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Zaidan: Por política e contratos, Fifa e confederações prejudicam o futebol

Por política e contratos, Fifa e confederações prejudicam o futebol - Arnd Wiegmann/Reuters
Por política e contratos, Fifa e confederações prejudicam o futebol Imagem: Arnd Wiegmann/Reuters
Claudio Zaidan

Claudio Zaidan é radialista há 44 anos. Em São Paulo, trabalhou nas rádios Jovem Pan e Trianon. Entrou na Rádio Bandeirantes em 1994, onde ficou por cinco anos. Voltou para Bandeirantes em 2001, onde atualmente é comentarista.

23/05/2019 04h00

A Fifa anda bagunçando as coisas. E não está sozinha na empreitada, pois Uefa e Conmebol contribuem com suas trapalhadas. Faz semanas que tratamos deste assunto aqui, mas vale repetir: há um excesso de datas para os amistosos entre seleções, o que garante dinheiro fácil para federações nacionais e seus intermediários.

Diante do claro desinteresse do público por amistosos, a Uefa tenta resolver o problema com a tal Liga das Nações, um torneio insípido que só serve para atrapalhar os clubes. A Eurocopa, sim, é importante para federações, técnicos de seleções, jogadores e torcedores, tornando sem razão, e até nociva, qualquer outra competição entre os países europeus.

Na América do Sul, a Conmebol, sempre de olho na possibilidade de fazer bons contratos comerciais, desanda a inventar edições extraordinárias da Copa América: fez em 2015 e em 2016 (o Chile foi campeão nas duas) e repetirá a dose no mês que vem e em 2020. Tudo isso, é claro, sem diminuir o festival de amistosos entre seleções, para que as federações nacionais, com pouco esforço, ganhem muito dinheiro.

Não é difícil estabelecer um calendário internacional racional e adequado: torneios continentais de quatro em quatro anos; classificatórios para a Copa do Mundo, com autonomia para que cada Confederação escolha seu modo de disputa; e três ou quatro amistosos por ano. O que passa disso é ruim.

Por aqui, dadas as peculiaridades do calendário do futebol brasileiro, o prejuízo é maior. Os clubes que têm jogadores convocados para alguma seleção que disputará a Copa América estarão inapelavelmente desfalcados em algumas rodadas do Brasileiro; e alguns times ainda terão de jogar partidas decisivas da Copa do Brasil sem os convocados para o Torneio de Toulon.

O resultado é nada menos que uma interferência técnica da CBF em suas próprias competições. Dirigentes de clubes ensaiam uma ou outra reclamação, resmungam um pouco para os jornalistas, mas não vão além. A Fifa, por sua vez, não se limita a promover a festança de amistosos; antes, aposta no inchaço da Copa do Mundo como modo de garantir apoio político e de assinar novos e rentáveis acordos comerciais.

Gianni Infantino, presidente da Fifa, quer aumentar quantidade de seleções na Copa do Mundo - Rhona Wise/AFP
Gianni Infantino, presidente da Fifa, quer aumentar quantidade de seleções na Copa do Mundo
Imagem: Rhona Wise/AFP

O presidente da Fifa, cuja reeleição é praticamente certa (talvez até por aclamação), insistiu o máximo na ideia de 48 países disputarem a Copa já em 2022, no Qatar. Diante da incompatibilidade entre a capacidade física do país e um número inflado de participantes, articuladores tentaram convencer Omã e Kuwait a dividirem com o Qatar a organização do torneio e a recepção dos jogos, uma vez que Arábia Saudita e Emirados Árabes interromperam suas relações com o país que será sede do Mundial. Esforço inútil.

Nesta semana, ficou definido que a próxima Copa terá 32 seleções, até porque o governo do Qatar não concordava com o aumento. Infantino, é claro, não mudará seu plano, ou seja, dificilmente a Copa de 2026 escapará de ser disputada por 48 países. A qualidade técnica e a importância da principal competição do futebol mundial continuarão sujeitas a outras prioridades. É ótimo que Fifa e confederações ganhem dinheiro e façam bons contratos, mas não às custas dos clubes e da Copa do Mundo.

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