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José Cruz: Pastor cai antes de assumir o Esporte. Qual a próxima surpresa?

Sergio Lima/AFP
O governo Bolsonaro não apontou uma equipe que garanta novos rumos ao esporte nacional Imagem: Sergio Lima/AFP
José Cruz

José Cruz

José Cruz, jornalista, trabalha no gabinete do senador Romário

2019-04-25T21:22:08

25/04/2019 21h22

Estamos no final do mês e ainda repercute a coluna do início de abril. Alguns leitores não gostaram do artigo "Com pastor em 'cargo de atleta' o esporte é diminuído" e mandaram mensagens com várias críticas. Como este espaço é aberto ao bom debate, procuro responder a todos, inclusive àqueles mais grosseiros e agressivos. Entendo, pois faz parte do fanatismo esportivo ou religioso.

Tais leitores ficaram incomodados com as críticas ao desconhecido maranhense João Manoel Santos Souza, indicado para ocupar a Secretaria Nacional de Alto Rendimento, da Secretaria de Esporte do Ministério da Cidadania. Porém, mesmo com o apoio do ex-senador José Sarney, o pastor não deverá assumir, informaram fontes próximas do ministro da Cidadania, Osmar Terra. Quem o substituirá ainda é segredo.

Como escrevi, a Secretaria Nacional de Alto Rendimento já foi ocupada por expoentes do nosso esporte olímpico. Agora, entregá-la a um leigo no assunto seria um desrespeito aos que têm credencial, um desprestígio à intelectualidade do esporte e um enorme retrocesso para o país que já sediou uma Olimpíada.

Politicamente falando, o governo repetiria erros de governos passados. Quando Lula assumiu o poder, em 2003, contemplou o PCdoB com o Ministério do Esporte. Os dirigentes comunistas sabem muito sobre movimentos de classes, lutas sociais, greves etc. Mas de esporte... Aos poucos, tornaram a pasta um reduto de cabos eleitorais e outros desocupados.

Com a chegada dos megaeventos, a partir do Pan-Americano de 2007, a corrupção ficou fora de controle naquela pasta, porque, com calendário e prazos esgotados, a ordem era concluir as obras de qualquer jeito. E assim foi. Quanto maior o atraso, melhor era a festa dos espertos. O TCU tem relatórios valiosos sobre isso. À época, os cargos eram ocupados por leigos, oportunistas, apadrinhados políticos que nada planejaram para o "depois das festas". Hoje, em decorrência de escolhas do passado, as dificuldades são enormes para os atletas, assim como seus clubes, confederações, etc. Tudo por falta de um plano pós-olímpico, que não foi feito porque ninguém entendia do assunto.

É preciso entender: uma coisa é o cargo ocupado por um dirigente esportivo capacitado; outra é o cargo oferecido ao pelego político. Na era PT e antes, inclusive, tivemos muito disso. Por exemplo, um deputado-pastor, George Hilton, tornou-se ministro do Esporte. Ele foi sincero quando, na posse, revelou que não entendia nada da pasta, mas conhecia tudo "de gente". Quantos anos perdemos com essa e outras aberrações?

Já no governo de Fernando Henrique Cardoso tivemos um deputado, Carlos Melles, como ministro do Esporte e Turismo. Melles era e continua sendo um bem-sucedido produtor de café. Que tal? Mais recentemente, a então presidente Dilma Rousseff nomeou um "agropecuarista" - o deputado Leonardo Picciani - para a pasta. Vou repetir: cafeicultor, agropecuarista e pastor que só entendia de gente foram ministros do Esporte!

Está claro que o novo governo herdou uma desordem institucional, a ponto de acabar com o ministério e criar uma secretaria do Esporte vinculada ao Ministério da Cidadania para tentar colocar ordem no setor. Porém, depois de quatro meses de atuação, ainda não temos uma equipe que nos garanta novos rumos.

Triste panorama, muito triste.

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