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07/04/2006 - 08h10

Nem Copa do Mundo faz cinema brasileiro "enxergar" o futebol

Lello Lopes
Em São Paulo

Divulgação

Denise Fraga expulsa Lima Duarte de campo em cena do filme 'Boleiros 2'

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O futebol enche a telinha da TV, mas a telona do cinema praticamente ignora o esporte. Além dos jogos ao vivo, é impossível hoje passar pelo intervalo sem ver um comercial ou uma promoção relacionada à Copa do Mundo. Já para assistir a um filme sobre futebol, o torcedor precisou de paciência em 2006. Apenas agora, a dois meses para o início da Copa, um filme sobre o esporte vai entrar em cartaz no circuito comercial brasileiro.

A estréia de "Boleiros 2 - Vencedores e Vencidos" nesta sexta-feira em São Paulo e no Rio de Janeiro (na semana que vem em Curitiba e Porto Alegre) é apenas um paliativo para um fenômeno que acontece desde o início da cinematografia nacional: a pouca atenção dada ao tema.

"Existe uma resposta genérica e outra estrutural para isso. A genérica é que nunca houve uma indústria de cinema que merecesse esse nome no Brasil. Se você pensar em Carnaval, vai chegar em três ou quatro bons filmes. Assim, quase todo tema tem tratamento capenga. A resposta estrutural é que é muito difícil capturar a essência do futebol. Você consegue reproduzir melhor uma partida de basquete ou futebol americano. No futebol, fica muito falso", analisa o jornalista Sérgio Rizzo, crítico de cinema da Folha de S.Paulo e colunista do UOL. "As tentativas todas ficam na superfície. Dá uma sensaçãozinha postiça", completa.

SUCESSO NOS CURTAS


Os filmes de curta-metragem tiveram uma sorte melhor quando trataram de futebol. E dois deles merecem destaque. "Barbosa", de 1988, e o indicado ao Oscar "Uma História de Futebol", de 1998. Leia mais

Rizzo usa como exemplo "O Casamento de Romeu e Julieta", filme de Bruno Barreto lançado no ano passado. Mesmo utilizando jogadores de verdade na cena em que Corinthians e Palmeiras se enfrentam no estádio do Pacaembu, as jogadas parecem muito coreografadas. "É muito falso", afirma.

O filme de Barreto, mesmo diretor de "O Que é Isso, Companheiro?", foi o que teve melhor público entre os longas-metragens brasileiros sobre o futebol lançado depois da chamada "retomada" do cinema nacional, a partir de 1994. Aproximadamente 970 mil pessoas foram ao cinema assistir à história de amor entre um corintiano e uma palmeirense.

O público do filme foi 51 vezes maior do que aquele que compareceu ao estádio do Morumbi para ver o polêmico empate de 1 a 1 entre Palmeiras e Corinthians há duas semanas, pelo Campeonato Paulista.

Já outros filmes da retomada tiveram público bem abaixo do esperado. "Boleiros - Era Uma Vez o Futebol...", de 1998, levou aos cinemas 60 mil pessoas. "Garrincha - Estrela Solitária", de 2003, teve um desempenho ainda mais decepcionante: 7.877 pessoas, público digno de um Madureira x Americano (aliás, os dois times levaram na semana passada ao Maracanã na decisão da Taça Rio apenas 7.433 torcedores).

PEQUENA PRODUÇÃO ESTRANGEIRA


A pouca atenção do cinema ao futebol não é um fator exclusivo do Brasil. Até hoje, nenhum filme sobre o esporte conseguiu ser um sucesso de crítica e público. A produção mais audaciosa é "Gol!", que conta até com um aval oficial da Fifa. O filme, lançado no ano passado, é o início de uma trilogia que mostra a ascenção de Santiago, norte-americano que deixa um bairro pobre de Los Angeles para tentar a sorte na Inglaterra.

Vários jogadores participam do filme, entre eles David Beckham, Raúl, Zidane, Alan Shearer, Gerrard e Kluivert. Entretanto, o ar de superprodução não impediu o filme de ser um fracasso nas bilheterias. De qualquer forma, os outros dois filmes da série estão programados para estrear em 2006 e 2007.

Outro filme de futebol lançado no ano passado foi o alemão "O Milagre de Berna", que usa como pano de fundo a vitória da Alemanha sobre a Hungria na decisão da Copa do Mundo de 1954, na Suíça. O filme, entretanto, não ficou muito tempo em cartaz no Brasil.

Pior aconteceu com "Hooligans" (foto), que tem no elenco o eterno hobbit Elijah Wood. A história do norte-americano que se muda para a Inglaterra e acaba envolvido com hooligans locais passou longe dos cinemas brasileiros. Apenas cópias em DVD foram disponibilizadas para o país.

Desempenho decepcionante também teve o documentário "Pelé Eterno", de 2004, que conseguiu cerca de 260 mil espectadores, bem abaixo do 1 milhão esperado pelos produtores. Entretanto, o filme é um sucesso de vendas em DVD. Como base de comparação, o filme brasileiro mais visto no ano passado foi "2 Filhos de Francisco", com 5,3 milhões de espectadores. O recorde do país ainda pertence a "Dona Flor e Seus Dois Maridos", também de Bruno Barreto, que em 1976 levou aos cinemas mais de 10 milhões de espectadores.

Ugo Giorgetti, diretor dos dois "Boleiros", acredita que existe uma pressão maior ao se fazer um filme de futebol. "Não dá para ignorar o fato de você ter 180 milhões de técnicos. Você precisa ser muito cuidadoso. E filmar cena de jogo é muito complicado, por isso tem pouca cena", explica.

O veteraníssimo ator Lima Duarte, que está na única cena de jogo de "Boleiros 2", tem outra explicação para a escassez de filmes sobre o esporte. "Acho que o brasileiro ama tanto o futebol que ele identifica qualquer coisa. Assim, cada um identifica o futebol como quer."

Para o historiador Sidney Ferreira Leite, autor do livro "Cinema Brasileiro - Das Origens à Retomada", o fato do cinema atrair pouco o público do futebol é que até hoje os filmes sobre o assunto não conseguiram mexer com o coração do amante do esporte.

"O público do futebol é diferente do público do cinema. E é difícil conseguir levar público de uma mídia muito popular (o futebol) para o cinema. "2 Filhos de Francisco" conseguiu fazer isso com o público de música sertaneja, mas o futebol ainda não conseguiu. Talvez o Mazzaropi (que realizou "O Corintiano", em 1967) tenha conseguido, mas a faixa de público dele coincidia com a do futebol", explica Leite.

O filme de Mazzaropi é até hoje lembrado como um dos melhores sobre o futebol no Brasil. O primeiro sobre o tema é "Campeão de Futebol", dirigido por Genésio Arruda em 1931, que tem no elenco craques da época como Feitiço e Arthur Friendreich. Desde então, a participação de boleiros em filmes sobre o futebol se tornou uma constante, que vão desde Leônidas da Silva em "Alma e Corpo de uma Raça", de 1938, a Sócrates, em "Boleiros - 2".

OUTROS FILMES SOBRE FUTEBOL
Futebol em Família (1939)
O Gol da Vitória (1945)
O Homem Que Roubou a Copa do Mundo (1961)
Garrincha, Alegria do Povo (1962)
Passe Livre (1974)
Asa Branca, Um Sonho Brasileiro (1980)
Onda Nova (1983)
Pra Frente Brasil (1984)
Uma Aventura de Zico (1998)
A Taça do Mundo é Nossa (2003)
Sócrates, aliás, brinca com a sua atuação. "Eu não interpreto a mim mesmo. Isso é um factóide. Eu interpreto um ex-jogador. É que fazer um ex-boleiro é pleonástico."

O jogador brasileiro que conseguiu maior sucesso no cinema, interpretando a si mesmo ou fazendo um outro papel, é o mesmo que teve o melhor desempenho no campo: Pelé. A primeira participação do Rei no cinema foi em "O Preço da Vitória", de 1959. Em 72, fez Chico Bondade, no filme "A Marcha". Sete anos depois, no papel dele mesmo, atuou no filme "Os Trombadinhas".

Outra participação bastante lembrada de Pelé aconteceu em 1986, quando ele foi goleiro em "Os Trapalhões e o Rei do Futebol". Mas o seu filme mais famoso aconteceu mesmo no exterior. Em 1981 ele foi uma das estrelas de "Fuga para a Vitória", dirigido por John Houston, que tinha o brucutu Sylvester Stallone como goleiro, o inglês Michael Caine como técnico e a participação de alguns outros jogadores, como Bobby Moore.

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