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Antero Greco: Futebol no Brasil precisa de doidos

Na foto, o maluco beleza original, Raul Seixas - Reprodução
Na foto, o maluco beleza original, Raul Seixas Imagem: Reprodução
Antero Greco

Antero Greco

Antero Greco é paulistano do Bom Retiro, jornalista desde 74. Trabalhou no Grupo Estado, Diário Popular, TV Gazeta, Corriere Dello Sport (Roma), além de colaborações para Folha e TV Band. Entrou na ESPN em 94. Cobriu 11 Copas (7 no local).

17/05/2019 04h00

Caro amigo que bateu o olho nesta coluna, responda de primeira, sem vacilar: você curte futebol para divertir-se ou para ficar irritado? Como é?! A primeira opção? Eu também. Desde que fui colocado em contato com o joguinho de bola, ainda moleque de calça curta, no Bom Retiro, só busquei satisfação e alegria. Gritar gol é um dos prazeres da vida. Se bem que meu time já me deu cada tristeza que nem conto aqui para não chorarmos...

Bom, quero dizer que o cidadão normal associa o esporte bretão (essa é das antigas) a lazer, descontração, drible, ousadia - com pitada de organização e estratégia. Qualidades que fizeram fama e fortuna do futebol brasileiro durante décadas, e que lhe renderam cinco títulos mundiais, fora uma galeria de craques que vai de Leônidas da Silva a Ronaldinho Gaúcho, de Garrincha a Zico, de Ademir da Guia a Tostão. E de Rei Pelé, primeiro e único.

Histórias e personagens espetaculares, concorda? De dar inveja para gringo. Veja se italianos, franceses, espanhóis, ingleses, alemães produziram tantos astros. Nunquinha.

Parece que abandonamos a vocação para a arte de encantar plateias em troca da objetividade. Nos dias atuais, mais do que nunca, se repete o mantra de que equipe boa é a que vence, não importa como. Pode ser na retranca, com chutão, com cera, na base da catimba e do pontapé. Até com gol roubado! Vale tudo, em nome de três pontos. Vale mesmo?

Calma, não sou contra a eficiência; longe de mim. Seria um cara de pau se dissesse que jamais vibrei com uma vitória suada ou que veio nos pênaltis, depois de atuação chinfrim. Muitas vezes, foi o possível para o momento. Alívio e festa caminhando juntos.

Só que queremos mais - e isso é normal. Ou deveria ser. No futebol (na vida), quem empaca é passado para trás. Não adianta ser campeão hoje e cair amanhã. Difícil alcançar a glória, fácil despencar. A concorrência é forte; daí, a necessidade de um vencedor aprimorar-se.

A turma da Europa percebeu isso faz tempo; nós marcamos passo. Foi a época em que estávamos à frente ou, no máximo, em nível de igualdade. Os grandes e médios de lá se organizaram, fizeram ligas fortes, atraíram investidores. Com isso, ganharam dinheiro a rodo e saíram pelo mundo à cata do que há de melhor em talentos, dentro e fora de campo.

Não é por acaso que dominam as maiores competições - desde 2012 não perdem um Mundial de Clubes. Idem com seleções: nas últimas quatro Copas deram a volta olímpica Itália, Espanha, Alemanha e França. Repare que nem houve repetição de ganhador.

Por aqui, nos contentamos com modestas glórias locais ou regionais, uma ou outra Libertadores ou Sul-Americana, e olhe lá. Os elencos são recheados de promessas que logo batem asas, ou de atletas medianos ou de repatriados em final de carreira que ficaram sem mercado na Europa e na China. Dessa maneira, tocamos o barquinho do jeito que der.

Dou desconto enorme para a limitação das equipes domésticas, e louvo esforço de Palmeiras, Flamengo, Cruzeiro, Grêmio - para ficar em alguns exemplos -, na tentativa de se mostrarem acima da média. Gastam uma grana alta para não fazerem feio. Não é pouca coisa.

Também não torço o nariz para o trabalho dos treinadores. Não os considero um bando de incompetentes e enganadores, de acomodados e toupeiras. Muitos se viram como podem, sempre na iminência de perderem o emprego. A sobrevivência faz com que optem pela segurança; daí para o feijão com arroz sem tempero é um pulo pequeno. E dá-lhe mesmice.

Da mesma forma não adianta esperar guinadas drásticas de quem já tem muito tempo de estrada, com conceitos testados, aprovados e registrados. Abel, Mano, Felipão, Levir, Cuca, Luxa e tantos outros têm seus métodos e não abrem mão deles. No máximo, uma adaptada aqui, uma ajeitada ali, uma plástica acolá e... vamos à luta! Juro que os compreendo.

Restam os novos, com uma interrogação imensa. Vários despontam com potencial e de cara pegam times importantes. Passado o brilhareco, acumulam tropeços e vão perambular por agremiações pequenas. Outros se agarram a uma fórmula, tão logo obtêm algum sucesso, e se fecham num universo pessoal. Para eles, basta estar com mercado garantido. Sempre a lei da sobrevivência.

Inovadores são raros.

A bola está quicando por aqui, à espera de um "professor" revolucionário. Não precisa nem reinventar o futebol; bastará sair do lugar-comum. Mas sair com gosto, estilo e assinatura únicos. Precisamos de um maluco, maluco beleza, para chacoalhar a forma como se joga bola em nossa terra.

Para termos um Guardiola, um Mourinho (dos bons tempos), um Klopp, um Bielsa, são necessários outros "doidos" a dar-lhes suporte. No caso, visionários de cartola, que segurem a bronca e não se abalem com reações de espanto de jogadores, torcida e imprensa. Temos esses doidivanas? Não creio.

Por enquanto, ficamos apenas no sonho - e morrendo de inveja dos gringos que jogam mais do que a gente.

PS. Com esta crônica, inicio colaboração semanal no UOL Esporte. Desafio enorme, porém prazeroso. Quem não quer jogar num time que tem, dentre outros astros, Juca, PVC, os Mauros (Betting e Cezar), Menon, Renato, André, Perrone, Rodrigo? É muito craque num mesmo espaço! Só tocar a bola que o jogo flui fácil. Estamos nessa.

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