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Lito Cavalcanti


Quando a F-1 se contaminou pelo autoritarismo das decisões de escritório?

Sebastian Vettel tira placa de primeiro lugar do carro de Lewis Hamilton após GP do Canadá - @F1/Twitter
Sebastian Vettel tira placa de primeiro lugar do carro de Lewis Hamilton após GP do Canadá Imagem: @F1/Twitter
Lito Cavalcanti

Envolvido de diversas formas com o automobilismo desde o início dos anos 60, Lito Cavalcanti completa 50 anos de profissão como o jornalista de esporte motor mais publicado no Exterior.

10/06/2019 15h24

Na 57ª das 70 voltas, a notícia caiu como uma bomba e implodiu uma corrida que, até aquele momento, vinha sendo empolgante. Sebastian Vettel havia recebido um acréscimo de cinco segundos no seu tempo total, o que significava que, mesmo cruzando a chegada à frente do eterno opositor Lewis Hamilton, seria o segundo colocado.

O motivo da punição havia ocorrido nove voltas antes. De olho no consumo de sua Ferrari, o alemão cometera um deslize e saíra da pista na curva Quatro. Saiu com as quatro rodas, e isso lhe custou a punição. Ao retornar à pista, ainda sem controle total do carro, esterçando e contra-esterçando o volante para manter o carro na direção certa, Vettel fechou o que poderia ser a passagem de Hamilton.

Ao saber da punição, o comentarista da TV a cabo inglesa Sky Sports F1, ninguém menos que Martin Brundle, que disputou nada menos de 158 Grandes Prêmios nos anos 80 e 90, emendou de voleio: "Essa medida é uma desgraça para o esporte". Pouco antes, ao ver e rever a volta de Vettel à pista, ele fora conclusivo: "Seb não fez nada de errado".

Do alto de uma carreira que inclui 131 largadas na Fórmula 1 entre 1968 a 1972, o título de campeão de 1978 e a vitória nas 500 Milhas de Indianapolis de 1969, Mario Andretti foi incisivo: "A função dos comissários é punir movimentações flagrantemente desonestas durante as disputas mais intensas. O que ocorreu hoje no Grande Prêmio do Canadá não é aceitável neste nível do esporte".

Contido como costumam ser os britânicos, Nigel Mansell também expôs seu desacordo: "Muito, muito embaraçoso. Nenhuma alegria ao ver o desfecho desta corrida, ver dois campeões dirigindo brilhantemente e tudo acabar com um falso resultado".

Em que momento o esporte pelo qual enorme parte da população mundial se apaixonou assim que ele atingiu as telas da TV se contaminou pelo autoritarismo das decisões de escritório? Que são impostas sem que ao menos se ouçam os envolvidos, replicando um tribunal sumário, absolutamente inadaptado aos conceitos de justiça?

Foi uma saraivada de tiros em ambos os pés da estrutura burocrática criada pela FIA para controlar excessos introduzidos na Fórmula 1 pelas defesas excessivas de Michael Schumacher, ele mesmo um protegido do homem que, na época, dirigia a Ferrari e hoje dirige a FIA, o francês Jean Todt.

Responsável por momentos vergonhosos do automobilismo como o "hoje não, hoje não, hoje sim" imortalizado pela brilhante narração de Cleber Machado do GP da Áustria de 2002, em que forçou Rubens Barrichello a ceder uma vitória que lhe era de direito a Schumacher e causar uma vaia ululante, a primeira da história do esporte, Todt criou um colegiado de comissários à sua imagem e semelhança. Ao ponto de ontem ver repetida, sob a cena constrangedora do pódio canadense, o mesmo tipo de vaia furiosa que se ouviu em 2002.

São regras duras e distantes do que é, ou foi, o automobilismo. E ontem, sua aplicação cega e precipitada arruinou um pouco mais a percepção negativa que hoje assola as corridas de Fórmula 1. Infelizmente, exatamente na prova que poderia ter significado a virada de um ano que, antes mesmo de chegar à metade, já carrega a pecha de um dos menos atraentes dos últimos tempos.

Não se negue que a aplicação das regras foi perfeita, totalmente de acordo com o procedimento imposto aos comissários esportivos. Eles contam apenas com a imagem - não lhes chega uma única palavra da transmissão, dos rádios dos pilotos nem das equipes. Isso, inevitavelmente, leva ao questionamento dessas regras. Cabe aos comissários, de dentro de um escritório fechado ao mundo, decidir pela punição ou absolvição de um piloto sem dele ouvir uma única palavra? É quando prevalece o escritório sobre a pista, a burocracia sobre o esporte, o autoritarismo sobre o espetáculo.

Naquela 48ª volta, já com pneus gastos, tanto Vettel quanto Hamilton enfrentavam dificuldades. O inglês tentava controlar a altíssima temperatura dos freios, que já o preocupavam desde a largada - a televisão mostrou os mecânicos eliminando ar da tubulação de óleo do freio da roda dianteira esquerda. Vettel mantinha um olho atento no consumo de combustível - um motor que desenvolve mais potência também consome mais gasolina.

O fato é que dois pilotos, dois multicampeões, dois dos melhores de todos os tempos travavam, enfim, na sétima corrida, a batalha que todos aguardavam ansiosamente desde o começo de março, quando o empate entre esses dois mesmos pilotos deu um fim inconclusivo à pré-temporada.

Após uma surpreendente demonstração de força, quando obteve sua 56ª pole position superando Hamilton por dois décimos de segundo, Vettel dominou o início da corrida, disputada com os pneus médios que a Ferrari e a Mercedes escolheram para a segunda fase da prova de classificação e, assim, largar com pneus mais duráveis que os macios - mais uma tentativa de sanar uma mudança no sistema de classificação que nunca mostrou a que veio.

Já com os pneus duros, a situação de inverteu. Desfrutando de mais aderência, o inglês passou a assediar fortemente o alemão. A diferença, que com os pneus médios chegou a cinco segundos a favor de Vettel, caiu para apenas um segundo. Foi então que, queiram ou não, Vettel errou, dando início ao melée em que desaguou uma corrida até então memorável.

De tudo, restam perguntas incômodas para essa pobre Fórmula 1. Onde fica a competição na hierarquia de prioridades? Claramente abaixo de uma inútil tecnologia de motores que vem sendo continuadamente rejeitada pelas grandes montadoras - desmentindo o argumento de que elas se servem da F1 como laboratório.

Também abaixo de uma inadequada escolha de pneus que transfere do asfalto para os boxes os momentos mais importantes de uma corrida: o das ultrapassagens. Por largar com pneus duros, o holandês Max Verstappen, até bem pouco o piloto que levantava multidões, fez três ultrapassagens sobre carros claudicantes para subir do nono ao quinto lugar.

Chegou-se assim a uma Fórmula 1 em que os pilotos, ao invés de tirar tudo que seus carros oferecem, são obrigados a economizar pneus e gasolina. O limite de combustível é de pouco mais de 148 litros (110 quilos), e ainda há um limite de 100 quilos por hora no fluxo - ou seja, se em um minuto o fluxo de gasolina multiplicado por 60 (uma hora) exceder 100 quilos, fica caracterizada uma infração ao regulamento.

Quanto ao ocorrido na volta 48, queira-se ou não, tudo começou quando, mais uma vez, Vettel cedeu à pressão de Hamilton e errou - o inglês nada fez de errado. Mas isso não esconde que há precedentes que mostram a falta de critério nestas decisões. E para piorar a imagem da FIA, nas duas ocasiões, o beneficiado foi o mesmo Hamilton. Foi no GP de Mônaco de 2016 na saída da chicane. O inglês errou a freada na descida que sucede a saída do túnel e passou direto pela área de escape. Daniel Ricciardo o seguia de perto e tentou tomar a posição. Hamilton o espremeu contra o guard-rail sem a menor cerimônia e os comissários sequer reviram a cena.

Ao fim e ao cabo, me inclino a concordar integralmente com Toto Wolff. Ao comentar o incidente, o chefe da equipe Mercedes afirmou que não cabem censuras aos comissários, são pessoas honestas, com enorme conhecimento de seu trabalho. Engessados pelo protocolo, apenas aplicaram a regra. Mas ele, Toto Wolff, aceitaria de bom grado uma revisão dessas regras, algo que tornasse as corridas "um pouco mais perigosas, mais emocionantes".

Para mim, isso é uma verdadeira utopia enquanto a FIA permanecer sob a presidência do francês Jean Todt. Designado Enviado Oficial de Segurança nas Estradas, órgão da ONU, desde 2015, ele parece não aceitar a possibilidade de acidentes em Fórmula 1. Talvez por isso dê total apoio às medidas que sufocam a aura combativa dos pilotos, antes tidos como os legítimos herdeiros dos gladiadores...

Não é de hoje que Todt é acusado de submeter o esporte a seus próprios interesses. Foi ele o mentor da vergonhosa decisão de mandar Rubens Barrichello ceder o primeiro lugar a seu protegido Michael Schumacher no GP da Áustria de 2002, a primeira de uma sucessão de ordens de equipe descaradas e lesivas à melhor imagem da F1.

Em 1989, quando chefiava a equipe da fábrica Peugeot, ele decidiu quem venceria o Rali Paris-Dacar no cara ou coroa. Seus pilotos, o belga Jacky Ickx e o finlandês Ari Vatanen, empenhavam-se em um duelo que já fizera Vatanen capotar duas vezes. Inconformado com a decisão que favoreceu Vatanen, o belga imobilizou seu Peugetot 405 T16 a poucos metros da bandeirada e esperou que o vencedor escolhido pelo sorteio cruzasse a linha de chegada. Isso diante das câmaras do mundo todo. Todt não mostrou o menor constrangimento...

É essa a Fórmula 1 que se quer?

Lamenta-se que esses fatos tenham ofuscado a excelente atuação de Daniel Ricciardo e Nico Hulkenberg. Juntos, eles deram à Renault a rara alegria de ver seus carros largarem e chegarem entre os 10 primeiros. O australiano brilhando com o quarto lugar no qualify, foi o sexto na corrida depois de duelar por algumas voltas com a Mercedes de um Bottas um tanto apagado: Hulkenberg completando a festa com o sétimo lugar na largada e na chegada.

Também outra façanha digna de nota foi o nono lugar do tão mal cotado Lance Stroll. Depois de ter a nova versão do motor Mercedes danificada, teve de se classificar e correr com a versão anterior e mesmo partindo da penúltima fila, chegou à frente de seu companheiro Sérgio Perez, que já fez até pódio no Canadá, em 2012 e desde então é um sólido pontuador nessa corrida.

Outra conclusão irrefutável é que a Ferrari está em evolução. Não teve no Canadá tantas dificuldades com o aquecimento de pneus, por mais que isso possa (até deva) ser creditado à alta temperatura reinante por todo o fim de semana. O mesmo se pode esperar do clima e, portanto, dos pneus em Paul Ricard, onde, daqui a duas semanas, se disputará o GP da França.

Até lá muita água vai ter rolado por baixo da velha ponte da FIA - mesmo que não surja como provável qualquer mudança no resultado do Canadá. A Ferrari tem quatro dias para decidir se apela ou não da decisão que entregou à Mercedes a vitória que na pista foi sua. Motivados pelo progresso, pela vitória na pista e pelo que consideram injustiça, engenheiros, técnicos e pilotos da Ferrari chegarão à pista com uma motivação ainda não vista neste ano.

Não se espere menos da Mercedes, que provavelmente vai olhar com enorme preocupação a longuíssima reta Mistral. Ela já não tem mais os 1.800 metros de outros tempos, hoje são entrecortados por uma chicane, e chicanes não parecem prejudicar o desempenho da Ferrari. Pelo menos não prejudicavam até a 48ª volta do GP do Canadá...

Pelo mundo

Tony Kanan e Matheus Leist deram prosseguimento a mais desapontamentos na F Indy. A prova no oval do Texas, disputadas na noite de sábado, trouxe apenas o 16º lugar para o veterano Tony, último entre os que restaram na pista após quase duas horas de corrida. Matheus foi o primeiro a abandonar com problemas mecânicos. Um resultado que já se anunciava desde a prova de classificação, quando eles ocuparam a última fila no grid de 22 carros. Nada surpreendente para sua equipe, a A. J. Foyt.

Boas atuações dos brasileiros na segunda rodada do International GT Cup, disputada neste fim de semana em Spa, na Bélgica. Nas quatro corridas já disputadas, o carioca Thiago Vivacqua já se firmou como o melhor piloto McLaren no torneio. Líder da categoria Prata, junto com seu companheiro Marc de Fulgencio, ele se aproxima prova a prova do objetivo de integrar a equipe inglesa nas corridas internacionais de carros de Grã-Turismo. Quem também teve ótima atuação foi J. P. Mauro, que começou nas provas da Porsche Cup no Brasil e tem brilhando ao volante do Lamborghini Huracan Super que divide com Rodolfo Toni, outro produto da Porsche Cup nacional.

Na mesma pista, os brasileiros tiveram pouco a comemorar na quarta rodada da Euroformula, uma das poucas categorias no mundo que segue as regras da F3 tradicional. Christian Hahn levou um sexto e um quinto lugares e é o oitavo no campeonato; Guilherme Samaia foi 11º no sábado e não completou a etapa de domingo e está em 12º.

Por aqui, uma corrida emocionante da Stock Car - em que pese o estado lastimável do asfalto da pista de Londrina,. Vitória acachapante desde a pole position para Thiago Camilo na corrida inicial, resultado não menos admirável para Ricardo Maurício na segunda. Brilho intenso na segunda prova também para o jovem Bruno Baptista, segundo colocado, e Bia Figueiredo, que obteve seu melhor resultado na categoria com o quarto lugar. Bia marcou também a segunda volta mais rápida, apenas 18 milésimos do melhor tempo, registrado por Bruno. Daniel Serra e Rubens Barrichello completaram apenas uma das duas provas, ambos em posições secundárias, mas se mantêm na ponta do campeonato. Só que, agora, acossados por Ricardo Maurício e Thiago Camilo.

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