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Antero Greco: "Senhor juiz... pare agora!" Ou: quem precisa da pausa

REUTERS/Amanda Perobelli
Deyverson comemora gol do Palmeiras em jogo contra Avaí pelo Campeonato Brasileiro Imagem: REUTERS/Amanda Perobelli
Antero Greco

Antero Greco

Antero Greco é paulistano do Bom Retiro, jornalista desde 74. Trabalhou no Grupo Estado, Diário Popular, TV Gazeta, Corriere Dello Sport (Roma), além de colaborações para Folha e TV Band. Entrou na ESPN em 94. Cobriu 11 Copas (7 no local).

2019-06-14T04:00:00

14/06/2019 04h00

Como venho lá da metade do século 20, vira e mexe lembro de músicas do tempo da avó de muitos dos amigos que me leem. Essa frase do título é de um sucesso de Wanderléa, musa na época em que a moçada curtia a Jovem Guarda, já com Roberto Carlos como "rei". Sim, senhor, ele mesmo, que bate ponto na Globo há décadas na época do Natal. Até o tiozinho aqui andava na moda, com cabelo comprido, costeleta, camiseta rasgada e calça boca de sino. Eu era "uma brasa, mora".

Bom, sem fugir do tema, a Wanderléa pedia, na canção, para o juiz parar o casamento, porque amava demais o moço e não queria perdê-lo para outra. Um horror de música, mas que ficava na cabeça da gente! A prova é que, desde a chegada do VAR, não canso de cantarolar esses versinhos bregas, porém atuais. Sei lá, para qualquer dúvida durante um jogo, parece que a gente escuta alguém gritar dentro e fora do campo: "Senhor juiz, pare agora!"

Pois vocês repararam como os jogos ficaram truncados por causa da novidade? Ok, o VAR é recentíssimo, o mundo ainda aprende a como lidar com a engenhoca e ninguém quer fazer feio ou passar vergonha. Daí a cautela para analisar lances controvertidos. Tudo em nome da busca por justiça e transparência no joguinho de bola.

Mesmo assim, os erros ocorrem, como no pênalti escabroso negado em favor do Brasil nesta quinta-feira, no Mundial Feminino. A árbitra e a turma do VAR nem tomaram conhecimento do agarrão em Andressa, no finalzinho do jogo com a Austrália. Talvez a derrota por virada (3 a 2) pudesse ter sido evitada. Assim como errou a arbitragem num dos gols do Inter, na quarta-feira, nos 3 a 1 sobre o Bahia. E isso só pra ficar em exemplos fresquinhos.

Mas o que irrita, por enquanto, é a demora para a tomada de decisões. Deus do céu, fica-se numa conferência interminável por fones de ouvido. As torcidas se angustiam para saber se vão comemorar gol ou a anulação da jogada. Na quinta-feira, a gente viu isso em Atlético x São Paulo (o gol do Alerrandro) e em Palmeiras x Avaí (o gol do Deyverson). Perde até a graça gritar gols beeem depois.

Não sou da turma que vê o VAR com implicância. Acredito que, com lisura, pode evitar enormes distorções e impedir erros históricos. Só que, para cair no gosto popular e ter mais credibilidade, é necessário acelerar o processo de avaliação. E colocar profissionais com gabarito na salinha de tevê para ajudar o árbitro do campo. Não adianta mandar pernas de pau para pilotar o VAR, porque aí as lambanças continuarão e só vão irritar mais o público.

"Senhor juiz, pare agora!" serve também para muitos dos times que disputam a Série A. Tem uma turma que deve acender vela para os santos de devoção por causa da interrupção do Campeonato, a partir desta sexta-feira, para a disputa da Copa América. A pausa é bênção do céu, porque permitirá sair de cena um pessoal que tem passado sufoco.

Cito Corinthians, Cruzeiro, São Paulo, Athletico e Fluminense como o blocão de grandes que dão graças a Deus pela folga de quase um mês. Estão atônitos e em busca de prumo. Se os treinadores souberem aproveitar o tempo, haverá pelo menos como consertar erros.

Os corintianos esqueceram como chegar ao gol adversário. Fabio Carille é especialista em arrumar defesas, mas precisa fazer mágica para ressuscitar o ataque. Sete gols em oito jogos preocupam. Como dão calafrios as cinco derrotas e dois empates que deixam o Cruzeiro na zona de rebaixamento. Sem contar os 16 gols sofridos. O time de Mano Menezes (resistirá por muito tempo?) é o mais desnorteado até agora. Já deu adeus à briga pelo título.

Cuca não se achou ainda no São Paulo. Vá lá que a equipe só tem uma derrota; em compensação, empatou cinco vezes. É muito e está sem padrão. O ataque, um tiquinho melhor do que o do Corinthians, tem 8 gols.

Atlhetico e Fluminense se assemelham: têm propostas de posse de bola e jogo ofensivo. Mas sofrem gols à beça... O Furacão tomou 12, o Tricolor 16. Por isso, não decolam. Correm risco de apenas fazer figuração no torneio, ou de lutar contra situação pior.

A intertemporada (péssimo termo) só valerá, se de fato for aproveitada para ensaios, estudos, aprimoramento técnico e físico. Caso contrário, só vai servir para escancarar, lá adiante, incompetência de treinadores e elencos.

Copa América para quem?

E nesta sexta-feira começa o festival da América do Sul. O Brasil entra em campo contra a Bolívia como favorito e principal candidato ao título. Até aí é chover no molhado. Sempre (ou quase) a seleção está na lista de candidata em qualquer evento internacional. Em casa, então, tem obrigação de brilhar, como nas quatro edições em que já foi sede.

Se não houver uma catástrofe como aquela do Mundial de 14 - e não imagino outro 7 a 1 na história da "amarelinha" -, botar a mão na taça será normal. Porém, pergunto: e daí? Uma taça a mais servirá para quê? Servirá, sobretudo, para dar fôlego ao trabalho de Tite, mantido após a Copa de 18, mas já com alguma desconfiança.

Gostaria que a Copa América fosse um tremendo laboratório para o Mundial de 22, gostaria que os jogos fossem utilizados para a construção de uma equipe nova e forte. Isso, sim, é o que importa. Pelo visto, a prioridade é mostrar que "o Brasil é forte" e que Tite é o cara.

E, com isso, vem embutido o risco de nos iludirmos. Como aconteceu com conquistas anteriores, seja de Copa América, seja de Copa das Confederações. E a taça maior, aquela mais desejada, é a do Mundial. Essa é a joia; as outras não passam de bijuteria.

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