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José Cruz: Apesar do potencial, CBF ainda despreza o futebol das mulheres

Marta comemora gol do Brasil contra a Itália na Copa do Mundo feminina - Philippe HUGUEN / AFP
Marta comemora gol do Brasil contra a Itália na Copa do Mundo feminina Imagem: Philippe HUGUEN / AFP
José Cruz

José Cruz

José Cruz, jornalista, trabalha no gabinete do senador Romário

27/06/2019 12h00

A Copa do Mundo feminina chegou a marcar 32 pontos de audiência na Globo, ou seja, mais de 30 milhões de pessoas torcendo pelas mulheres. Para os especialistas em futebol, bom papo para discussões técnicas. Ou: a seleção feminina também atrai telespectadores, incentiva anunciantes, vendas, consumo e negócios.

Mas, com a eliminação da nossa seleção na derrota de 2 a 1 para a França, voltamos à realidade: o futebol feminino só mobiliza a torcida a cada quatro anos. No intervalo entre uma Copa e outra, sem competição oficial, nosso atraso é espetacular diante do mundo. Graças à Confederação Brasileira de Futebol, continuamos no subdesenvolvimento, apesar do expressivo crescimento das mulheres na prática esportiva em geral.

Em Jogos Olímpicos, por exemplo, elas representavam apenas 11% sobre o total de homens na competição em 1960. Nos Jogos Rio 2016 foram 45%. E assim é com o futebol feminino no Brasil, cada vez mais praticado nas escolas, principalmente. Mas faltam clubes e competições que incentivem o seu desenvolvimento ordenado.

"Durante muito tempo, as mulheres foram criadas longe do esporte, como se praticar esporte fosse algo eminentemente masculino. Isso está mudando, mas é uma realidade que precisa ser trabalhada", afirma Amir Somoggi, da Sports Value, em recente estudo sobre o tema.

Sobre a eliminação do Brasil do Mundial, Amir concluiu que, mesmo diante das dificuldades internas, há o que comemorar. "A população reencontrou nas meninas o amor pela seleção. Mas a modalidade ainda precisa ser trabalhada, pois se trata de um conteúdo com enorme potencial".

Segundo dados globais da empresa de pesquisa Repucom, as mulheres têm um enorme potencial como consumidoras esportivas.
"Infelizmente, em países em desenvolvimento, como o Brasil, esse processo ainda é lento, com baixa audiência do público masculino pelas competições femininas e ainda baixo interesse do público feminino por esporte, na comparação com o público masculino", diz o estudo.

O dinheiro aplicado no futebol feminino mundial ajuda a entender nossa situação. Entre as seis confederações internacionais, a Sul-Americana, onde se situa a CBF, está em penúltimo lugar em investimentos. Em 2018, a UEFA (União das Associações do Futebol Europeu) registrou US$ 99,1 milhões em investimento, já a Conmebol ofereceu apenas US$ 2,5 milhões, atrás apenas da OFC, da Oceania, com US$ 1,4 mi de investimento.

O balanço da CBF de 2018 reforça o seu desprezo pela modalidade: aplicou R$ 132,6 milhões na seleção masculina. Já a seleção feminina e as categorias de base (seleções sub-23, sub-21, sub-15 e sub-13) tem apenas R$ 36,6 milhões, média de R$ 7,2 milhões por equipe.

"A CBF torrou R$ 1,9 bilhão em despesas administrativas e com pessoal nos últimos 16 anos. Atualizado pela inflação esse valor ultrapassa R$ 2,7 bilhões", reforça Amir Somogi em seu estudo. E conclui: "Com esse dinheiro seria possível revolucionar o nosso mercado. O papel da CBF é o desenvolvimento do futebol, e não pagamento de salários fora da realidade e gastos administrativos sem qualquer retorno. O maior inimigo do futebol brasileiro é a CBF", concluiu o especialista.

É preciso lembrar que o dinheiro "torrado" em despesas administrativas e salários pode ajudar a esconder a corrupção. O relatório alternativo da CPI do Futebol de 2016, no Senado, mostra o caminho das pedras para essa e outras trapaças.

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