporada; e não só pelos resultados na Liga dos Campeões, mas, principalmente, pela recuperação de um modo de jogar que remete à revolução de Michels.

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Claro que isso só funciona porque há jogadores que entendem e realizam as ideias de ten Hag, desde os zagueiros Ligt e Blind até Tadic e Neres, no ataque; mas, sobretudo, pelo peculiar futebol de Frenkie de Jong, craque que, não por acaso, irá para o Barcelona. Nas oitavas da Liga, o Ajax de ten Hag atingiu seu jogo ideal no gramado do Bernabéu, goleando o Real Madrid por 4 a 1.

O maior vencedor da Europa já não conseguiu ignorar o que significou perder Cristiano Ronaldo. Mas ten Hag não se livrou do português: na próxima quarta-feira, Ajax e Juventus se enfrentarão na Holanda, pelas quartas de final; o segundo jogo será na terça-feira seguinte, na Itália.

Se chegar à semifinal, o Ajax jogará contra o Tottenham, de Pochettino, ou contra o Manchester City, de Guardiola. É inegável, aliás, que ten Hag usa muitas das ideias de Guardiola, que aprendeu com Cruyff, que observou Rinus Michels, que confessou ter se inspirado na seleção brasileira de 1970 e na Hungria construída por Gusztav Sebes.

Desencadeada estranhamente em um país então dominado pelo stalinismo, a maior mudança tática contrariou um conceito de Stalin e mostrou que, pelo menos no futebol, a revolução deve ser permanente. Erik ten Hag sabe que assim é.

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