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31/05/2006 - 09h00

Torcedores do contra já preparam coro contra o Brasil

Ana Luisa Bartholomeu
Em São Paulo
Eles não estão contando as horas para a estréia do Brasil no dia 13 de junho. Também não compraram a camisa verde-amarela, corneta e fogos de artifício para curtir os jogos com a família e os amigos. Passam longe de rodinhas onde o tema em debate é o futebol. Não se sentem à vontade com o ufanismo aflorado dos brasileiros a cada quatro anos. Irritam-se com o fechamento de repartições públicas, bancos e comércio quando a equipe de Parreira entra em campo. E vão, sem pudor, torcer contra a seleção brasileira na Copa da Alemanha.

Arquivo Pessoal

Para desespero dos brasileiros, a gaúcha Roberta torce para os eternos rivais

Por mais estranho que possa soar tal afirmação, existe, em território nacional, uma parcela da população (mesmo que pequena) que odeia a Copa do Mundo ou torce contra os craques nacionais.

As razões para tal comportamento são muitas e de complexidades bem diferentes. Vão desde a indignação de alguns com a alienação decorrente do futebol frente ao caótico cenário político e social de nosso país até o simples fato de outros contrariarem a baderna e o fanatismo desenfreado de torcedores nas vitórias da seleção no maior evento esportivo mundial.

Renato Lima, de Natal, Rio Grande do Norte, é um "estranho no ninho". Diz ter vários motivos para não gostar da competição, entre eles, a convocação em massa de "estrangeiros" para compor o grupo que defenderá o Brasil.

"Eu não me sinto bem vendo as pessoas torcerem por um time no qual a maioria dos jogadores nem joga no Brasil e estão bem longe dos problemas que enfrentamos aqui. São um bando de hipócritas, falam que amam o Brasil, mas a conta bancária é o que fala mais alto", revolta-se Renato.

O jovem, de apenas 20 anos, não pratica futebol e nem tem um time de preferência. "Me sentia deslocado por não gostar de algo que 99% dos brasileiros gosta, até fundar uma comunidade anti-Copa em um famoso site de relacionamentos, que já está com 600 membros. Existem muitos como eu pelo Brasil afora", disse.

Se depender da minha torcida, o Brasil não passa da primeira fase da Copa

Renato Lima, estudante de Natal (RN)
Para ele, torcer contra o Brasil, mesmo que na surdina, é o melhor da festa. "Procuro não demonstrar a minha torcida contra a seleção. Mas quando fico sabendo que perdeu, eu não vou mentir que me dá uma satisfação muito grande!", conta, sem pudor.

Enquanto os olhos do Brasil estarão voltados para as 32 seleções que participarão do Mundial, Renato diz que vai ouvir música, pegar um cinema, ir a uma lan house (isso se abrirem no dia dos jogos!), qualquer outra coisa, menos assistir às partidas. "Quero que essa Copa acabe logo. Se depender da minha "torcida", a seleção não vai passar nem da 1ª fase".

Gilson Martins, de Vila Velha, Espírito Santo, também odeia Copa do Mundo, mas mais pelo estardalhaço que ela provoca do que pelo asco em relação à seleção. "Torci pelas seleções de 1982 e 1986, do saudoso e querido Telê Santana e a de 2002, de Luiz Felipe Scolari. Nas demais Copas, assumo que sempre torci contra o Brasil e não tenho vergonha de dizer isso".

Para Gilson, o bombardeio de informações da mídia sobre a Copa é alienante, além de equivocado. "A maioria acredita que a seleção brasileira é pentacampeã mundial, quando na verdade isso só seria possível se tivesse ganhado seqüencialmente cinco títulos, o que não é o caso", explica.

O publicitário se incomoda com o clima que paira no ar no período da competição. "As pessoas enfeitam as ruas de verde e amarelo num mutirão satírico, comemoram a vitória causando estardalhaço, como se todos fossem obrigados a compactuar com a bagunça. Depois, até o próximo jogo da "tal" seleção, somos bombardeados por televisão, rádio, jornal e outros periódicos com a mesma ladainha do jogo, pedindo para tirarmos nossas conclusões sobre lances duvidosos, verdadeiras discussões infundadas", diz.

Arquivo Pessoal

Eduardo torce contra o Brasil desde que se frustrou na Copa de 1990, na Itália

Por discordar de um consenso nacional, muitas vezes não é compreendido pela maioria das pessoas. "Alguns agem com indignação, outros com um misto de desprezo e raiva, pois na cabeça deles deve passar que eu não passo de um cara que quer destruir seus sonhos e colocar em terra o pouco de felicidade que eles têm ou terão por causa de uma competição quadrienal", teoriza Gilson.

Torcedor do Atlético Paranaense, Gilson disse que até assiste às partidas do Brasil. "Se eu disser que não vejo o jogo estarei mentindo. Assisto geralmente em casa, muitas vezes sozinho para não causar polêmica com meus comentários e torcida contra. Assim, se ganhar, não vou ter que conviver com um bando de babacas que vivem de pão e circo", diz, fazendo uma analogia à política do Império Romano, que consistia em oferecer aos romanos alimentação e diversão para que estes se esquecessem dos problemas sociais e não se rebelassem.

A assistente administrativa Luciana Gomes Tudeia, de São Paulo, acha que há uma supervalorização do futebol frente aos outros esportes. "Só falam de futebol, só incentivam futebol, só patrocinam futebol. Tem tantos outros esportes ai precisando de apoio...", diz, defendendo a tese de que há muita corrupção nesse meio, a começar pelo salário escandaloso dos jogadores.

"Eu passei a torcer contra o Brasil depois daquela mal-explicada derrota para a França, na Copa de 98. Sempre brinco que vou torcer para a Argentina, afinal, já que é para ser "do contra", que seja por completo", ri Luciana.

Assisto aos jogos do Brasil sozinho, pois se ganhar, não vou ter que conviver com um bando de babacas que vivem de pão e circo

Gilson Martins, publicitário de Vila Velha (ES)
Os vira-casacas

Eduardo Capellari, bancário, insiste que ninguém torce mais contra a seleção brasileira do que ele. Mas nem sempre foi assim. "A primeira vez foi na Copa de 94, pois fiquei frustrado quando o Brasil perdeu em 90 e decidi me revoltar dali em diante. O problema é que sou pé-frio, e foi só eu virar a casaca que os brasileiros acabaram com o jejum nos EUA", diz, afirmando que não conseguiu esconder a decepção com a conquista do tetra.

Situações embaraçosas não faltam no currículo do bancário. "Em 94, quando o Brasil venceu a Holanda por 3 a 2, assisti ao jogo num churrasco com uma camisa da Holanda por baixo da jaqueta. Quando a Holanda empatou o jogo em 2 a 2, tirei a blusa e comecei a torcer muito para o Brasil perder. Mas ai a seleção virou em 3 a 2, e eles (os amigos) me trancaram na varanda. Já em 98, apostei que o Brasil perderia e ganhei cerca de R$ 150. Com a grana, comprei uma camisa da França e fui trabalhar com ela. Ninguém falava comigo, e os que falavam, não eram nem um pouco cordiais", conta, achando graça.

No banco em que trabalha, foi organizada este ano uma vaquinha para o aluguel de um telão para a transmissão das partidas. "Quando vieram me cobrar, já deixei bem claro que vou torcer contra o Brasil. Eles falaram que tudo bem. Agora que me agüentem, porque eu vou gorar mesmo", conta.

O que mais irrita Eduardo na seleção é a postura dos jogadores, que são taxados e acabam acreditando que são celebridades. O fato de a Copa do Mundo coincidir com ano eleitoral no Brasil deixa ainda mais revoltado o que rema contra a maré. "Tenho medo que o Brasil ganhe a Copa, o povo se iluda e esqueça dos problemas que temos".

Arquivo Pessoal

Luciana achou mal-explicada a derrota do Brasil em 98: "Foi comprado".

Como se torcer contra já não bastasse, Eduardo ainda torce para a Argentina, principal rival do Brasil. "Sou um admirador do futebol argentino. Gosto do estilo raçudo e forte com que eles jogam. Além de achar, sem menor sombra de dúvida, que Maradona é muito melhor que Pelé", alfineta.

A gaúcha Roberta Santana, estudante de jornalismo em Porto Alegre, também torce para os hermanos e diz não ligar para as críticas que recebe. "Falam que eu sou radical e que estou querendo aparecer sendo diferente. Nem ligo, sou fiel ao que penso e torço contra mesmo".

Ela deixa bem claro que o papo não tem nada a ver com patriotismo. "As pessoas confundem que, pelo fato de eu não gostar da seleção, quer dizer que eu não goste do Brasil. O que não gosto é do excesso da mídia sobre os jogadores e a associação de que se o futebol vai bem, o Brasil está bem também. Estamos em plena guerra civil (referindo-se ao crime organizado no Rio de Janeiro e em São Paulo) e na televisão só passa coisa da seleção".

Do mais, ela não vê a hora da Copa começar. "Quero ver o Messi brilhar", diz confiante na recuperação do ídolo e contando que vai assistir aos jogos com amigos que também torcem pela Argentina. É, cuidado que a onda pode pegar!



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