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Fórmula 1

Opinião: a maior perdedora do GP da Espanha foi a própria F1

Livio Oricchio

Do UOL, em Barcelona (Espanha)

12/05/2014 12h00

Há um perdedor maior que as equipes Red Bull e Ferrari, principalmente, no GP da Espanha, neste domingo no Circuito da Catalunha, por Lewis Hamilton e Nico Rosberg, a dupla da Mercedes, quase ter colocado uma volta de vantagem sobre todos os adversários: a própria F1.

É preciso muito desprendimento para aceitar a argumentação de alguns de seus profissionais, de que a mudança radical do regulamento foi importante. "Voltou a fazer da F1 o grande laboratório para a indústria automobilística, com a introdução dos carros híbridos, motor a explosão e motor elétrico", como argumenta o presidente da FIA, Jean Todt.

Não há o que discutir quanto ao oportunismo tecnológico da adoção das novas regras, ainda que o momento econômico seja o menos indicado possível. A questão que está sem resposta é o custo esportivo para a F1 de se rever tudo tão drasticamente como aconteceu.

Como explicar, por exemplo, que os carros se tornaram 4 segundos e 514 milésimos mais lentos do ano passado para este. É a diferença entre o tempo do pole position em 2013, de Nico Rosberg, com a Mercedes, e a marca estabelecida sábado por Lewis Hamilton, também com a Mercedes, o que dá mais peso ao fato. A média horária caiu de 207,6 km/h para 196,6 km/h, ou 11 km/h.

É mais embaraçante ainda para a F1 o fato de o monegasco Stephane Richelmi, da equipe DAMS, registrar 1min29s293, à média de 187,6 km/h, para ser o pole position da GP2, sexta-feira. O tempo o permitiria largar na 14.ª colocação no GP da Espanha de F1.

Sexta-feira, no Circuito da Catalunha, quando já nos treinos livres a diferença de tempo entre a GP2 e a F1 foi relativamente pequena, o presidente da Ferrari, presente no autódromo, comentou: "Nós fazemos sucesso na F1 desde a época em que a F1 era a F1 e não uma categoria de acesso, como a GP2, era mais veloz, como agora".

O apaixonado por automobilismo enxerga esses dados, de fácil constatação até. E mesmo os que apenas gostam de assistir às corridas, na TV ou das arquibancadas, estão refletindo sobre essa nova F1, em que tudo é diferente.

O tão decantado barulho, por exemplo, não existe mais. Em Barcelona, foi possível constatar sexta-feira, nas arquibancadas, quando a reportagem do UOL Esporte lá esteve, a indignação da maioria dos torcedores.

Mais: os modelos em uso não representam mais a elegância de linhas de outras épocas, sem que isso seja um ataque de saudosismo. Há incongruências relevantes entre as soluções do bico e do restante do conjunto. Parece um mosaico de soluções aerodinâmicas desconexas entre si e não uma obra harmoniosa, como tantos carros vencedores. Não é a F1? Então que haja também refinamento da forma. Em palavras rasas, os monopostos atuais são feios.

Há um fator que não aparece para o torcedor: o custo do brinquedo. Nunca na sua história a F1 foi tão cara. E poucas vezes tantas equipes enfrentaram dificuldades financeiras ameaçadoras como agora. Marussia, Caterham, Sauber, Lotus são times cujo futuro é incerto.

A lógica funciona contra a F1: exigir investimentos impensavelmente elevados, em especial diante do quadro da economia mundial, e apresentar um espetáculo que está demandando um esforço enorme dos fãs para compreendê-lo. Até agora não houve sucesso para os que pensaram o novo modelo.

A maioria dos torcedores não é capaz, e com fundamentadas razões, de estabelecer um benefício entre o que existe hoje na pista e o que está por vir, um dia, nos seus veículos de série. O slogan de que o atual regulamento contempla o futuro leva a parte importante das pessoas que se interessam pela F1 se entreolharem. O que será que desejam dizer com isso.

Esqueceram do show

Economia de material, redução de ruído, menos danos à atmosfera, eficiência energética, desenvolvimento de tecnologia... a torcida respeita. Mas e a qualidade do show? Simplesmente parece não ter sido levada em conta.

Por méritos, a Mercedes domina a competição e muito provavelmente será assim até o fim do campeonato. Somou até agora impressionantes 197 pontos dos 215 possíveis. O título de construtores está definido. É dela. O de pilotos, vai depender da capacidade de Rosberg enfrentar Hamilton. E as indicações não são positivas: o inglês venceu as quatro últimas. Nico foi apenas segundo. Não há alternância de vencedores.

É possível que em algumas etapas, como ocorreu no GP de Bahrein, em que entre eles haja um duelo emocionante.

Mas os ensinamentos do GP da Espanha quanto ao que esperar da participação de Red Bull e Ferrari na luta pelas vitórias não deixam nenhuma dúvida de que, com exceção de provas como a próxima, em Mônaco, nas demais a disputa vai se limitar a Hamilton e Rosberg. E ainda se o alemão se mostrar mais eficiente nas sessões de classificação.

A F1 voltou a conviver com a previsibilidade do resultado, algo abominável, e perigoso para os seus interesses, em qualquer atividade esportiva. Esse é mais um aspecto do formato de competição adotado. E, conforme exposto, sem perspectiva de que será diferente até o fim da temporada.

Felipe Massa
Felipe Massa
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Massa, um caso à parte

Para os brasileiros, o desempenho de Felipe Massa ainda não pode ser considerado comprometedor. Procede que na Austrália e na China fatores externos a sua capacidade de produção interferiram no seu resultado. Foi colocado para fora da pista na largada em Melbourne e a Williams errou no pit stop em Xangai.

Mas será que apenas fatores externos explicam os 22 pontos de diferença entre o obtido por ele e Bottas (34 a 12)? À distância, esse parece ter sido um erro de Stefano Domenicali, ex-diretor da Ferrari, na relação com Massa. O que chegava para fora da equipe era sempre uma reação de profunda compreensão com tudo o que Massa fazia na Ferrari.

Não é possível sentir em Massa aquela preocupação, essencial, de entender o que, de fato, é sua responsabilidade e o que é obra do acaso. Na maioria das vezes, sua interpretação das muitas dificuldades encontradas recorre mais à "sorte e azar" do que talvez a veracidade dos fatos, permitida pela análise fria dos acontecimentos.

O que acaba por levá-lo, às vezes, a repetir um comportamento que, comprovadamente, não o conduzirá a conquista alguma.

Um exemplo prático: estudar criteriosamente o posicionamento na pista, utilizando como base ocorrências de incidentes nas mais distintas situações, é uma forma de reduzir a possibilidade de envolvimento neles. Mas o histórico de Massa em incidentes é elevadíssimo. Será que todos são decorrência apenas da conjuntura da competição?

Este ano Massa dá indícios de que, de novo, poderá alternar desempenhos espetaculares, não ocorridos ainda, com outros sem expressão. Manter a regularidade de performance e preferencialmente de resultados num nível mais alto do que tem obtido nos últimos anos criaria nova perspectiva para os brasileiros que ainda não o condenam desmedidamente.

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