UOL Esporte - Copa 2006UOL Esporte - Copa 2006
UOL BUSCA

18/06/2006 - 18h38

TVs brasileiras ensaiam e engrossam colônias estrangeiras

Rodrigo Bertolotto
Em São Paulo
Os cinco executivos australianos estão perfilados, o flash estourado na cara deles, o repórter da TV Globo já ensaiou as perguntas e respostas. Está tudo pronto para ir ao ar ao vivo mais uma daquelas batidas reportagens com as colônias no Brasil dos países presentes na Copa.

Rodrigo Bertolotto/UOL

Fotógrafos flagram empolgação australiana na hora do hino nacional

"Não vai entrar", grita, decepcionado, o repórter. O flash apaga, o cinegrafista abaixa a câmera, e os senhores com suas camisetas com bandeiras e cores do país da Oceania voltam para suas cervejas.

O local é o Kia Ora, pub de São Paulo com ambientação que mistura símbolos da Austrália (a trilha sonora de AC-DC, INXS e Men At Work, barman vestido de Crocodilo Dundee e bumeranges pendurados) e da vizinha Nova Zelândia (pôster com o time de rúgbi All Blacks e inscrições maoris nas paredes).

Já uma radialista busca a típica família dividida. Encontra. Márcio Borges, 18, nasceu na Austrália quando os pais migraram para lá e torce pelo empate. A irmã Evelin, 26, nasceu em São Paulo e quer a vitória brasileira.

A Copa do Mundo é um refúgio dos nacionalismos, e as TVs não cansam de arregimentar microcolônias e perturbar os gringos em sua torcida. É assim com os polacos de Curitiba, as mammas da Mooca, a alemoada de Blumenau, embaixadores africanos em Brasília, exilados argentinos no Rio, holandeses em Holambra, portugueses nas padarias e espanhóis de Salvador.

Rodrigo Bertolotto/UOL

Telão do pub é instalado ao lado de pôster da banda australiana AC-DC

Conseguiram até juntar uns dez migrantes de comunidades como a da República Tcheca e da Sérvia, em uma aglomeração engrossada por vários gaiatos brazucas.

O cúmulo, porém, foi a TV Globo colocar até o lendário cantor Jamelão (aquele que não gosta de ser chamado de puxador de samba) no meio da torcida da Costa do Marfim. Aliás, um evento montado para mostrar a torcida marfinense em São Paulo tinha apenas um senhor originário do país africano para repetir as mesmas respostas para seis canais (além da Globo, Record, ESPN, Rede TV, Bandeirantes e SBT fizeram fila para questioná-lo).

No jogo de estréia do Brasil contra a Croácia, foi a vez de invadir o Clube Croata, em São Paulo, pedindo a toda hora que o grupo de dança faça coreografia para a câmara. Já no pub inglês, o repórter da TV Globo ensaiava um coro de Rooney com os forasteiros, enquanto a equipe da TV Gazeta perseguia o corpo diplomático, que procurava assistir à partida entre Inglaterra e Paraguai em paz.

No pub australiano, não foi diferente. Os australianos se contraíam com a derrota, tendo ao fundo a maioria brasileira comemorando os gols. A cada gol, os flashes explodiam em seus rostos, mostrando a frustração contrastando com a euforia.

Rodrigo Bertolotto/UOL

Frequentadoras acompanham jogo e clientela do pub com modelitos sexys

"Gosto de futebol como críquete. No meu país, futebol é esporte de inverno, críquete se joga no verão", explicava didacamente o cônsul geral da Austrália em São Paulo, Mark Argar. Atrás dele, os brasileiros gritavam para Ronaldo. "Ele está tão gordo, que tem dobra até na nuca", gozou um torcedor.

Depois que o atacante dá assistência para o gol de Adriano, as críticas diminuem. "Vai, gordo lindo", berra uma garota. Um australiano tenta incentivar seu time: "Come On, Aussies".

O jogo termina, e as famílias australianas se retiram. Enquanto as TVs desmontam seus tripés e cabos, o DJ coloca uma música de outro orgulho australiano, a banda Midnight Oil.

O pub, com público de trintões e balzaquianas, volta a seu clima de "clube da paquera". O modelito, porém, é o patriótico sexy, com roupas justas em verde e amarelo. As garotas com calça justa, decote, cabelo chapinha e salto alto. Os rapazes com camisas baby look, gel e óculos no cabelo.

Rodrigo Bertolotto/UOL

Australianos deixam pub, com brasileiros ao fundo festejando vitória por 2 a 0

No meio da festa, o presidente da Câmara de Comércio Brasil-Austrália, Hélio Júlio Marchi, fica na porta e dá adeus aos executivos australianos, de empresas de fertilizantes até seguros.

No telão, Viduka dá uma entrevista pós-jogo. Ele também está no cardápio, com o hambúrguer Viduka (bacon, cogumelos e molho barbacue), outro chavão de Copa os pratos batizados com personagens do evento.

Quinta-feira tem mais, no jogo contra o Japão. Será a vez de invadir o bairro paulistano da Liberdade e as associações de imigrantes para mostrar nossos rivais por um dia.

SELEÇÕES