Fórmula 1

30 anos depois, "carrasco" de Senna explica interrupção de GP em Mônaco

Livio Oricchio

Do UOL, em Mônaco

26/05/2014 14h19

Ao mesmo tempo em que se discutia no paddock do Circuito de Monte Carlo, sábado e domingo, a disputa entre Nico Rosberg e Lewis Hamilton, dentro e fora da pista, grupos de profissionais da competição, jornalistas e até fãs da F1 nas arquibancadas lembravam o que se passou na mesma pista há exatos 30 anos. O GP de Mônaco de 1984 foi um dos mais controversos da história.

O diretor de corrida, o belga Jacky Ickx, tomou a polêmica decisão de encerrar a prova no fim da 32ª volta de um total de 76, alegando que a chuva expunha todos a elevados riscos. Ayrton Senna, na sua sexta experiência na F1, piloto da pequena equipe Toleman-Hart-Turbo, vinha ultrapassando os adversários um a um (havia largado em 13.º) e na volta em que Ickx terminou a corrida deixou Alain Prost, da McLaren-Porsche-Turbo, para trás, na reta dos boxes, para assumir a liderança. A F1 passara a conhecer melhor aquele jovem dotado de imenso talento.

Mas como nos casos em que a competição é encerrada antes da hora o que vale é a classificação da volta anterior à da bandeira quadriculada, Alain Prost ficou com a vitória e Ayrton Senna, a segunda colocação. A sequência do campeonato viria, contudo, aplicar uma peça em Alain Prost. Perdeu o título para Niki Lauda, seu companheiro, por apenas meio ponto, 72 a 71,5. 

Como Ickx decidiu dar a bandeira quadriculada antes de completados 75% do GP, os pilotos receberam a pontuação pela metade. O francês ficou com 4,5 em vez dos 9 do primeiro colocado. Mas se Ayrton Senna fosse o vencedor, Alain Prost o segundo e a corrida tivesse seguido até a volta 57 (75% de 76), o francês teria recebido 6 pontos. E teria, assim, hipoteticamente sido o campeão do mundo de 1984, o seu primeiro título.

Hoje, 30 anos depois, a decisão inédita de Ickx ainda repercute, principalmente entre os fãs de Ayrton Senna, desgostosos. 

Ickx foi um pilotos mais completos de todos os tempos. Duas vezes vice-campeão do mundo na F1, em 1969, pela Brahham-Ford, e 1970, Ferrari, disputou 116 GPs de 1966 a 1979. Obteve 8 vitórias, 25 pódios e 13 pole positions. Ickx era considerado um ás na chuva.

A versatilidade de Ickx é impressionante. Além do sucesso na F1 ganhou nada menos de seis vezes a lendária 24 Horas de Le Mans, pilotando diferentes carros, Ford GT40, Mirage GR8 e Porsche 936, além de ter sido campeão do rali mais difícil do mundo, o Paris-Dakar, na edição de 1983, com Mercedes. 

Sábado, esse notável piloto, hoje com 69 anos, recebeu o repórter do UOL Esporte no seu luxuoso apartamento no Hotel Hermitage, em Mônaco, e pela primeira vez para a imprensa brasileira respondeu a todas as questões que, provavelmente, milhares de fãs de Ayrton Senna ou mesmo da F1 gostariam de lhe fazer. 

Sem se esquivar de nada, Ickx fez declarações surpreendentes, como a de que Ayrton Senna, anos mais tarde, no jantar oferecido pelo príncipe ao vencedor do GP de Mônaco, disse-lhe que, "mais maduro", apoiava a sua decisão em 1984. 

UOL - Ickx, o que primeiro lhe vem à mente, hoje, 30 anos depois, quando você se lembra do GP de Mônaco de 1984? 

Ickx - Não sei o que você deseja abordar. 30 anos? É incrível.

UOL - A sua decisão de terminar a corrida gera comentários até hoje, essa é a questão. Há elogios, mas principalmente críticas.

Ickx - Que tipo de críticas? 

UOL - Dizem que não foi justo. Ayrton Senna havia acabado de ultrapassar Alain Prost, era o líder, e bem naquele momento você decidiu acabar a corrida, o que acabou por dar a vitória a Alain Prost.

Ickx - Eu dou risada disso. Sua pergunta representa exatamente o mesmo sentimento de um torcedor de futebol discutindo a decisão de um juiz em favor de um ou outro time. E isso me faz rir. Situações semelhantes acontecem todo domingo nos jogos. O que mais me impressiona nessa história é que 30 anos depois ainda o incomoda.

UOL - Desculpe, estou aqui como jornalista, a minha opinião não tem a menor importância. Represento o interesse de milhares de interessados em saber exatamente o que se passou naquele dia.

Ickx - Quando digo você quero dizer os brasileiros, os fãs de Ayrton Senna. É um reação típica de torcedor. Já aqueles que apoiam Alain Prost adoraram a minha decisão no primeiro momento. E o que dizer dos que estavam lá torcendo por Bellof, ainda mais rápido que Ayrton? [Nota: o jovem alemão Stefan Bellof corria pela Tyrrell-Ford-Aspirado, havia largado em 20º e seu talento associado à vantagem proporcionada por um motor aspirado para aquelas condições de pouca aderência o fazia ser o piloto mais rápido na pista, ao lado de Ayrton Senna.]

 O que se passou naquele GP tem de ser visto de maneira totalmente diferente. O esporte a motor mudou a partir daquele episódio. Naquela época, a filosofia que orientava os diretores de corrida de qualquer competição era, não importa a condição, de que a prova deveria ser realizada e seguir até o fim, duas horas mais tarde. Todos sabiam disso. Não adiantava irmos discutir com o diretor, lembrar dos riscos, aquela era a regra e pronto. Parte da glória dos grandes talentos desse período vinha daí, o elevado perigo de seu esporte gerava alto interesse e admiração da torcida. [Nota: O repórter tenta fazer uma colocação e Ickx solicita para seguir falando.]

Os pilotos fazem o que gostam, escolheram ser piloto, sabem que é perigoso. Estão lá para vencer, lutam para dispor do carro mais rápido, ser o melhor. E nesse âmbito todos perderam o ponto principal do que aconteceu aqui em Mônaco em 1984.

UOL - Você poderia explicar melhor?

Ickx - O importante naquela corrida não era saber quem seria o vencedor, se Ayrton Senna, Alain Prost ou Stefan Bellof, eu não estava interessado nisso. Como diretor da corrida, o ponto era não vê-los acabar no guard-rail, não se ferir, o ponto era sua sobrevivência. A única coisa que você tem de ler é que, pela primeira vez na história, alguém se preocupou em tomar uma decisão que inaugurou uma nova era. Desejar saber apenas quem seria o vencedor do GP representaria ter uma visão muito estreita. A vida de um piloto teria de ser mais longa, o que não era o caso até então. Em Mônaco, em 1984, pela primeira vez o diretor teve a coragem de acabar uma corrida antes do fim por causa de as condições não serem apropriadas, mas perigosas para todos. E na chuva eu sei o que estou falando. [Ickx se entusiasma com o tema segurança nas pistas e resgata outras iniciativas históricas lideradas por ele.]

Fiz algo semelhante em Le Mans. Tínhamos um tipo de largada muito glamorosa, o piloto saía correndo, entrava no carro e, sem ter tempo para colocar o cinto de segurança, estava segundos depois a 300 km/h. Disse que o importante não era manter o charme daquela largada, mas que as corridas em Le Mans também permitissem que o piloto estendesse o seu tempo de vida. A vida é bela. 

UOL - De fato a segurança evoluiu muito no automobilismo.

Ickx - Sim, mas é uma utopia acreditar que existe 100% de segurança. Jackie Stewart (ex-piloto três vezes campeão do mundo, 1969, 1971 e 1973) e Jean Marie Ballestre (ex-presidente da Fisa, o então braço esportivo da FIA) mudaram bastante o automobilismo nos anos 70. Tudo começou a ser revisto, os carros, os equipamentos, os circuitos, mas a filosofia da direção de corrida se manteve. Você é piloto, portanto aceita competir em qualquer condição. Mônaco 1984 mudou isso, para o bem da F1. Amo a minha decisão, tenho orgulho dela. Não me importo com os comentários que ainda fazem.

UOL - Dentre as suspeitas que sua decisão gerou em muitos fãs está a de que Alain Prost é francês, vocês falam a mesma língua.

Ickx - Desculpe, sou belga. Adoro Alain Prost, Ayrton Senna, não me importo se o piloto é francês, brasileiro. Vejo-os como um juiz deve vê-los. Faço os meus julgamentos e tomo as decisões, agrade-os ou não. A única coisa que digo é que hoje, 30 anos depois daquele GP aqui em Mônaco, ainda me fazem perguntas sobre favorecer esse ou aquele em vez de se apegarem ao que, de fato, ocorreu de importante naquele dia, a mudança no padrão de segurança.

UOL - Ickx, a entrevista é, como disse, uma oportunidade de esclarecer muitas histórias que sua decisão provocou. Como por exemplo de que você era piloto contratado da Porsche, na época, e a McLaren de Alain Prost competia com motor Porsche. O que diz?

Ickx - (Risada longa e alta) Deixe as pessoas dizerem o que quiser. Eu nem lembrava que o motor da McLaren era Porsche. Os que pensam dessa maneira realmente não me conhecem. De novo, vamos nos ater ao que interessa de verdade. Cada área das muitas que compõem o automobilismo passou por profundas mudanças quanto à segurança e desde 1994 não tivemos mais mortes. A segurança passou a ser pensada globalmente. Para um piloto morrer hoje é preciso uma fatalidade.

UOL - Outra coisa que se ouve de milhares de torcedores e até mesmo no paddock da F1 é que Jean-Marie Balestre teria interferido na direção de corrida, ou seja, teria influenciado sua decisão.

Ickx - Por que você usa a expressão milhares de pessoas se é você que quer saber? Ok, você representa milhões de fãs, admiradores de Ayrton, o piloto favorito dos brasileiros. 

UOL - Ickx, como comentei antes, a minha leitura dos acontecimentos é irrelevante. Estou fazendo as perguntas que seriam direcionadas a você se, por exemplo, aceitasse participar de uma entrevista coletiva. Acredito que as questões básicas não fugiriam do que lhe pergunto nessa conversa.

Ickx - Balestre não tinha nada a ver comigo. Ele estava em conflito com o Automóvel Clube de Mônaco - AMC [Ickx representava na prova o AMC]. Eu tomei a decisão sozinho. Hoje é diferente. [As decisões são colegiadas. Há um diretor de prova e três comissários desportivos, dois indicados pela FIA e um da federação local] No primeiro momento, lá na torre, as reclamações que chegaram foram do porquê de eu ordenar a bandeira quadriculada em vez da vermelha, o que permitiria, depois, a corrida ser reiniciada. Ocorre que tínhamos a projeção das condições do tempo e elas não iriam melhorar, não seria possível correr naquela condição mesmo 30 minutos mais tarde. [A largada já havia sido adiada por 45 minutos em razão de a chuva estar mais forte]

Ickx faz uma pausa, direciona o olhar para o repórter mais profundamente, expressão de recriminação, e pergunta:

Por qual razão vocês quer saber tudo isso e em detalhes? Tenho a sensação de estar respondendo a um inquérito sobre aquele GP, 30 anos depois. Repito: o importante naquele dia foi não ter nenhum piloto, comissário ou espectador ferido.

UOL - Você deixou de ser diretor de provas depois do GP de Mônaco de 1984. Por qual razão?

Ickx - [O desconforto do ex-piloto belga com o jornalista torna-se ainda mais evidente] Eu não deixei de ser diretor de prova. Segui sendo por mais 20 anos, trabalhei aqui mesmo em outras ocasiões. Não sei de onde veio essa notícia. Neste livro mesmo [havia um próximo de Ickx, que fazia uma retrospectiva do GP de Mônaco] está escrito isso. É falso. E nunca você ouviu que favoreci esse ou aquele piloto nesses anos todos e não fui banido de ser diretor de prova como escrevem. 

UOL - Com a experiência impressionante de piloto de grande sucesso que você tem, em várias categorias, passou por alguma situação em que discordou da decisão do diretor de prova?

Ickx - Não. Naquela época era amadores se comparado ao que se faz hoje no automobilismo.

UOL - Há algo que você gostaria de dizer sobre o GP de Mônaco de 1984 e não abordamos?

Ickx - Sim. Você está aqui em nome de milhares de fãs de Ayrton Senna, brasileiros principalmente. Mas ele tinha admiradores não apenas no Brasil. Na Bélgica, por exemplo, também. Eu digo que quando alguém é especial como Ayrton Senna e morre como ele morreu, acaba por se tornar uma lenda. Mas, no seu caso, se tivesse sobrevivido, se estivesse vivo hoje, continuaria sendo uma lenda. Não é o piloto que o faz tão especial para o público, mas o homem. Qual o significado de se ter talento, e Ayrton Senna era o mais talentoso, se você não é uma grande pessoa? Só o talento te faz passar pela história, não permanecer. Ayrton Senna tinha uma visão mais profunda do que é a vida, mais ampla, humana. 

Ickx se entusiasma com o discurso, resgatar o personagem Ayrton Senna parece sensibilizá-lo.

O que mais caracteriza os homens que praticam o automobilismo? A valorização do seu ego, do individualismo. Posso falar por mim, nesse sentido, você é jovem, em geral sua leitura do que faz é pequena, restrita, focaliza seu interesse no que sonha, tenta conseguir e não olha em volta. A diferença do Ayrton Senna era essa, ele ia além de ter talento como piloto.

UOL - Vocês se encontraram muitas vezes depois do GP de Mônaco de 1984, como foi?

Ickx - Ah... Anos mais tarde, fui a um dos jantares oferecidos pelo príncipe a Ayrton Senna por ter vencido o GP de Mônaco. Acabamos sentados na mesma mesa. Eu bem em frente a ele, próximos. Conversamos bastante, nos tornamos amigos. Sabe o que ele me disse? Que a minha decisão, em 1984, foi correta. Você vê como são as coisas, não? Como estreante em Mônaco, naquele ano, posso compreender sua frustração, chegou perto da vitória, mas com o tempo a pessoa cresce, amadurece e passa a ver as mesmas coisas de forma diferente. 

Ickx dá uma pausa e diz ao repórter, depois de lembrar o que Ayrton Senna lhe disse:

Portanto, desculpe, mas não foi como você e os milhares de fãs que representa pensam.

O repórter do UOL limitou-se a responder novamente que estava lá como jornalista. Entrevista encerrada, o clima ficou rapidamente menos tenso o que deu margem para manter breve conversa sobre outros temas e combinar novo encontro no paddock do circuito, no dia seguinte.

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