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O ininterrupto espetáculo de Messi

Lionel Messi comemora após marcar pelo Barcelona contra o Liverpool - Susana Vera/Reuters
Lionel Messi comemora após marcar pelo Barcelona contra o Liverpool Imagem: Susana Vera/Reuters
Claudio Zaidan

Claudio Zaidan é radialista há 44 anos. Em São Paulo, trabalhou nas rádios Jovem Pan e Trianon. Entrou na Rádio Bandeirantes em 1994, onde ficou por cinco anos. Voltou para Bandeirantes em 2001, onde atualmente é comentarista.

05/05/2019 04h00

Faz seis anos, ou talvez sete. Sei que, então, eu disse aos meus filhos: "Já vimos o máximo do futebol de Messi. Ele é um dos melhores da história e continuará jogando muita bola; mas não veremos ele repetir aquelas coisas extraordinárias que fez nos últimos anos".

Errei, está claro. Aconteceu algo parecido com Pelé: depois da Copa de 66, não faltou, na imprensa e nos botecos, quem dissesse que o 10 do Santos e do Brasil estava em irremediável decadência. Mas vieram os títulos: o brasileiro de 68, e o tricampeonato paulista de 67 a 69, e a Recopa Intercontinental de 68.

Em 69, Pelé marcou seu milésimo gol, além de jogar seu habitual e inigualável futebol na campanha só de vitórias feita pelo Brasil no classificatório para a Copa. Por fim, em 70, no México, foi o melhor jogador do Mundial e trouxe a Jules Rimet. A imprensa e os botecos lhe devolveram a coroa e o trono.

Também Messi teve de conviver com a desconfiança da crítica e do público. Também Messi desautorizou sentenças precipitadas. Foi assim com Agassi, Jordan, Sampras, Phelps, Serena, Bolt, Federer, Foreman, Ronaldo... Tem sido assim com Lebron James. O esporte é cruel. Uma fase ruim, um título perdido, uma contusão grave, e eis o diagnóstico implacável: "Decadência!". Diagnóstico implacável e furado.

E Messi segue impassível, jogando o fino da bola, banalizando os golaços, ganhando o Campeonato Espanhol, sendo artilheiro da Espanha e da Europa, estabelecendo recordes e dando ao Barcelona a chance de vencer, pela sexta vez, a Liga dos Campeões.

O Liverpool pode golear e ficar com a vaga; o Barcelona pode perder o título para o Ajax ou para o Tottenham; Messi pode se contundir, ou perder um pênalti, ou fazer uma partida ruim na decisão. São situações possíveis, mas nenhuma delas mereceria apagar o óbvio: desde agosto do ano passado, não há alguém no mundo, nem mesmo Cristiano Ronaldo, jogando futebol que se aproxime do que o argentino tem feito. A distância é tão grande que aquilo que ocorrerá na Liga dos Campeões e na Copa América dificilmente poderá evitar que Messi seja eleito o melhor do mundo neste ano.

Vejam este time do Barcelona: ter Stegen, Rakitic e Suárez são excelentes; Piqué voltou a jogar bem; Vidal, Arthur, Alba e Coutinho são bons jogadores; mas o título espanhol foi obra pessoal e intransferível de Messi. O título europeu é, por enquanto, apenas uma possibilidade; sem Messi, seria impossível. Só Deus sabe por quanto tempo Messi e Cristiano continuarão jogando tanta bola.

Não é fácil e nem simples construir carreiras assim. Dezenas de jogadores excepcionais ficaram no topo por três ou quatro anos; outros, também extraordinários, conseguiram mostrar seu melhor por não mais que duas temporadas. Messi e Cristiano Ronaldo, porém, fazem o mesmo e ininterrupto espetáculo há pelo menos treze anos. É possível que o façam até que parem de vez. Foi assim com Pelé.

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