Fórmula 1

Conheça a engenheira de 27 anos que vem roubando a cena nas táticas da F-1

Divulgação/Sauber
Estrategista da Sauber, Ruth Buscombe Imagem: Divulgação/Sauber

Julianne Cerasoli

Do UOL, em Londres (ING)

19/06/2017 07h07

Ela vê um desafio de engenharia em tudo. “Um grande treino é acertar o rímel nos dois olhos no menor tempo possível!”, diz a chefe de estratégia da Sauber, Ruth Buscombe. “Os homens nunca vão saber o nível de pressão que isso causa.” A brincadeira é um bom exemplo da paixão que a britânica de 27 anos tem pela profissão - e ajuda a explicar seu sucesso em tão pouco tempo, e de quebra em um mundo tão masculino como o da Fórmula 1.

“Tomara que sejam as estratégias que estejam chamando mais a atenção! É claro que você quer ser julgada pelo que você faz em seu trabalho. Queria ser conhecida por isso: por ser uma boa estrategista ao invés de chamar a atenção por ser uma mulher ou jovem para minha posição”, disse a engenheira em entrevista exclusiva ao UOL Esporte.

Mas é difícil ignorar a precocidade da engenheira, que começou a se envolver com o mundo da Fórmula 1 por meio dos projetos que desenvolveu na faculdade. Conhecendo pessoas do meio, acabou fazendo parte do grupo de engenheiros que desenvolveu a asa traseira móvel, em 2010, quando tinha 20 anos.

De lá, foi pinçada para a Ferrari, onde passou a trabalhar na simulação de estratégias e chegou a ser a responsável pelas táticas do carro de Kimi Raikkonen antes de dar o passo seguinte, indo para a Haas em 2016.

Do time italiano, Buscombe deu um grande passo ao se tornar chefe de estratégia da estreante Haas, time que tem extensa parceria com a Ferrari, em 2016. Logo em sua estreia, ajudou Romain Grosjean a ser sexto lugar por meio de uma estratégia inteligente, usando um período de bandeira vermelha para, efetivamente, completar a prova sem pit stops, economizando cerca de 20s no tempo total de prova.

Não demorou para Buscombe se destacar e ir para a Sauber em setembro de 2016. E ela já deixou sua marca na equipe suíça novamente ousar na tática de corrida e ser fundamental para os quatro pontos conquistados por Pascal Wehrlein com o oitavo lugar no GP da Espanha, resultado inesperado para a equipe que tem o pior carro do grid e ainda lida com uma importante defasagem de potência, uma vez que é a única a usar motores de 2016, com pelo menos 60cv a menos de potência. Ainda assim, com o resultado de Barcelona, o time está na frente da McLaren no campeonato.

Divulgação/Sauber
Tática de Buscombe foi fundamental para os únicos pontos marcados pela Sauber em 2017, na Espanha Imagem: Divulgação/Sauber
“Eu estava na faculdade ajudando a modelar o DRS, mas o que realmente gostava de criar eram os modelos para estudar o impacto estratégico disso nas corridas”, revelou. “Por isso eu passei a focar mais nessa área. Mas eu sempre quis estar na Fórmula 1 e sempre quis entrar na categoria como engenheira, amo matemática e acho que é uma ciência muito mal divulgada, pois o mundo precisa de engenheiros e há várias carreiras para seguir dentro dessa área.”

Mal divulgada, especialmente, para garotas, como salienta Buscombe. “Elas precisam saber que a engenharia também é para elas. Quando estava na escola, não sabia que poderia fazer isso e é aí que temos de dizer às garotas que essa possibilidade também existe.”

Machismo x qualidade
Buscombe reconhece ter se surpreendido com o machismo no mundo da engenharia e do automobilismo, mas acredita que, especialmente na F-1, quem demonstra qualidade acaba ganhando espaço, independentemente do gênero.

“Acho que eu era muito ingênua antes. Estudei em um lugar fantástico em que não tinha consciência que o mundo era assim. Às vezes você perde uma oportunidade simplesmente porque eles não querem uma garota no grupo, acreditam que vai atrapalhar a dinâmica. Tem muita coisa que precisamos mudar, mas também tenho de dizer que a F-1 tem pessoas fantásticas que realmente não se importam se você é homem ou mulher, mas sim com o trabalho que você faz”, diz a engenheira, citando, por exemplo, Pat Fry, que lhe deu a primeira chance na Ferrari. “Os pilotos com quem trabalhei também sempre me apoiaram: eles querem saber de serem competitivos, independentemente de quem está trabalhando com eles.”

Ainda que enxergue evolução, Buscombe ainda sonha com uma F-1 que encare a presença feminina com mais naturalidade. “Espero que cheguemos a uma posição em que não tenhamos de provar mais do que qualquer homem que podemos fazer o mesmo trabalho.”

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