Fórmula 1

Uma das maiores polêmicas da F-1 completa 15 anos ainda com mistérios

Diether Endlicher-12.mai.2002/AP
Schumacher empurra Barrichello para o primeiro lugar do pódio no GP da Áustria de 2002. Brasileiro ficou em segundo após frear a poucos metros do final e deixar Schumacher vencer a prova depois de ordem da Ferrari Imagem: Diether Endlicher-12.mai.2002/AP

Julianne Cerasoli

Do UOL, em Barcelona (ESP)

12/05/2017 04h00

Um dos episódios mais polêmicos da história da Fórmula 1, envolvendo Rubens Barrichello e Michael Schumacher, completa 15 anos nesta sexta-feira ainda cercado de mistério. Após o brasileiro fazer a pole position e dominar o GP da Áustria de 2002, o comando da Ferrari ordenou a inversão de posições - com direito a ameaças, de acordo com o brasileiro - e gerou uma saia-justa tão grande que o alemão chegou a colocar o companheiro de equipe no lugar mais alto do pódio para cessar as vaias que marcaram a cerimônia.

Para o torcedor brasileiro, é inevitável não lembrar da narração de Cléber Machado, da TV Globo, sobre o fato. Após lembrar que o evento era realizado no Dia das Mães no Brasil, o narrador disparou: "Vem Barrichello, encosta o Schumacher. Eles vão para a última curva. Foi na última curva do ano passado. Hoje, não! Hoje, não! Hoje, sim! Hoje, sim?", antes de resumir o sentimento em uma frase: "É inacreditável". 

Machado fez referência a ordens da Ferrari feitas em 2001, quando o brasileiro era o segundo colocado do GP austríaco, logo a frente de Schumacher. Após a última curva, Barrichello reduziu e foi ultrapassado pelo alemão, que lutava pelo título na ocasião. "Deixe Michael ultrapassar pelo campeonato, Rubens, por favor", disse Jean Todt, então chefe da equipe. Os pontos obtidos a mais ajudaram Schumacher a conquistar o Mundial.

As ordens de equipe sempre fizeram parte da história da F-1, mas alguns detalhes tornaram o episódio de 2002 diferente. Era apenas a sexta etapa de um campeonato totalmente dominado pela Ferrari. Schumacher liderava com 44 pontos e Juan Pablo Montoya era o segundo, com 23, o equivalente, na época, a mais de duas vitórias de vantagem. Barrichello tinha seis pontos. Bem diferente de 2001, quando o GP austríaco foi realizado em setembro, na parte final da temporada.

O brasileiro ouviu a primeira ordem na volta 63, logo após a segunda rodada de pit stops, e questionou a decisão via rádio até deixar Schumacher passar na 71ª e última volta. Segundo o então diretor técnico da Ferrari, Ross Brawn, isso aconteceu justamente pela diferença dos dois pilotos da Scuderia na pontuação. “Se ambos estivessem na luta pelo campeonato e em igualdade de pontos, não teríamos tomado a mesma decisão.”

Ameaça
Quando o episódio completou 10 anos, Barrichello revelou à Playboy que recebeu uma ameaça após se negar a cumprir a ordem por algumas voltas. "Foram oito voltas de guerra. É muito raro eu perder a calma, mas, naquele rádio, saiu gritaria. Fui até o final, até a última curva, falando que não ia deixar ele (Schumacher) passar. Até que eles (Ferrari) falaram algo relacionado a alguma coisa mais ampla, não era contrato. Era uma situação que deixou no ar. Eu não posso contar o que eles falaram, mas foi uma forma de ameaça que me fez refletir se eu teria de repensar a minha vida, porque o grande barato para mim era guiar", disse.

O brasileiro não revelou do que se tratava, mas, anos antes, quando o jornalista Lemyr Martins publicou em seu livro "Histórias, lendas, mistérios e loucuras da Fórmula 1" o suposto diálogo, que citaria a mãe do piloto, Barrichello disse se tratar da “coisa mais hilária que já li nos últimos tempos.”

A Ferrari, por sua vez, não quis se aprofundar nas acusações de Barrichello e disse por meio de comunicado que “não faz sentido desenterrar o passado. Sabemos como as coisas aconteram e Rubens também sabe.”

Justificativa
Na época, Ross Brawn disse que Barrichello vinha liderando a prova porque seus pilotos “não estavam disputando” e justificou a ordem pelo “medo de perder” da Ferrari, após mais de duas décadas de fila entre 1979 e 2000. Porém, desde que chegara ao time italiano, Schumacher nunca tivera um início tão forte quanto naquela temporada, e tal campanha ficaria marcada como uma das mais dominantes da história.

“Posso entender isso”, disse Brawn sobre as críticas justamente devido à vantagem que a Ferrari tinha. “Mas as pessoas estão julgando um campeonato antes dele ser vencido”, disse na época. “Não estamos julgando assim. Michael quebrou a perna em 1999. Qualquer coisa pode acontecer em um campeonato, não queremos dar sopa para o azar.”

Brawn disse ainda que Barrichello entendia a situação. “Ele acabou de assinar um contrato novo, está ciente [o anúncio seria feito alguns dias após a prova]. Se ele começar 2003 com 44 pontos de vantagem depois de cinco corridas, vamos fazer com que ele vença corridas da mesma maneira.”

Essa chance, porém, nunca se tornaria realidade. Em 2002, a Ferrari teve um de seus melhores anos na história, conquistando o Mundial de Construtores com 221 pontos, contra 92 da Williams. Entre os pilotos, Schumacher triunfou com 144, enquanto que Barrichello terminou na segunda posição, com 77. Quando já estava com o título assegurado por antecipação, inclusive, o alemão retribuiu o favor da Áustria no GP dos Estados Unidos, deixando Barrichello vencer nos metros finais da corrida.

Multa
A Federação Internacional de Automobilismo, contudo, não gostou do ocorrido e condenou por meio de nota oficial “a maneira como as ordens de time foram dadas e executadas" e impôs uma multa de US$ 1 milhão a Schumacher, Barrichello e à Ferrari “por não respeitarem a cerimônia tradicional no pódio.”

Para a temporada seguinte, as ordens de equipe foram banidas, mas nunca deixaram, efetivamente, de acontecer, até que outro episódio envolvendo a Ferrari - o GP da Alemanha de 2010, quando Felipe Massa deixou Fernando Alonso - fez com que a FIA desistisse de punir esse tipo de prática. Atualmente, tais acontecimentos são julgados pela regra que pune quem “prejudicar a imagem do esporte.”

No fim daquele ano, a Ferrari comemorou os títulos do Mundial de Construtores e Schumacher triunfou no de pilotos com 144, enquanto que Barrichello terminou na segunda posição, com 77. Em setembro de 2002, no GP dos Estados Unidos, em Indianápolis, o alemão retribuiu o "favor" ao parceiro e trocou de posição com o brasileiro nos metros finais da corrida, abrindo mão da vitória. Naquele momento, o quinto título da carreira do piloto germânico já estava assegurado.

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